Festa a pé e goleiro desertor no Gre-Nal: A 'tragédia' que virou títulos

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A série de jogos de inauguração do Estádio Olímpico, em 1954, não parou apenas na vitória do Grêmio sobre o Nacional por 2 a 0. Teve, claro, a presença de um visitante muito mal-educado. O primeiro Gre-Nal da casa tricolor terminou 6 a 2 para o Internacional, com quatro gols do centroavante Larry, o Cerebral. A quantidade de gols marcados por um jogador em um clássico e o escore não foi o único de atípico que marcou o duelo entre azul e vermelho.
Um goleiro que se cansou de buscar a bola na rede e quis deixar o campo, irritado com a postura do treinador. Um zagueiro que não olha a bola e sai correndo atrás de um adversário sem a posse da mesma. Um time favorito e inaugurando um estádio grandioso diante do rival, saindo derrotado. Os vencedores, em parte, deixando o Olímpico caminhando em direção ao Estádio do Eucaliptos, cerca de 3km distante. Tudo isso no dia 26 de setembro de 1954.
O Inter tinha Milton, Florindo, Lindoberto, Oreco, Salvador, Odorico, Luizinho, Bodinho, Larry, Jerônimo e Canhotinho. Já o Grêmio entrou com Grêmio: Sérgio, Ênio Rodrigues, Orli, Roberto, Sarará, Itamar, Tesourinha, Milton, Camacho (Vítor), Zunino e Torres (Delém).
- Houve uma preparação muito grande. A pretensão sempre foi a de transformar um clube maior do que o do Inter. Até naquela época conseguiu, porque o Olímpico se transformou – comentou o goleador do dia, Larry, ao LANCE!NET.
Assim como o do jogo com o Nacional, o clima era festivo no Olímpico. Os 38 mil lugares estavam tomados em uma arquibancada que contava também com os vermelhos. Tudo levava a crer que os gremistas confirmariam a vitória. Sarará marcou o 1 a 0, de falta. Mas o primeiro tempo terminou com gols de Jerônimo e Larry e a virada visitante.
A partir daí, o placar só subiu. Logo ao iniciar o segundo tempo, Larry arrancou pela esquerda. Driblou Enio Rodrigues com uma finta e ao parar na frente de Sérgio, enquadrou o corpo. Pareceu perguntar para o goleiro gremista onde queria a bola, e mandou para as redes.
Em seguida, o lance que descambou na grande estranheza da partida: Luizinho arrancou da ponta para o meio. O zagueiro gremista novamente perseguindo um atacante colorado. Desta vez, porém, não queria ser driblado. Acompanhou o ponteiro até o final. O problema era que o jogador havia ajeitado a bola na altura da marca do pênalti e seguiu sua corrida. Canhotinho, livre, venceu o arqueiro tricolor e anotou o quarto.
Tão logo o barulho das redes pode ser ouvido, Sérgio gritou, como acusando, conforme o próprio Kuelle diz, os companheiros de um corpo mole:
- Eu vou embora, não aguento mais isso.
Virou as costas e saiu de campo. Deixou gremistas nas arquibancadas e em campo perplexos. Um destes era Milton Kuelle, meia titular da época. Ele e Ênio saíram em disparada atrás do seu goleiro.
- O Sérgio tomou o quarto e disse que iria embora. Sairia. Em pleno Olímpico. Eu e o Enio chamamos ele. Falamos: "Estamos perdendo jogo, mas estamos perdendo juntos" – revelou Kuelle.
Larry foi um dos que correu em disparada. Queria evitar uma debandada do goleiro. Por tabela, o fez ainda sofrer mais duas vezes, já que marcou outros dois gols até o final da partida.
- Eu e o Jerônimo fomos até à pista falar com o Sérgio. Saiu gritando, brabo. Foi, foi, e conseguimos convencê-lo no meio do caminho. Todo mundo surpreso com o que estava acontecendo. Foi histórico porque ninguém poderia imaginar que alguém pudesse vencer por esse escore tão dilatado. Estádio cheio, torcida esperando pelo fato do Grêmio ter feito partida brilhante contra o Nacional – relembrou Larry.
O Olímpico, e por consequência aquele Gre-Nal, iniciou uma série muito vitoriosa dos gremistas. Foram 13 campeonatos jogados e 12 ganhos pelos tricolores. Heptacampeão gaúcho e pentacampeão citadino e gaúcho.
O próprio Kuelle acredita que a derrota e o sentimento horrível deflagrado no vestiário – os jogadores não se falavam, respeitando o momento de tristeza de cada companheiro – foi um combustível para as conquistas.
- Era a maneira que tratávamos uma tragédia – disse Kuelle.
- Foi determinante porque jogamos várias vezes contra times do Rio e São Paulo depois. E ganhamos aqui. Foi importante, a inauguração, os jogos. Aprendemos com isso, dava uma bagagem – avaliou.
Enquanto isso, do lado de fora, alguns dos jogadores colorados – Larry não soube precisar quantos nem quais – rumaram ao estádio do Internacional, na época o Eucaliptos, no meio da torcida colorada. Saíram do estádio recém inaugurado pelo rival a pé, caminhando com a massa. Outros pegaram o ônibus normalmente. Todos eufóricos. Afinal, a história estava sendo feita.
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