Escócia relembra morte do 'mentor' de Alex Ferguson em duelo contra Gales

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A Escócia enfrenta Gales nesta sexta-feira de olho em uma vaga na Copa do Mundo de 2014, mas com o pensamento de volta a 1985. Foi naquele ano e contra o mesmo adversário que os escoceses perderam seu maior ícone no futebol: o treinador Jock Stein, tido como o mentor de Sir Alex Ferguson. Ele morreu logo após a partida, ainda nos vestiários, após colocar sua seleção na repescagem para a Copa de 1986.
Assim como agora, Escócia e Gales se enfrentaram de olho em uma vaga para a Copa do Mundo. O vencedor enfrentaria a Austrália no play-off por um lugar no México, em 1986. Mesmo consagrado por seus títulos com o Celtic (levou o time católico à conquista da Copa dos Campeões, atual Liga) e com a vantagem do empate, Stein vivia a pressão de classificar sua equipe novamente para um Mundial e estava sem seus principais jogadores: Souness, Hansen e Dalglish, todos astros do Liverpool.
- "Big Jock" estava muito pressionado. Ao contrário de hoje em dia, os escoceses tinham muita paixão pelo futebol e uma seleção de qualidade. Era um fracasso não ir para a Copa - comentou Archie MacPherson, ex-narrador da BBC e biógrafo oficial de Stein, com exclusividade ao LANCENET!.
Durante o jogo, alguns jogadores notaram que ele não era o mesmo. Ao fim da partida e, com o resultado favorável (1 a 1, com gol escocês no fim), Stein caiu nos braços do homem que iria subsituí-lo não só no comando da seleção, mas no coração dos escoceses:
- No fim do jogo, Jock foi falar com Mike England (técnico de Gales). Nesse momento, ele tropeçou e o peguei enquanto ele caía. Os médicos vieram do túnel do vestiário e eu o segurei até eles chegarem - disse Sir Alex Ferguson, hoje multicampeão com o Manchester United mas na época apenas assistente de Stein, ao "Daily Mail".
O impacto de Stein no futebol escocês é inesquecível, segundo MacPherson. O treinador ajudou a amenizar a rivalidade entre Celtic e Rangers, levou a Escócia para a Copa de 1982 e, mais importante, ajudou a criar o "mito" Alex Ferguson:
- Sem Stein, o United não teria Ferguson. Como assistente de Jock, Sir Alex o observou e tirou certas coisas para implementar em seu trabalho. Stein era um grande homem e não teremos nunca outro como ele.
BATE-BOLA
Archie MacPherson, ex-narrador da BBC, biógrafo oficial de Jock Stein. Estava no Ninian Park no dia da morte do treinador
LNET!: Qual é o impacto de Jock Stein no futebol escocês?
Archie MacPherson: Para responder a essa pergunta, temos que voltar à sua infância. Ele cresceu como torcedor dos Rangers. E quando virou treinador do Celtic, ajudou a amenizar a rivalidade entre as duas equipes. Ele foi o primeiro protestante a treinar o Celtic, um time católico. E foi com ele que o Celtic se tornou o primeiro time britânico a ganhar a Copa dos Campeões. Quando assumiu a seleção escocesa, ele já era um mito do futebol nacional. Levou a equipe à Copa de 1982 e ajudou a formar Alex Ferguson.
LNET!: Como assim "ajudou a formar" Sir Alex?
AMP: Apesar de já treinar o Aberdeen, Sir Alex aprendeu quase tudo com "Big Jock". Assim como Fergie hoje, Stein era muito duro no trato com a imprensa. Os jornalistas tinham medo dele, então era difícil alguém falar mal, encontrar uma crise dentro do elenco. Ferguson pegou isso de seu mentor. Taticamente, Sir Alex sempre colocou o time para frente, era um treinador aventureiro. Com Stein, porém, ele aprendeu a importância de se defender.
LNET!: O que o senhor pode nos dizer daquele dia?
AMP: Foi engraçado porque, naquele dia, estava trabalhando para a BBC de Londres e, assim que acabou o jogo, fui jantar com alguns colegas de imprensa, em Cardiff. Foi no restaurante que soube da morte de Stein. Quando saímos do lugar, vimos milhares de escoceses fazendo uma espécie de passeata silenciosa. Nunca vi tanta gente junta calada. Era um silêncio ensurdecedor. Fomos entrevistar um torcedor e ele resumiu bem o sentimento: "Preferíamos estar fora da Copa e com "Big Jock" ainda entre nós".
LNET!: Qual foi a razão da morte de Stein?
AMP: Ele teve um edema pulmonar e morreu ainda no vestiário. Stein tinha tido problemas com sua saúde e tomava diuréticos. Essas medicações, no entanto, o faziam ir ao banheiro constantemente. Para não perder um segundo do jogo contra Gales, ele decidiu não tomá-las naquele dia. Sem dúvida, isso teve influência em sua morte. Na época, o chamaram de "mártir" do futebol escocês.
LNET!: E como foi o sentimento dos jogadores após saberem da morte de Jock?
AMP: Todos ficaram devastados. Jock era como um pai para eles. Foi difícil para Sir Alex juntar os cacos e liderar a equipe contra a Austrália. Mas temos que aplaudir o profissionalismo de todos. Eles chegaram e fizeram seu trabalho, classificando a Escócia.
LNET!: E o clima entre a torcida?
AMP: Durante a repescagem, a torcida ainda estava em estado de choque e o apoio foi mínimo, para não dizer nulo. Na Copa de 86, porém, todos já estavam animados novamente.
TRAGÉDIA RECENTE EM GALES
Se a Escócia sofreu com a perda de uma de suas principais referências futebolísticas em 1985, País de Gales está passando pelo mesmo processo agora. Em novembro do ano passado, Gary Speed, ex-jogador e então treinador da seleção galesa, se enforcou em sua própria casa após uma briga com sua esposa.
Com boas passagens por tradicionais clubes ingleses, como Leeds e Everton, o caso de Speed causou comoção por todo o Reino Unido. Curiosamente, um de seus filhos, Ed, já é convocado para as seleções de base do País de Gales.
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