Kanaan: 'Prefiro ganhar em SP do que as 500 Milhas'

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Mais correria, impossível. Após uma semana com uma virose e diversos compromissos adiados ou atrasados, Tony Kanaan recebeu a reportagem do L! no pique, já na noite de sexta, em meio a uma reunião da KV Racing. Mas, como sempre nas entrevistas com Tony, as piadas e opiniões firmes e coerentes deram o tom. Sem subir no muro, o campeão da Indy de 2004 disse que uma vitória hoje em São Paulo seria até mais importante do que ganhar em Indianápolis. Mas, após o desastroso treino classificatório – veja ao lado –, ficou mais complicado.Apesar do revés, ele promete ir para cima na corrida de hoje.
Para quem estava numa situação delicada e conseguiu um patrocínio em cima da hora, está sendo um ano melhor do que a encomenda, não?
Com certeza. Se você falasse para mim que eu estaria em terceiro no campeonato com três provas e após ter assinado um contrato cinco dias antes da primeira corrida, eu iria rir de você. Mas foram três resultados muito bons. A gente aproveitou os erros de outros, mas estou aproveitando essa maré de bons resultados e constância para tirar a maior vantagem. Ainda há muito o que trabalhar na equipe e melhorar no carro, mas posso dizer que estou bem confiante que a gente pode crescer muito. A equipe só conseguiu ficar entre os três primeiros duas vezes na vida, uma com o Takuma Sato e outra comigo, estou tentando levar a equipe para um nível um pouquinho mais alto pela minha experiência na Andretti.
E o que você já conseguiu implantar na equipe?
É a mentalidade vencedora. É uma equipe que sofreu muito com maus resultados no passado. É aquela coisa de trabalhar de forma mais rápida e manter a equipe junta, coisas que eu fazia na outra equipe e consegui trazer comigo. Não é em termos técnicos, de acerto de carro, mas de juntar as pessoas para elas virem para a pista com prazer. É lógico que o resultado ajuda muito, mas com isso você eleva o nível da equipe, porque os carros são iguais há oito anos. Não tem muito mais segredo. Os meus engenheiros foram contratados comigo, agora é entrosar mais. Não adianta a gente achar que vai ganhar o campeonato, que vai ganhar dez corridas, que não vai acontecer.
Como você está se sentindo em relação à virose?
Mais ou menos... Estou de pé, não tinha jeito. Agora são 18h, para um cara que está com virose, eu tinha de estar de repouso. Mas é preciso estar na pista, há um monte de compromissos. Não estou 100% e não vou estar para a corrida. Mas é o que eu digo: eu faço muitos exercícios para ser mais forte do que todo mundo. Então, quando estou fraco, estou igual a todo mundo. Então está bom (risos).
Isso pode prejudicar a sua performance na corrida?
Não, só requer um pouco mais de cuidados. Só vou precisar me privar um pouco mais, não fazer certas coisas. Por exemplo, vocês jornalistas estão aqui, eu quero falar com todo mundo, é o meu país. Há os duzentos amigos que querem ver, prestigiar. Vou ter só de me cuidar um pouquinho mais, me cuidar, beber água sempre. Estou bebendo quatro litros de água por dia, estou parecendo mulher que vai ao banheiro a cada cinco minutos. Mas a virose não tem remédio, é repouso. E o que menos estou tendo é repouso, mas faz parte.
Nesse começo, estamos vendo algumas surpresas nos circuitos mistos. Quando chegarem os ovais, os favoritos vão crescer?
Certeza absoluta, você matou a charada. Mesmo no ano passado, houve uma série de mistos e quando foi para os ovais, o Will Power perdeu o campeonato. Não sei como é o nosso carro de oval. É preciso tentar a maior vantagem agora e marcar o maior número possível de pontos para a gente aguentar nos ovais. Está tudo de acordo com os nossos planos e espero que com a minha experiência de oval a gente consiga levar o carro da equipe a um nível mais alto.
A próxima corrida será em Indianápolis. O fato de serem realizados muitos testes antes das 500 Milhas ajudará a KV na prova?
Indianápolis tem o maior número de testes antes de uma corrida, então ajuda muito. Mas ao mesmo tempo não é porque vai haver um monte de testes que o carro vai andar bem. É claro que ajuda, tenho algumas coisas de acerto de carro na minha cabeça que eu gosto. Indianápolis não será referência de oval, não quer dizer que a gente vai andar bem no Texas ou Milwaukee, é completamente diferente. Mas acho que a gente vai andar bem em Indianápolis.
Com a chegada dos ovais você teme uma queda de desempenho da equipe?
Não, até porque não estou esperando resultado nenhum. Chego no sábado e vejo o que vou conseguir fazer pelo resultado do treino. Não quer dizer nada ter dois ou três carros, é o carro. Se o carro está perfeito e não tem nenhuma batida, não muda nada. Para mim, não é um problema. Afetaria se não tivéssemos mecânicos para montar o carro em quinze dias, aí afetaria.
O Dario Franchitti e o Will Power estão céticos em relação à disputa de mais uma corrida no Brasil, em Porto Alegre, por causa dos patrocinadores. O que você acha?
Cada um puxa a sardinha para o seu lado. Para mim seria ótimo ter outra corrida no Brasil. Mas pelo lado da Target, que patrocina o Dario, e da Verizon, que patrocina o Will, eles não tem nada no Brasil. Aí aumenta uma corrida, eles vão ter de pedir mais dinheiro e eles não têm retorno aqui. Entendo a posição deles, é que nem a etapa de Iowa para a Itaipava, lá só vende milho. Não dá para fazer 17 corridas que o seu patrocinador vá amar.
