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Opinião: Pó de arroz, maquiagem e a dívida secular com as mulheres

Dia 01/03/2016
03:07

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Uma declaração de Marco Aurélio Cunha causou polêmica nas redes sociais nos últimos dias. Após conceder entrevista a um jornal canadense, o coordenador de futebol feminino da CBF foi acusado de machismo por inúmeros coletivos feministas.

– As mulheres estão ficando mais bonitas, passando maquiagem. Elas vão a campo de uma maneira mais elegante. Futebol feminino costumava copiar o masculino. Até nos modelos de camisa, que eram masculinos. Nós vestíamos as meninas como garotos. Então faltava o espírito de elegância, de feminilidade. Agora os shorts são mais curtos, os cabelos são bem feitos. Não são mulheres vestidas como homens – teria dito Cunha, que depois acusou o periódico de distorcer suas falas.

– Nunca tive medo de opinar. A matéria em questão foi posta em um contexto todo diverso do conteúdo. Falo de aprimoramento de estilo, uniforme. As meninas escolhem o que querem, sua apresentação e estilo. Estão caprichando, se sentindo bonitas, com novos modelos de uniformes. Errado? Continuo ouvindo bobagem e falta de inteligência em uma fala real fora de contexto. Deixar um uniforme mais feminino e elegante é machismo? – argumentou, via Twitter.

O novo uniforme da Seleção Brasileira feminina (Foto: Nicholas Kamm/ AFP)

A ideia de "espírito de elegância e feminilidade" remete (intencionalmente ou não) à inaceitável sugestão de Joseph Blatter, presidente da Fifa, que já pediu às jogadoras para usarem shorts mais apertados para chamar atenção à modalidade. Ambos os discursos objetificam as mulheres e as colocam como peças de entrenimento de homens, "o verdadeiro público-alvo do futebol".

O esporte bretão começou a ganhar espaço no Brasil nas primeiras décadas do século passado. Poucos anos após a abolição da escravidão, negros eram discriminados e portanto proibidos de participar dos jogos de futebol. A sociedade também era absurdamente patriarcal, e mulheres mal podiam sair de casa. Jogar futebol então, nem em sonho.

Na época, negros, entre outras táticas, passavam pó de arroz na pele com intuito de "parecerem brancos". Esse era o método de ser aceito no então racista futebol. CEM ANOS depois, mulheres também vivem sob expectativa de passar pó no rosto (entre outras táticas) para serem aceitas no ainda machista futebol.

Francisco Carregal, do Bangu, com a bola em mãos, foi primeiro negro escalado num jogo oficial no Brasil, em 1905 (Foto: Reprodução)

Se mulheres quiserem passar maquiagem, que passem. Se quiserem usar shorts curtos, que usem. Vestimentas e adereços não são parâmetros para dirigentes avaliarem a evolução ou não da modalidade. Não é sequer assunto sobre o qual homens tenham direito de opinar.

Marco Aurélio Cunha, ainda confio no seu trabalho por trás do nosso futebol feminino. Assumiu o cargo no início de maio, há pouco mais de um mês, e tem como missão reformular a modalidade no Brasil (das abandonadas categorias de base à renomada porém já envelhecida Seleção). Portanto, não perca tempo se preocupando em vestir jogadoras "como garotas". Se procupe em incentivar garotas a se tornarem jogadoras. Apenas.

Da coordenação de futebol feminino da CBF, esperamos clareza e evolução. Não mais maquiagem.

Marco Aurélio Cunha assumiu cargo na CBF em maio (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

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