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Vadão: 'Não me faltam títulos, mas oportunidades'

Dia 27/10/2015
21:21

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Ele dirigiu oficialmente uma equipe pela primeira vez em 1992. Com esquema de três zagueiros e movimentação inovadores, criou o famoso Carrossel Caipira em Mogi Mirim. Exatos 20 anos depois, topou dirigir um Guarani desacreditado e sem recursos, conduzindo-o até a final do Paulistão Chevrolet, com futebol eficiente e ofensivo.

– Dirijo apenas times de futebol e minha família – Oswaldo Alvarez, o Vadão, 55 anos, que não tem carteira de habilitação e sempre vai aos treinos de carona com o auxiliar Gersinho, parceiro de trabalho desde o início da carreira.

Em entrevista exclusiva ao LANCENET!, o técnico fala sobre suas duas décadas de carreira, das chances remotas de título após sofrer a goleada de 3 a 0 do Santos na semana passada e sobre a falta de oportunidades em grande clubes. Confira:

Você disse que o Santos tem 99% de chance. Mantém?

Quando falei 99%, é porque foi 3 a 0, com Neymar em um momento extraordinário. Se eu falar que temos 50%, vão rir da minha cara, mas nada é impossível. No futebol acontece muita coisa durante o jogo... Na pior das hipóteses, vamos tentar vencer o jogo. Temos de fazer o primeiro gol. No basquete, bastaria um arremesso, mas, no futebol, temos de fazer um por um. O pensamento é o de fazer o melhor possível, temos quatro desfalques fundamentais (o lateral direito Oziel, o zagueiro Neto, o volante Wellington Monteiro e o meia Fumagalli), mas vamos espernear até o fim.

Como planejou parar Neymar no primeiro jogo?

Da forma como jogamos. Tinha anunciado uma semana antes que não usaríamos da deslealdade. O Neymar é o maior patrimônio do nosso futebol. E não é meu estilo usar esse artifício. Mesmo sendo uma final, não faria uma marcação que o colocasse em risco. E será assim de novo. Vamos marcar com lealdade. E ele foi bem marcado, só que é um fora de série. Se você dá um vacilo, o que nem foi o caso... Fez contra o São Paulo também, logo três, contra a gente fez dois. O Santos, hoje, além de ter uma grande equipe e um grande treinador, tem o Neymar, que está acima do bem e do mal.

Você deu as primeiras oportunidades para Rivaldo e Kaká. Acha que Neymar será um melhor do mundo?

Não sei se vai ter a premiação, mas que já é um dos melhores, isso é indiscutível. Só que existe aquele negócio de o cara ter de ir para a Europa para ser o melhor do mundo. Por que não pode ser aqui? Acham que na Europa o teste é mais forte, mas não vejo assim. Ele é um dos melhores do mundo hoje e vai brigar pelo prêmio quando for para o exterior.

Rivaldo e Kaká foram os melhores com quem trabalhou?

Não. Foram considerados melhores do mundo pela premiação que tiveram, mas trabalhei com outros muito bons também. O França foi um dos melhores atacantes com que trabalhei, Luis Fabiano... O Jadson, que hoje está em fase de readaptação no São Paulo, foi um dos mais inteligentes que já vi, no Atlético-PR. Trabalhei com Dagoberto, com Róbson Pontes, que foi novo do Guarani para Alemanha, fez toda a carreira fora. Com jogadores de grande talento e estilos diferentes. O Adriano Gabiru, mais jovem, jogava muito, tá louco! (risos) Mas, com Rivaldo e Kaká, os fatos comprovaram, né? Não adianta falar que foi um belo jogador se não chegar a lugar nenhum.

Em Campinas, há uma grande expectativa em cima do Bruno Mendes. Como o vê?

Tem um potencial muito grande. É um atacante muito jovem ainda, teve uma rápida ascensão aqui, mas precisa se adaptar melhor no departamento profisional. Com a dificuldade de contratar jogadores em janeiro, puxamos alguns da base. Tentamos alguns mais experientes, como o Roger (Ponte Preta), mas não deu certo, e apostamos nele. Mas tem tudo para ser um grande jogador, foi até convocado para a Seleção sub-20 nessa última semana.

Como define o Guarani?

