'Temos mais da metade do caminho andado', diz gerente da Rio-2016
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Como gerente-geral de Sustentabilidade, Acessibilidade e Legado do Comitê Rio-2016, a economista Tânia Braga tem metas ambiciosas em relação aos primeiros Jogos Olímpicos e Paralímpicos da história da América do Sul. Embora o tema sustentabilidade já venha ganhando fôlego desde a edição de Sydney, em 2000, atualmente ele se mostra urgente na pauta de uma cidade que se propõe a sediar um megaevento.
Evitar elefantes brancos, cobrar e fiscalizar para que toda a cadeia de produção cause o mínimo possível de impacto ambiental e dar conta de grandes estimativas, como as 14 milhões de refeições que serão servidas durante os Jogos, com um consumo de mais de 6 mil toneladas de alimentos, são algumas das missões de um grupo de trabalho que atua diariamente na cidade olímpica e do qual ela faz parte.
Faltando 409 dias para o início dos Jogos Olímpicos, a Rio-2016 afirma que metade do orçamento de aproximadamente R$3 bi destinado a compras já foi gasta. Até dezembro, a previsão é de que 90% das compras necessárias para o evento tenham sido concluídas.
Nesta entrevista exclusiva ao LANCE!, Tânia conta os planos da organização para fazer da Rio-2016 um marco de sustentabilidade, tanto para os pequenos empreendedores quanto para os torcedores e atletas do mais alto nível. Ela acredita que as práticas em execução podem deixar como legado uma nova cultura do país em sua relação com o meio ambiente.
LANCE!: Vocês divulgaram em outubro do ano passado o relatório de carbono dos Jogos, com meta de estimular uma economia de baixo carbono. De lá para cá, o que já foi feito nesse sentido?
Tânia Braga: Estamos trabalhando em parceria com a DOW (patrocinadora). Até agora, eles fizeram um trabalho conosco para começar a fechar os contratos com os fornecedores. Faremos uma apresentação para a imprensa, provavelmente em outubro, com a atualização dos números. Posso dizer que já temos mais da metade do caminho andado. A receptividade pode ser muito boa.
LANCE!: Dentre os planos anunciados pelo Comitê no ano passado, estavam redução de materiais por meio de um design inteligente, compras sustentáveis em toda a cadeia de produção e a substituição de combustíveis fósseis por combustíveis renováveis. Essas iniciativas já são visíveis? O que pode falar sobre?
Tânia Braga: O primeiro ponto é a mitigação. Selecionamos um determinado projeto de design e questionamos: de que ele é feito? Temos de entender o que é o evento. Pegamos um monte de pessoas e reunimos em um local restrito. Será que conseguimos usar todo o poder de mobilização das nossas compras para levantar um pouco a barra do mercado nacional em termos de resultados ambientais? Vimos que sim. Não fizemos isso sozinhos. Em alimentação, pedimos para ONGs montarem um requerimento. Quem trabalha com madeira, solicitamos que usassem a certificada. O desmatamento no Brasil é uma questão fundamental. A madeira certificada ajuda a controlar. Fizemos o que é fundamental para mobilizar esses setores a melhorarem os seus parâmetros.
L!: Em que outras áreas a sustentabilidade está presente na cadeia dos Jogos?
TB: Alimentação sustentável, por exemplo. Vivemos um momento de crise hídrica, em que 70% da água é consumida pela agricultura. Se estamos pensando em água, temos de pensar em produção sustentável de alimentos. Enfatizamos condições dignas de trabalho e intolerância a trabalho análogo à escravidão. Temos feito auditorias. Esse trabalho começou lá atras, em 2012, e desde então conversamos com diversos setores da sociedade.
L!: Matéria do UOL do dia 22 de maio mostrou que o governo estadual não pretende mais plantar 34 milhões de árvores para os Jogos. Caminha para plantar cerca de 8 milhões. Isso prejudica a meta inicial do Comitê de compensar 1,6 milhões de toneladas de carbono?
TB: Não, não prejudica. É importante entender que nós calculamos o tamanho de toda a nossa operação, incluindo viagens e construções, e fizemos uma estimativa. Pode ser que precisemos compensar bem menos do que isso no final. Neste ano, vamos revisar o número. Hoje, temos um planejamento detalhado. Vamos soltar um inventário. Estimamos isso em 2009. Era a melhor estimativa naquele momento. Os dados foram atualizados. É uma evolução.
L!: Como acredita que a sustentabilidade vai aparecer de forma mais evidente para o grande público?
TB: Diria em dois pontos: primeiro, no comportamento do espectador, do turista. Vamos entrar com uma campanha bem intensa de como as pessoas podem colocar a sustentabilidade na sua rotina durante os Jogos. O segundo ponto mais visível é o trabalho na cadeia de suprimentos, ou seja, as instalações temporárias. É você não deixar elefante branco. Outra questão é a coleta seletiva de resíduos dentro das instalações. Isso nós teremos.
L!: Pode explicar como vai funcionar a produção das medalhas, dentro dessa lógica da sustentabilidade?
TB: Vamos contar a história de como as medalhas foram produzidas. Elas são feitas de metal precioso. Normalmente, compra-se no mercado. Mas a mineração tem um impacto ambiental significativo. Qual é a alternativa? Os componentes eletrônicos de telefone e computador têm metais preciosos. Há técnicas hoje no mercado para recuperar esse metal e utilizar um percentual dele. Ainda há poucas empresas no Brasil que fazem isso. A Casa da Moeda, que é responsável por fazer as medalhas, irá buscar metais de origem reciclada. O benefício? Estaremos movimentando esse mercado. Se empresas e joalherias que trabalhem com metal precioso descobrirem essa possibilidade, atingimos o objetivo. Quem fizer a reciclagem vai ganhar clientes e reciclar mais telefones, mais aparelhos.
L!: Já é possível ter um retorno sobre o trabalho que vem sendo feito no sentido de promover Jogos sustentáveis?
TB: Temos casos legais. Nosso gerente-geral de suprimentos (João Saraiva) recebeu telefonema de um fornecedor do setor de eletroeletrônica agradecendo pela auditoria que demos, porque foi criteriosa, positiva, e ajudou a melhorar o seu trabalho. Vemos que está funcionando. Os móveis que compramos para o laboratório de testes de tecnologia (localizado na sede do Comitê, no Rio) foram fornecidos por uma empresa do Rio Grande do Sul com 37 funcionários. Antes, eram sempre empresas globais e multinacionais que forneciam. Conseguimos que uma pequena empresa certificasse sua cadeia de madeira. Hoje, ela se sente capaz de exportar, virou uma média empresa e ofereceu melhor preço. Estamos criando esse tipo de cultura.
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