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Assaf, colunista do L!, relembra o Brasileirão conquistado pelo Coritiba

Dia 01/03/2016
02:57

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Havia uma fórmula de disputa esdrúxula. Logo, era difícil fazer prognósticos. Mas uma semana antes do Brasileiro de 1985 começar houve quem desafiasse os que se atreveram a relacionar os prováveis finalistas. "Vamos ganhar o título nacional. Do jeito que o futebol brasileiro está não será tão difícil", garantiu Hélio Alves, supervisor do Coritiba. E a profecia do homem, conhecido como "O feiticeiro", acabou se tornando realidade, contrariando as previsões dos analistas, que não incluíam o time paranaense entre os favoritos.

Dos eleitos, num consenso geral, apenas um, o Atlético-MG, chegou entre os quatro que decidiram a competição. Corinthians, Flamengo, Internacional e Vasco, por ordem alfabética, caíram na terceira fase. O Corinthians negociou Sócrates com a Fiorentina, mas teve De León, Dunga e Serginho Chulapa, além do retorno de Casagrande. O Flamengo repatriou Zico no meio do campeonato, e contou com outros sete dos campeões mundiais de 1981: Leandro, Mozer, Andrade, Adílio, Tita, Nunes e Lico.

O Internacional manteve a base da equipe que ganhou a prata para o Brasil nas Olimpíadas de Los Angeles, em 1984. E o Vasco entrou com o time vice-campeão nacional no ano anterior e ganhou os reforços de Roberto Costa, Daniel Gonzalez, Vítor e Cláudio Adão. O São Paulo, com vários craques de Seleção, terminou num modestíssimo 27º lugar. E o Grêmio levou Rubens Minelli, campeão em 1975 e 1976 com o Inter, de volta ao Rio Grande, após oito anos. Inútil: chegou apenas em 23º.

Pudera. O Brasileiro de 1985 foi de um surrealismo só. Tanto que a média de público foi a segunda pior desde 1971. A CBF elaborou um regulamento polêmico, dividindo os 44 clubes em duas séries, a rica com os 20 mais bem colocados no ranking histórico da entidade, e outra com 22, de acordo com a posição final dos estaduais. Entre esses, Uberlândia e Remo, respectivamente campeão e vice da Taça CBF 1984.

Assim, 16 equipes tidas como principais foram eliminadas após a primeira etapa. E oito classificadas na série dos "pobres" chegaram entre os 16 finalistas. Dessas, pelo menos duas, Bangu e Brasil de Pelotas, ficaram entre os quatro clubes que decidiram o título.

O Bangu, bancado pelo banqueiro de bicho Castor de Andrade, e treinado pelo ex-zagueiro Moisés, em alta na época, eliminou o Internacional. O Brasil, contando com a força de sua torcida, chamada de "Xavante", e com as estrelas do técnico Valmir Louruz e do artilheiro Bira, pôs o Flamengo para escanteio. O Coritiba afastou o Corinthians na terceira etapa e o Atlético-MG nas semifinais. E superou o Bangu na decisão, diante dos quase 92 mil torcedores que lotaram o Maracanã. O Brasileiro de 1985 teve apenas um estreante, o Corumbaense, do Mato Grosso do Sul. Da série dos gigantes, o pior foi o Palmeiras, que ficou na 30ª colocação.

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A conquista do Coxa - Lá fora, nas dependências do Maracanã, a maioria esmagadora dos 91.527 cariocas que fecharam com o Bangu. Lá dentro, no vestiário, o goleiro Rafael iniciava o seu ritual, acendendo duas velas na prateleira do armário, ao lado de uma imagem de São Judas Tadeu, impressos de Santa Anastácia, um rosário, um crucifixo, uma Bíblia, um par de luvas e uma garrafa do uísque Red Seal.

