João Mércio Gomes 
10/08/2018
10:40
Rio de Janeiro (RJ)

O Vasco entrou em campo na noite de quinta com a difícil tarefa de reverter um placar de dois gols para se classificar na Sul-Americana. E os quase vinte mil vascaínos em São Januário podem atestar: não faltou vontade e entrega na busca do resultado até o último minuto. Tanto é que, mesmo com a eliminação, a torcida aplaudiu o time no apito final. O suficiente para sair de cabeça erguida? Não, longe disso. O LANCE! analisa. 

Logo após os noventa e poucos minutos, o técnico Jorginho e o meia Thiago Galhardo tiveram discurso parecido. Afirmaram que o Vasco dominou o jogo, teve condições de ampliar o placar e a vitória por 1 a 0 foi amarga pelas circunstâncias. Acredito que os leitores concordam. Porém, fizeram questão de levantar uma birra mal explicada e pouco relevante no momento ao rebater um repórter equatoriano que, pelo visto, desdenhou do Vasco no primeiro confronto há duas semanas. Confira.

Tivemos um domínio completo do jogo. Lembro de uma pergunta pós-jogo de um repórter deles perguntando se aquele era o Vasco. E hoje eles viram quem é o Vasco. Fizemos um gol, poderíamos ter ganho de três ou de quatro. Eles tiveram quatro chutes só - afirmou Jorginho.

Triste. É uma vitória amarga. por tudo que criamos. Mas avisa para o repórter de lá (do Equador), que perguntou quem era o Vasco. Está aí. Esse é o time que nós somos, jogando dentro e fora de casa da mesma maneira. Hoje tivemos várias oportunidades, eu mesmo tive três e só fiz uma - ressalta Galhardo.


Valorizar a própria atuação é válido, e deve mesmo ser feito. Mas, têm certeza que esse é o Vasco? Uma boa atuação se sobressai ao fato de ser eliminado em casa pela terceira vez no ano, todas na primeira fase? Jorginho e Galhardo, me desculpem, mas o clube é bem mais que isso. Números altos em posse de bola e finalizações podem ser ilusórios, como a Copa do Mundo mostrou recentemente. E ninguém esperava uma postura diferente do time forte fisicamente, mas pouco qualificado tecnicamente da LDU. Vieram para se defender, catimbar e suportar a pressão jogando fechadinho. Faz parte da estratégia. Todos os times podem usar.

A LDU uma equipe que jogou no contra-ataque e na bola parada. Foi um jogo que teve um domínio completo da nossa equipe, mas infelizmente não revertemos no resultado que precisávamos. Pagamos o preço do terceiro gol lá. Eu vi uma equipe completamente compenetrada - completa o treinador.


Basta lembrar que, em uma decisão mata-mata com ida e volta, o jogo é de 180 minutos. E nos primeiros 90, em Quito, o Vasco também não jogou e passou sufoco. A altitude influencia e muito, claro. Mas a postura naquele confronto não foi a mesma da Colina. A começar pela escalação, quando Jorginho poupou Breno - que sofre com problemas físicos - e entrou em campo sem um centroavante. Correu o risco de ser eliminado lá mesmo. E o grupo - ou pelo menos os dois que concederam entrevista - se apropriou dessa desvantagem para amenizar uma queda em competição internacional, a última chance de título no ano.

 - Olhando no olho dos jogadores a gente vê a motivação. Contra o São Paulo, o bicho pegou lá dentro. Não poderíamos tomar aquele gol. Vejo uma equipe que briga, se tiver que xingar, xinga. E eles continuam amigos. Vimos claramente que tínhamos condições de passar - disse Jorginho.

Não é preciso bombardear o adversário de finalizações para perceber que a chance de classificação era real. Nem exaltar a postura do time em uma derrota, quando a entrega deveria ser obrigação e o resultado poderia ser melhor. O treinador ainda exaltou a participação da torcida e jogou no ar que 'o time ainda pode surpreender muita gente' no Brasileirão. Brigar por uma vaga entre os seis primeiros não é surpresa; é o que se espera de um clube grande.

​TATICAMENTE FALANDO
​Tirando as circunstâncias citadas no texto acima e falando apenas dos 90 minutos de quinta-feira, a partida do Vasco realmente não foi ruim. Segundo dados do Footstats, foram 35 finalizações (recorde da equipe no ano) e 62% de posse de bola. Mostra que o time teve domínio e foi bem superior em campo.

Mesmo com a LDU retrancada, o Cruz-Maltino achou espaços e arriscou chutes de diversas formas: por cruzamentos, dribles pelos lados, tabelas no meio... Mas a bola só entrou aos 40 do segundo tempo. O coro de 'fora Jorginho' virou rotina e é direito da torcida. Mas, especificamente ontem, foi por já estar entalado na garganta. O treinador montou a estratégia que deu certo; quem chuta a bola para dentro ou para fora é o jogador em campo. E, talvez se Maxi estivesse à disposição, a história seria outra.

Criticado por ser 'covarde' ao recuar o time, Jorginho não seguiu essa linha nas substituições. Nada pôde fazer quando dois zagueiros saíram machucados no primeiro tempo. Colocou o volante Raul na lateral, improvisado, e o garoto foi tímido. Pôs Ricardo na zaga e Luiz Gustavo ao seu lado. No segundo tempo, tirou o volante Desábato, que já não tinha mais função, e colocou Caio Monteiro, outro atacante, ao lado de Ríos. Errado não está. Também tinha a opção de recuar Pikachu para lateral anteriormente, mas o camisa 22, hoje, é atacante pelo simples fato de saber fazer gols, principalmente os decisivos. O artilheiro do Vasco na temporada, porém, não estava em uma noite inspirada.

Por isso, a única forma de chegar ao gol era com Thiago Galhardo, o mais incisivo do time depois de Pikachu. Aberto pela esquerda, fez as melhores jogadas do primeiro tempo e por pouco não abriu o placar:

- Temos de conhecer o nosso atleta. Quando falei para o Thiago que ele jogaria um pouco mais aberto, eu fui muito claro, porque já passei por essa situação. Ele não é de extrema velocidade. Ele arrasta, é rápido, tem passada larga. Tem sentido de marcação. Ele nunca vai ser aquele jogador que vai acompanhar o lateral. O lateral que tem de acompanhar ele. Ele tem de ser o quarto homem do meio de campo. O Thiago é extremamente inteligente e obediente. Sempre se coloca à disposição.

Na etapa final, Jorginho ainda fez mudanças táticas e lançou o time a frente. Colocou Thiago no meio, mais próximo de Giovanni, que sofria com a forte marcação no setor. Assim, Ramon subiu pela esquerda e o Vasco tentou de tudo.

​- Mudamos a forma de jogar no segundo tempo. Fizemos um 3-4-3, porque queria o Ramon mais adiantado. Foi muito bom quando o Thiago Galhardo veio jogar mais atrás, fez o Giovanni jogar. O último passe dele é sempre muito bom. Não tem o que fazer.

Vasco x LDU
Vasco terminou o jogo com seis jogadores na linha de frente

Jorginho tentou, mas não teve mais o que fazer. Futebol é assim, nem sempre é possível vencer. O que não é desculpa para sair satisfeito com as derrotas.

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