Um time altamente comprometido. Escolhemos algumas peças, Fumagalli, Domingos, André Leone, Wellington Monteiro, Fabinho, Emerson, Danilo Sacramento, jogadores experientes que deram sua contribuição em termos de união, comando e liderança no grupo. Deram essa consistência. Trabalhamos junto do psicólogo na montagem do espírito de equipe, pois, às vezes, há vários experientes que não contribuem ou que não são exemplos fora de campo. Mas conseguimos bons jogadores, líderes e exemplos para os mais jovens. Tudo se completou. O Guarani é um família, com forte espírito de equipe.

Muita gente tem preconceito com psicólogo no futebol...

Nós usamos, mas o João Serapião trabalha comigo há muito tempo. Foi meu psicólogo em 1974, quando comecei a jogar, é muito experiente. Traça o perfil individual, depois o coletivo. Com esses dados, faz a identificação dos líderes e trabalha com a estratégia montada.

Está feliz por coroar os 20 anos de carreira assim?

Sem dúvida. Completar 20 anos de carreira Brasil é um desgaste enorme, mas sempre consegui me manter em um patamar não lá em cima sempre, mas também não lá embaixo. Num patamar muito bom, não tenho queixas. Por todo lugar que passei, com raras exceções, deixei bons trabalhos. Sempre consegui revelar bons atletas ou deixei algo plantado. Hoje, analisando, mais experiente, fui técnico do Mogi por quatro anos e meio, fiquei três anos no Atlético-PR, três na Ponte Preta, quatro no Guarani, dois no São Caetano. É uma satisfação ter trabalhado em vários clubes e sempre ser recontratado. Isso prova que deixei as portas abertas nos lugares que passei. Refletindo nisso, não rodei tanto, repeti muitos clubes nesses 20 anos. Fui sempre respeitado.

Apesar disso, acha que faltaram títulos?

Não. Conquistei objetivos em times de menor expressão. No São Paulo, ganhei o Rio-São Paulo. No Corinthians, realmente não fui bem. A equipe havia sido desmontada, ali seria um time de ponta para ter mais chances de título.Porque, para ser campeão, é preciso trabalhar em cima de oportunidades. Hoje, na Série A, é utopia falar que um clube médio vai ser campeão. Se acontecer, é milagre. É impossível competir nos pontos contra São Paulo, Inter, Grêmio, Corinthians... Não dá! Quando se classificavam oito, o São Caetano foi, cheguei com a Ponte bem próximo de semifinal e final, tinha oportunidades maiores. Não me faltam títulos, mas mais oportunidades em times de ponta. O Muricy Ramalho é um cara vencedor, mas venceu por São Paulo, Fluminense... No Náutico, foi campeão pernambucano, assim como eu fui campeão paranaense. É que os clubes considerados de ponta são os de Rio, São Paulo, Minas e Rio Grande do Sul, outros estados não estão inclusos. Então, faltou um pouco mais de oportunidade em equipes com mais condições financeiras e técnicas para brigar. Por isso, ver o Guarani chegar na final e deixar fora três grandes é uma proeza.

Sobre não ter chance em clubes de ponta: falta marketing?

Faz parte da estratégia, mas eu nunca me preocupei com isso. Quando comecei a ser técnico, em 1992, você era reconhecido pelo seu trabalho. Hoje, muitas coisas influenciam. O marketing, por exemplo, a mudança radical na Lei do Passe, os patrocinadores e as empresas que assumem clubes e querem determinados treinadores... Por exemplo, o Guarani está numa situação difícil. Vem uma empresa e fala: vou colocar dinheiro aí em parceria, só que não quero o Vadão, quero o meu treinador, da minha confiança. Não é mais aquela coisa de que, se você faz um bom trabalho, estará empregado... Fiz um bom trabalho no Guarani. Não posso dizer que não estou sendo reconhecido, mas isso não me garante que vou estar numa grande equipe. Antigamente, isso era um fato real. Há treinadores em time de ponta que não têm o currículo que eu tenho.

20 anos como técnico

Vadão ficou conhecido em seu primeiro clube, o Mogi Mirim, ao montar o famoso "Carrossel Caipira". Venceu a Copa 90 anos de Futebol, em 1992, e o Troféu Ricardo Teixeira, no ano seguinte.

Além da atual passagem, treinou o Guarani outras 4 vezes: 1995, 97, 98 e 2009.

Venceu o Campeonato Brasileiro da Série C, pelo XV de Piracicaba, em 1995.

Em 1999, passou pela Matonense, da cidade de Matão, no interior paulista.

O Atlético–PR ganhou o Campeonato Paranaense de 2000 sob seu comando.

Também em 2000, Vadão treinou o Corinthians durante o Brasileirão.

Pelo São Paulo, venceu o extinto Torneio Rio-São Paulo, no ano de 2001.