Um dos motivos para os times migrarem da Champ Car para IRL era em relação aos patrocinadores americanos. Teme que uma nova internacionalização da Indy provoque outro fenômeno desses?
Não, porque não faremos 10 das 17 provas fora dos Estados Unidos. Canadá, por exemplo, é Estados Unidos. Japão não vai ter mais, Brasil já tinha. Se colocar outra corrida aqui, dá na mesma.
E se marcarem mais corridas fora dos EUA?
Mas não vão deixar, a categoria é extremamente americana. Os caras são inteligentes para se posicionar. Só se faz corrida fora do país se o organizador paga. As equipes não têm gasto, só de equipamento, mas de transporte, hotel, comida não são despesas da equipe. Vejo no máximo quatro corridas fora dos Estados Unidos.
Você prometeu pular no Rio Tietê se vencesse a corrida. Vai cumprir?
Já tem médico me ligando, dizendo que se eu pular vou morrer. Se eu ganhar a corrida, faço qualquer negócio, bicho. Vamos embora! Eu vou lá, se não me deixarem pular lá é outra coisa. O médico que está cuidando da minha virose me perguntou se eu pularia no rio: "É zero de oxigênio, vai querer morrer mesmo?".
Você já venceu o campeonato da Indy e vencer aqui e talvez em Indianápolis...
Talvez, não! (risos).
Vencer aqui e as 500 Milhas é o que falta na sua carreira?
Com certeza, a corrida do Brasil e a de Indianápolis. Mas, sem desmerecer Indianápolis, seu nome vai para o museu e tal, mas sou muito brasileiro, vou morar o restante da minha vida aqui. Nasci aqui, quando tive as dificuldades, foi aqui que eu arrumei os patrocínios. Ganhar a corrida aqui, seria melhor do que ganhar em Indianápolis.
Você pensou que um dia a Indy voltaria para o Brasil?
Sempre imaginei que a gente poderia voltar a correr no Brasil um dia. Quando saí da Champ Car, achei difícil demais, sabia que era uma categoria americana. Mas quando fizeram a junção, pensei que com certeza uma hora voltaria. Graças a Deus aconteceu. Quando corri no Rio, não era conhecido. Tinha o Gil (de Ferran), o Maurício (Gugelmin), eu era só o menininho novo. Agora, com o carinho da torcida, se eu ganhar aqui e não em Indianápolis, estará bom.
Como você analisa o futuro do Brasil na Indy? Você e o Helinho são...
Velhos, é isso (risos)
Vocês são experientes e não terão muitos anos de carreira...
Estou brincando... Me preocupa muito. Não é só na Indy. Minha pergunta é: no dia em que o Tony, o Helinho, o Rubinho e o Massa aposentarem, quem tem? A gente precisa olhar bastante para o Brasil. A gente faz bons pilotos no kart, na base. Na época do Emerson, Piquet, Senna, Rubinho, Helinho, Gil, eu, tinha sempre uma sucessão, os velhinhos saíam e a gente crescia. Aqui tem a Bia e o Raphael, mas para ele Indianápolis será a última corrida porque vai acabar o patrocínio e a Bia graças a Deus conseguiu a temporada inteira no sufoco, só com patrocínios brasileiros. E na Indy Lights quase não tem brasileiro lá. Na Europa, tem o menino Nasr e mais um ou dois. Na nossa época havia dez. Então, quando você tem dez, a possibilidade de saírem dois é boa. Com dois é difícil... Raphael e Bia têm um talento muito grande, mas com a situação financeira vai ser difícil uma empresa americana investir num piloto brasileiro. Só mesmo os patrocinadores daqui.
E quantos anos você tem mais de carreira?
Parar de correr não vou, vou correr de Stock Car, caminhão, do que for! Não vou conseguir ficar parado. De Indy, se me derem oportunidade, corro até os quarentinha, mais quatro anos. Depois disso, você precisa tirar o orgulho de lado e ver que tem gente nova chegando. Não tem jeito, é a lei fisiológica. Eu me cuido muito. Com 40 anos, vou estar como se tivesse 35. Se eu puder mais quatro anos, será o limite. Tenho meu filho morando aqui, tem uma série de coisas com as quais sou ligado aqui.
Até quando vai seu contrato com a KV?
Até setembro (risos). Ainda é muito cedo para conversar, mas eles também não sabem o que vai acontecer. Mas garanto que aquele sufoco do ano passado eu vou fazer de tudo para não passar.
Se houver algum problema de patrocínio, em último caso você para?
Sim. Meu plano são quatro anos. Mas em setembro e outubro eu vou ter de parar para pensar e achar força. Ou então, quer saber... Está sendo um ano muito positivo, os patrocinadores estão satisfeitos. Qualquer programa de corrida, na minha cabeça tem de ser de dois anos. Espero garantir mais um ano em setembro.
Seu filho estava contigo na corrida de kart dos jornalistas e estava todo empolgado. Ele vai seguir os teus passos?
Ele é pequeno, tem três anos e meio. Nessa fase, ele quer fazer o mesmo do pai. Ele adora kart, o padrinho dele é o Rubinho. Ele foi para a pista na barriga da mãe. Quando ele fizer sete ou oito anos, é capaz de pegar meu último ano de Indy e querer fazer. Já já o Rubinho aposenta e é capaz de dar uma acalmada nele. Não forço nada, ele adora tênis, futebol. Se ele quiser, vou ajudar no que puder. Mas ele tem de ter talento, a pior coisa é filho de piloto de sucesso que não tem talento. Fora a questão da pressão. Tipo, o cara é filho do Rubinho, filho do Piquet, sobrinho do Senna... Mas ele vai ter de correr atrás, se depender de mim para bancar, não vai rolar (risos).
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