'Acho que consegui levar o tênis a um outro nível', diz Roger Federer

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Roger Federer exerce uma espécie de magia. A ponto de deixar os três repórteres de um seleto grupo de veículos brasileiros, do qual o LANCE! fez parte, com o raciocínio um tanto mais lento.
Ao entrar na sala de entrevistas designada para o encontro com as mídias do Brasil, em Miami (EUA), Federer fez questão de se apresentar. Como se precisasse. Dono de 16 títulos de Grand Slam e um total de 73 na carreira, número 1 do mundo por 285 semanas e detentor de uma fortuna de quase US$ 70 milhões - só em prêmios - o suíço é um dos atletas mais admirados do mundo.
Atual terceiro colocado no ranking mundial, Federer tem tido uma temporada que remete aos seus melhores anos. Títulos no Masters 1.000 de Indian Wells e nos ATP 500 de Dubai e de Roterdã, 22 vitórias e um sorriso indisfarçável por conta das boas atuações.
- Eu acho que no momento estou jogando muito melhor do que há dois anos. Tenho tênis para muitos mais anos ainda, para desafiar a geração que está surgindo - afirmou o jogador, de 30 anos.
Em entrevista longa e descontraída de meia hora, ele falou de seu maior objetivo: voltar a ser número 1 do mundo. E, se der, aumentar a coleção de Grand Slams. Um bom passo para atingir estes feitos passa pelo desempenho no Masters 1.000 de Miami, considerado o quinto Grand Slam por sua megaestrutura, que ele disputa entre esta e a próxima semana.
O suíço também falou de família, calendário apertado no tênis e seus rivais. Infelizmente, ele não pensa em jogar o Aberto do Brasil. Mas, felizmente, pela primeira vez na carreira, o astro visitará o país no fim do ano, em um giro pela América do Sul promovido por um de seus patrocinadores.
Federer disputará dois jogos no Brasil, em dezembro, em locais e contra rivais ainda a definir. Confira a entrevista:
Nós nos acostumamos a ver você conquistando seguidos títulos de Grand Slam, mas desde 2010 não vence. Ainda assim, você está no melhor de sua forma. Poderia falar deste bom momento?
Muitas coisas mudaram desde 2010, e eu tenho uma família hoje, e ela se torna a prioridade número 1 de qualquer pessoa. Falando de tênis, Rafa Nadal teve a chance de conquistar os quatro Grand Slams em um ano, e Novak (Djokovic) pode fazer isso se conquistar Roland Garros neste ano. Ou seja, eu também tenho rivais muito fortes. Eles não me permitiram ganhar Grand Slams, foi isso. Mas eu acho que tenho jogado bem por muitos anos. Obviamente, eu fui incrível durante uma época, quando ganhei dez torneios por ano. E nos últimos nove meses eu me senti incrível daquele jeito. Estou feliz por estar saudável e ter recuperado o prazer de jogar. Sabe, aparecem muitas perguntas sobre eu ter chegado aos 30 anos, como por exemplo quando vou parar de jogar. E eu acho que no momento estou jogando muito melhor do que há dois anos. Tenho tênis para muitos mais anos ainda, para desafiar a geração que está surgindo. Sinto que estou próximo de ganhar outro Grand Slam. Mas minha satisfação não passa apenas por ganhar Grand Slams, mas por me sentir bem novamente.
Sua motivação é qual neste momento? Consolidar-se como o melhor de todos os tempos?
Quem é o melhor de todos os tempos? Não sabemos. E provavelmente nunca vamos saber, porque o tênis é complicado por causa das muitas boas gerações que existiram. Mas eu me considero um felizardo por ser incluído entre os maiores e ainda estar jogando. Então minha motivação é saber que tenho muitos mais anos pela frente para jogar. Tenho tantos fãs pelo mundo todo, e isso me faz querer ir descobrir novos lugares, como o Brasil, no tour da Gillette que farei. Para mim, conhecer culturas e lugares é tão importante quanto conquistar títulos, quebrar recordes e desafiar a nova geração. É uma satisfação promover o tênis em uma região que, de repente, precisa de alguma ajuda. Guga fez muito pelo Brasil, mas o tour da Gillette pode ser muito útil. O Brasil será um lugar muito interessante para o esporte no futuro.
Sua intenção é ser número 1 do mundo novamente?