Passou pela Ponte Preta em 2002 e duas vezes em 2005, sem ganhar títulos.

Treinou o Bahia em 2004, ano em que o Baianão completou cem anos.

Foi para o Japão em 2005, onde conquistou a Supercopa pelo Tokyo Verdy.

Assumiu o Vitória em 2008 e garantiu o retorno do Leão à elite do futebol brasileiro.

Ficou apenas durante o mês de agosto de 2008 no comando do Goiás.

Logo em seguida foi para o São Caetano, onde voltou a trabalhar no ano passado.

Teve campanha irregular na Portuguesa, em 2010, onde ficou de abril a outubro.

MEMÓRIA: A 'inovação' de Vadão

O Carrossel Caipira

O primeiro trabalho de Vadão como treinador aconteceu naquele que se tornou o seu grande cartão de visitas: o Carrossel Caipira do começo dos anos 1990, quando o Mogi Mirim revolucionou o futebol com um esquema 3-5-2, mas com os jogadores girando em campo, sem guardarem posição fixa, como o Carrossel Holandês da Copa de 1974. Os destaques daquele time eram Rivaldo (foto), Leto e Válber.

– Fiz ótimos trabalhos, mas o primeiro, com o Carrossel, foi muito marcante. Foi uma inovação e, quando você inova alguma coisa, fica marcado. Houve uma reciclagem no futebol brasileiro. Depois que o Sebastião Lazaroni usou 3-5-2 na Seleção da Copa de 90, eu entrei com ele, mas com uma inovação na movimentação dos jogadores, da rotatividade. Foi uma inovação no sistema. Não inventei, mas inovei, e teve repercussão nacional muito grande. Porque foi em cima de um esquema que ninguém gostava, mas que foi muito bem aplicado. Ali, resgatamos o futebol bonito, usando um sistema europeu – diz Vadão.

Mas quase que Vadão não assumiu a equipe. Querendo seguir a carreira de preparador físico, ele estava em dúvida na reunião com o presidente Wilson Barros e o diretor de futebol Henrique Stort. Foi então que Stort deu um chute em sua canela por baixo da mesa e ele resolveu aceitar a nova função.

A escalação do Carrossel Caipira: Mauri, Capone, Ildo e Luis Carlos Guarnieri; Polaco, Fernando, Chiquinho, Válber e Admílson; Leto e Rivaldo. Técnico: Vadão.

Batalha dos Aflitos: exemplo para virar

Outro milagre?

Além de subir, o Grêmio venceu a Série B de 2005, em cima do Náutico, com um gol após a expulsão de quatro gremistas e dois pênaltis perdidos pelo adversário. Domingos, agora no Guarani, era zagueiro do time gaúcho:

– Quantos resultados que ninguém acreditava? Temos o Domingos, que fez parte da inacreditável Batalha dos Aflitos – lembra Vadão, confiante.

Saiu do Bugre após briga

Vadão começou sua primeira passagem pelo Guarani em 1995. No entanto, ela foi rapidamente encurtada pois o treinador não se entendia com Djalminha, astro da equipe. O técnico se demitiu após seis partidas no Bugre.

– Naquela oportunidade, entendia que o Djalminha era um grande craque, mas a gente não estava se entendendo bem. Chegou o momento que o clube não poderia tomar atitude contra um grande jogador como ele, que era o melhor do time na época. Ele era o astro, então saí.

Renovação? Trabalho na base já começou!

Com contrato até o final da Série B do Brasileirão deste ano, Vadão acredita que é possível um prorrogação de seu vínculo como treinador do Guarani.

– Na verdade, já tenho compromisso firmado até o final do ano. O presidente está tentando ver se fazemos uma prorrogação para 2013 e 2014, pois me pediu para coordenar a base, fazer um trabalho integrado – explicou Vadão, confiante nos resultados.

Enquanto o Paulistão não termina, o técnico já iniciou o trabalho nas categorias de base do Bugre, a pedido do presidente Marcelo Mingone. E os frutos já estão sendo colhidos: as equipes agora  jogam com apenas um volante no esquema tático.

– Nas categorias inferiores, não se joga mais com dois volantes, só com um. Queremos resgatar a  tradição do Guarani e do futebol brasileiro, que acabou se perdendo. Queremos criar uma identidade desde a base. Teremos uma diretriz a ser seguida.

Segundo o técnico, na próxima semana, acontecerá uma reunião que servirá para juntar as ideias e terminar de montar o novo projeto com os jovens atletas bugrinos.

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