Manifestações recentes no Brasil são comuns na Espanha há alguns anos
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Enquanto cria-se uma rivalidade entre Brasil e Espanha, pela final deste domingo da Copa das Confederações, com direito a provocações, comentários agressivos na internet e até ofensas racistas, algo grande aproxima os dois países: manifestações populares. Se na sede do torneio elas começaram há algumas semanas, na pátria ibérica elas já vêm há alguns anos.
A crise na Espanha vem desde 2008, mas o marco das manifestações foi no dia 15 de maio de 2011, tanto que o movimento ganhou o nome de "15-M". Só entre a data e agosto do mesmo ano, a estimativa é que entre 6 a 8,5 milhões de pessoas tenham ido às ruas. Porém, apesar do tamanho da insatisfação ser semelhante, as reivindicações tinham outras naturezas.
- A questão da Espanha é bastante diferente da do Brasil. Basicamente porque tudo chega com o aprofundamento da crise econômica que começa nos Estados Unidos e que depois acaba eclodindo na Europa, no sul da Europa entra de forma mais forte. E as pessoas começaram a se indignar e foram às ruas - começa Breno Bringer, professor do "Instituto de Estudo Sociais e Políticos" da UERJ, em entrevista ao LANCE!NEt:
- Uma delas é a questão da moradia. Desde a mudança do século, veio uma bolha imobiliária enorme, fruto da especulação, e explodiu. Vários empréstimos, pessoas que não conseguiam pagar foram despejadas, e isso foi muito forte. Aumento do desemprego (superou os 25%), principalmente entre os jovens. Nunca, na Espanha, os jovens foram tão bem formados, e é uma geração sem futuro, sem emprego, começou a emigração forte, jovens com mestrado e doutorado trabalhando como caixa de mercado.
Breno lembra que além disso, houve uma crítica mais ampla ao sistema político e aos partidos convencionais. E é aí que ele consegue traçar um paralelo com a situação brasileira, em que há uma discussão sobre a reforma política.
- Há um sentido de indignação mais amplo, que tem a ver com a política em geral. Deve ser discutido e analisado com cuidado. Não é uma rejeição à política, mas a uma determinada forma de fazer política, determinadas instituições, determinados canais que foram construídos dentro da inconstitucionalidade. Não vejo rejeição à política. É uma questão geral, então isso é uma questão geral ao processo dos indignados, não só Espanha e Brasil, mas em outros lugares.
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Tudo começou quando alguns manifestantes resolveram simplesmente acampar na "Puerta del Sol", na capital espanhola. Com isso, veio o movimento "Democracia Real Já", com diversas reivindicações. O movimento foi tomando corpo, e algumas das reclamações foram atendidas. Mas para Bringer, o horizonte não é lá tão animador.
- A saída da crise não está sendo adequada. As políticas de combate à crise têm sido de austeridade, e isso nós sabemos bem na América Latina que não funciona, não é possível sair da crise com política de retenção de gastos. O Brasil vem em uma contramão a isso, o Brasil tenta estimular o consumo, crescer o mercado interno. Embora feito de maneira contraditória, foi o que fez o Brasil saísse de maneira relativamente favorável.
REFLEXOS NO FUTEBOL
No Brasil, o povo fez questão de que as manifestações nada tinham a ver com a Seleção, apesar de muitas das reclamações serem relacionadas aos altos gastos da Copa do Mundo. Dentro dos estádios, a torcida adotava o sentimento que vinha de fora, e até transmitia para o time. Breno, que viveu em Madri durante parte das últimas duas décadas (mas é torcedor do Barcelona), lembra que isso não aconteceu na Espanha.
- Um fator que complica que são as disputas nacionais. O sentido da identidade nacional é uma reivindicação do centralismo político associado a Madri - recorda Breno, citando regiões com fortes identidades, como Catalunha, País Basco e Galícia:
- Então toda a população acaba ficando contra a identidade espanhola, que está associada a um projeto político específico, que exclui a independência. É muito difícil que isso chegue ao terreno do futebol. Essa população, que é muito importante, não se identifica tanto com a seleção.
COM A PALAVRA
Eduardo Rocha Azevedo
Fundador da BM&F e ex-presidente da Bovespa
A movimentação da Espanha não tem nada a ver com a movimentação daqui. Lá foi por uma crise econômica sem precedentes, passa por um problema de desemprego tremendo, e levou às manifestações. Teve até de corrupção, mas não tem nada a ver com a do Brasil. Eles não colocam a corrupção como fato principal, como aqui. O país tem 50% dos jovens desempregados. Aqui é o povo não aguentando mais, principalmente a classe mais jovem, de 15 a 25 anos, em termos com gastos de Copa, corrupção, que é uma vergonha, um lugar que nem tem futebol direito, como Brasília, ter um estádio daquele...
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