Eu acho que existe uma boa chance de isso acontecer, sim, se eu me mantiver jogando desta maneira. Eu posso conseguir isso até o fim do ano, mas Novak (Djokovic) tem sido o melhor nos últimos 14 meses. Ainda estou muito longe dele em termos de pontuação. Preciso correr atrás. É um prioridade que tenho, mas não neste momento. É uma visão de longo prazo. Eu conquistei seis dos últimos oito torneios de disputei, e aí comecei a sonhar em ser número 1 de novo. Agora é preciso ser paciente e continuar a jogar bem.
Como você disse, ao fazer 30 anos as pessoas começaram a lhe pressionar. Realmente acha que há uma pressão para que você pare?
É parte do negócio. Por eu ter quebrado o recorde de títulos de Grand Slam e ter vencido todos os torneios de Slam, as pessoas sempre me perguntaram por que eu continuava. Me diziam "parabéns, você mereceu, mas agora chega, certo?". Mas não é algo que um amante do jogo, como eu, faria. Enquanto eu desfrutar do jogo, me sentir bem em quadra e tiver apoio da minha família, vou continuar. Ainda sinto que meu corpo está em ótima forma, e é ele que vai me dizer quando devo parar. O tênis ainda é empolgante para mim.
Não é cansativo o tanto de perguntas que as pessoas lhe fazem sobre aposentadoria?
É um pouco chato, de fato, depois da pergunta número 100. E eu já respondi a pergunta de 99 vezes diferentes (risos). E ainda não entendem que vou continuar, aí sim se torna algo chato. Acho que muita gente fica feliz quando digo que não vou me aposentar. O tempo passa, mas eu não vou parar por enquanto.
Você acha que ainda tem de provar algo para alguém?
Não acho. Estou tão feliz com minha vida no momento... Não poderia pedir uma família melhor, patrocinadores melhores, um respeito maior no tour. Minha vida é, de um modo geral, muito boa. É uma vida com desafios, claro, porque ser famoso requer muitas obrigações. Mas a pressão sempre esteve ao meu lado, não mudou porque envelheci. Eu estou mais experiente, hoje desfruto mais do tênis.
Você voltou a ter paixão pelo jogo, então. Mas quais são seus objetivos? Ganhar 20 Grand Slams voltar a ser número 1?
Eu tenho objetivos de longo prazo e de curto prazo. No curto prazo, quero jogar bem. No longo, voltar a ser o número 1. E também voltar a ter chance de ganhar os Grand Slams e quantos torneios for possível. Estes são meus grandes objetivos. Mas tenho de ir com calma para não jogar demais, levar as coisas do jeito certo. Mas posso garantir que ainda tenho grandes sonhos, e por isso sigo jogando.
Você é o presidente do conselho de atletas da ATP, e há muitas questões sobre o inchado calendário da ATP. Agora que você vai fazer um tour pela América do Sul no fim do ano, não é um contrasenso reclamarem do calendário espremido e ainda fazer exibições? Há chance de greve?
Greve nunca é uma coisa boa. Não importa em qual negócio, greve não é bom. Ninguém quer. Mas, às vezes, é inevitável, porque as partes não entram em acordo. De todo modo, ainda estamos muito longe de termos uma greve na ATP, é minha opinião. Não é algo que está na cabeça dos tenistas. Sempre haverá conflitos entre esferas na política, é normal, porque o que queremos é tornar o circuito melhor. Minha ida para o Brasil não tem qualquer problema, porque eu acho algo muito positivo. Sobretudo porque o Brasil é um país que só tem torneio em fevereiro. Nunca estive lá, e estou com 30 anos, visitei mais de 50 países. Sinto que durante minha carreira, eu tinha de ir para o Brasil. É algo importante para mim. Não vejo controvérsia. Se eu fizesse uma exibição entre a semana final de Miami e a próxima, aí seria errado. Mas eu vou em dezembro, uma época que não prejudica nem eu nem ninguém.
Então você acha que o calendário não precisa de mudanças?
Algumas coisas têm de mudar, sim. O Aberto da Austrália começa muito cedo. Cedo demais para alguns. Mas não dá para mudar. Há alguns anos, ele costumava ser jogado em dezembro, e não acho que algum jogador queira atuar em dezembro. O Aberto da Austrália vai seguir ocorrendo cedo, não adianta. Mas temos mais de 65 torneios da ATP no ano, torneios da Federação Internacional, Copa Davis. São blocos gigantes, vamos dizer assim, e se mudarmos um vamos danificar o sistema. Eu também acho que seria interessante ter mais uma semana de descanso entre Roland Garros e Wimbledon. No mundo ideal, seria excelente. São coisas que discutimos, mas não sabemos quando haverá definição. Queremos o tour o melhor possível, e vamos trabalhar para isso.