Em Curitiba, os torcedores do Coxa se amontoaram em torno da TV e rezaram para que Rafael repetisse os milagres que ajudaram o time paranaense a chegar à final. Pois, na realidade, só os mais fanáticos poderiam ter dito, cinco meses antes, que o Coritiba teria condições de disputar o título brasileiro. O começo até que foi animador, com vitórias de 3 a 1 e 2 a 1 respectivamente sobre o São Paulo e o Cruzeiro. Mas nos dois primeiros jogos fora de casa, aconteceram duas derrotas, e o pior: o técnico Dino Sani recebeu proposta do futebol árabe e deixou o clube, sendo substituído pelo ex-atacante Dirceu Krüger.

Ainda havia, no entanto, o presidente Evangelino da Costa Neves, um mito na história do clube, com seus muitos títulos conquistados nas décadas de 70 e 80. Ele foi a Porto Alegre e buscou Ênio Andrade, o técnico que dera o Brasileiro de 1979 ao Internacional e o de 1981 ao Grêmio. Os resultados que se seguiram foram decepcionantes. "O homem conhece do riscado e vai acabar dando um jeito", explicou Rafael, que em pouco tempo de clube - chegara no início daquele 1985 - já se transformara em um líder.

Veio a segunda etapa do campeonato e o time começou a mostrar evolução. Não fez campanha espetacular, mas obteve algumas boas vitórias fora de Curitiba: 1 a 0 no São Paulo, 3 a 2 no Cruzeiro e 1 a 0 no Flamengo, terminando em primeiro lugar na chave. A terceira fase seria a prova definitiva. Das quatro equipes do grupo só uma seguiria adiante. E o time de Rafael deixou Sport, Joinville e Corinthians para trás. E ele, além de líder, ganhava a condição de ídolo, por suas defesas espetaculares e principalmente arrojadas. "Sou atirado mesmo e nunca tive medo de entrar em nenhuma jogada. Já me quebrei todo, mas sou goleiro, e goleiro não pode ter medo na vida", explicou.

A primeira semifinal era em casa. O Coritiba entrou com a obrigação de fazer o resultado: venceu o Atlético-MG por 1 a 0. Para muitos, muito pouco. Em 28 de julho, o time pisou o Mineirão com 64.075 torcedores disposto a sustentar o empate diante do Galo de Nelinho, Luisinho, Elzo, Paulo Isidoro, Éverton e Reinaldo. Pois Rafael fez pelo menos três intervenções fantásticas e o 0 a 0 pôs o time na final. 31 de julho. O Maracanã estava lotado. Ênio e Rafael repetiram receitas anteriores. O Coritiba fez 1 a 0, com Indio, Lulinha empatou, mas o 1 a 1 permaneceu, empurrando a decisão para os pênaltis. As 10 cobranças da primeira série foram convertidas: 5 a 5. Na sequência, o ponta Ado, do Bangu, chutou na trave. E o zagueiro Gomes acertou a rede. São Rafael era enfim campeão brasileiro. Noite quente na fria capital do Paraná. Hora de fechar o armário e saborear o Red Seal. Saborear? Ok. Cada qual com o seu gosto.

Tente entender - Se você ficou curioso em torno do Brasileiro de 1985, leia com atenção, sem desistência. O campeonato foi disputado em quatro etapas. Na primeira, os 44 clubes foram divididos em quatro grupos, dois de 10 e dois de 12. Nos dois de 10, os times do A enfrentaram os do B, classificando-se os vencedores de cada chave, no turno e no returno. Avançaram também as quatro equipes que somaram mais pontos no cômputo geral depois dos vencedores. Nos de 12, os times se enfrentaram dentro dos próprios grupos, C e D, classificando-se os vencedores de cada chave, no turno e no returno.

Avançaram também as quatro equipes que somaram mais pontos no cômputo geral depois dos vencedores. Na segunda etapa, os 16 clubes foram divididos em quatro grupos de quatro, jogando dentro das chaves, classificando-se os vencedores de cada chave. Na terceira etapa, ou semifinais, houve o cruzamento dos quatro clubes, em jogos de ida e volta. Na quarta etapa, os vencedores fizeram a final, em partida única, disputada na casa do clube com melhor retrospecto no campeonato. Ufa...

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