Você falou bastante sobre o Brasil. Tem alguma intenção de jogar o Aberto do Brasil?
Neste momento, não. Para ser sincero, é bem difícil. É um torneio disputado no saibro, depois do Aberto da Austrália, do outro lado do planeta e de Dubai, onde tenho uma casa e posso jogar. Na mesma época também posso jogar torneios indoors na Europa, onde cresci, como Roterdã e Marselha. São torneios que adoro. É difícil ir para o Brasil jogar o Aberto do Brasil. Eu acho que para ir ao Brasil teria de ser algo único, e é o diferencial do tour da Gillette.
Você já sabe onde em quais cidades jogará no Brasil?
Neste momento, ainda não. Há dois lugares na disputa, mas não há definição. Haverá dois jogos no Brasil.
Em que piso gostaria de jogar?
Eu adoraria jogar na grama, mas acho que será no piso duro no fim das contas. É mais simples. Eu ficaria feliz de jogar na grama, mas os promoteres prefeririam uma quadra dura. Teríamos menos problemas.
Recentemente, Nikolay Davydenko disse que você era um cara legal, e por isso não se oporia ao calendário. Você se acha um cara legal, no sentido que Davydenko falou?
Eu acho que sou um cara legal, sim (risos). Mas eu acho que foi uma ironia. Ele disse sobre eu ser um cara legal no Aberto da Austrália, mas eu tenho um bom relacionamento com ele. Ele disse que eu sou muito neutro às vezes, mas eu tenho uma opinião muito forte sobre a questão do calendário e respeito a opinião de todos. Nikolay jogou aquele comentário, e cada um pode interpretá-lo como quiser. Mas eu tento ser um cara legal com todos, sim.

Federer espera deixar seu estilo de jogo como legado (Foto: Barbara Walton/EFE)
Você joga o circuito desde 1998. O quanto o circuito mudou neste tempo?
Para mim, muito mudou. Em 1998 eu era apenas um juvenil que havia ganhado Wimbledon e terminado o ano como número 1 do mundo. Daquela época para agora eu consegui despontar, ficar mais conhecido, jogar menos estressado. Eu vim de uma geração muito forte com Lleyton Hewitt, Marat Safin, Andy Roddick, Juan Carlos Ferrero, e antes já havia jogado com Pete Sampras, Andre Agassi, Carlos Moyá e Guga. Foi uma grande era para o tênis. Era uma época muito empolgantes. Eu não imaginava que seria tão famoso quanto sou hoje, não imaginava que seria tão bem sucedido quanto hoje e nem tão ocupado (risos). Os últimos 12 anos foram muito especiais para mim, e foi uma revelação eu ver pontos em mim que não conhecia. Como ser líder, porta voz, administrador, lidar com a imprensa, eventos de gala, fazer discursos. É algo difícil, mas com que me acostumei.
Foi complicado lidar com tudo isso no começo?
No começo, sim. Eu era muito tímido. Levou algum tempo para conseguir bons resultados e ficar mais confiante em entrevistas. Foi difícil também me tornar embaixador para o tênis e para meus patrocinadores. Mas eu gosto de fazer fotos, dar entrevistas, estar com a mídia. Não é algo tão natural para mim como jogar tênis, porém acho que vou bem. Eu não mudei como pessoa, mas tive de me adaptar às situações.
Nestes anos de carreira, você se arrepende de alguma coisa?
Eu queria ter treinado mais quando tinha 15, 16 anos. Eu era meio louco naquela época. Mas era parte da minha evolução como jogador. Eu precisava ser daquele jeito, meio louco, para fugir da seriedade do tênis profissional. Nem tudo é perfeito, mas tenho uma carreira maravilhosa. Tento ter o mínimo de lamentação na minha carreira.
Por que louco?
Eu chorava muito, quebrava muitas raquetes, gritava muito, xingava a cada bola que errava. Eu desafiava e questionava meus técnicos, meus pais, ia o mais longe que podia até eles ficarem furiosos comigo.
E o que mudou hoje?
Acho que jogar na quadra central de um torneio, repleto de gente e com a televisão transmitindo faz você acordar. Aí eu já não queria mais ser aquele cara louco. Eu percebi que precisava relaxar mais e desfrutar mais.
Você disse que era muito tímido. Ainda fica?
Um pouco, sim. Um pouco nervoso também. Mas não se preocupe, porque quando for andar pelo Brasil também ficarei (risos). É aquela coisa do inesperado, todo mundo fica. Na semana passada, em Indian Wells, eu não fiquei nervoso na final, mas na segunda rodada. Eu não me sinto o mesmo todos os dias. Por exemplo, algumas vezes antes de discursos ou entrevistas coletivas eu fico.
Você é um workaholic? Quanto tempo do dia pensa em tênis?
Eu aprendi a me controlar com o tempo. Treino o quanto acho que devo treinar, descanso o quanto acho que devo descansar. As férias são tão importantes quanto um bom treino. Eu sempre tento tirar quatro semanas de férias. Mas existem as semanas inesperadas de férias se eu jogar mal (risos).
Você citou sua família algumas vezes. Qual é a importância dela em sua vida, e como consegue ser pai e jogador?
É um desafio grande, ser tudo isso. Mas eu tenho uma grande esposa, sempre muito disposta a me ajudar. Estamos juntos por 11 anos e tem sido maravilhoso. Ter as crianças torna as coisas diferentes. Com o nascimento das minhas filhas eu achei que muita coisa ia mudar, em termos de treinamento, etc. Mas não mudou tanto. Eu pude ajustar de uma maneira que conciliei tudo. Elas viajam comigo 95% do tempo. Mas tento fazer um calendário no qual eu não precise cruzar o mundo. Tento amenizar as viagens.
Qual legado você acha que deixará para o tênis?
É importante sempre me manter o humilde e reconhecer que o tênis é maior do que qualquer jogador. A "plataforma" tênis me deu chance de mostrar meu talento. O legado é, espero, ter ajudado o jogo. Acho que consegui levar o tênis a um outro nível. Também acho que fui um exemplo a ser seguido, de ter lidado bem com todas as expectativas que criaram sobre mim, sobretudo pais e crianças. É difícil lidar com isso todos os dias, mas acho que consigo. É importante para todos terem heróis. Eu sempre tive os meus. No futuro, mesmo aposentado, eu quero estar envolvido com o tênis de alguma forma. Ele tem sido minha vida.
*O editor viaja a convite da Gillette.
JOGO RÁPIDO
Roger Federer
Número 3 do tênis mundial
Pior rival: "Só há melhores rivais. Nadal"
Pior derrota: a final de Wimbledon, de 2008
Torneio favorito: Wimbledon
Comida preferida: suíça
Melhor bebida: água com gás
Cidade preferida: "Eu gosto muito de Roma"
País preferido: África do Sul
O que não come: "coisas doidas da Ásia"
O que não bebe: "muito álcool. Algumas vezes, mas só em celebrações"
Superstição: "não tenho"
Melhor contra quem já jogou: "Pete Sampras"
Melhor vitória: sobre Pete Sampras, em Wimbledon, em 2001
Maior vitória em torneio: "Roland Garros, em 2009, por razões óbvias"
DIÁRIO DE VIAGEM
Paulo Roberto Conde
Em Miami (EUA)
O Masters 1.000 de Miami é conhecido como o quinto Grand Slam, e a estrutura fala por si só. São dezenas de quadras, tendas de alimentação, lojinhas, Ferraris, pessoas... Tudo faz lembrar a atmosfera de um Grand Slam, e bem ao estilo americano. Ou seja, grandioso. Talvez pela projeção do evento, alguns tenistas optam por encerrar a carreira aqui. Foi o caso, por exemplo, do chileno Fernando González, ex-Top 5, que perdeu logo na primeira rodada. Mas o grande barato está em como o espetáculo todo gira em torno do trio de ferro do tênis: Djokovic-Nadal-Federer. Todas as lojas, raquetes, comidas, banheiros, telões e afins evocam os ídolos sempre que possível. Federer empresta seu rosto a relógios, chocolates e raquetes. Nadal dá assinatura a tênis e camisas. Djokovic virou marca de bolinha. Nada como ter ídolos. Aqui em Miami, eles estão em todos os lugares, aos montes.
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