Fellipe Lucena
15/02/2019
07:00
São Paulo (SP)

Cuca está de volta ao São Paulo após 15 anos. A primeira passagem do técnico pelo clube durou de janeiro a setembro de 2004 e não teve títulos, mas foi muito intensa e é avaliada até hoje como positiva. Abaixo, o LANCE! lembra como foi em dez episódios.

ERA UMA APOSTA

Hoje, Cuca chega com o status de medalhão para substituir o novato André Jardine. Em 2004, a aposta era ele. O técnico tornou-se uma jovem sensação após fazer o Goiás saltar da zona da degola para o nono lugar do Brasileirão em 2003, mas ainda não tinha experiência em clubes grandes.

Três jogadores do Goiás chegaram ao Tricolor junto com Cuca: Fabão, Grafite e Danilo, todos multi-campeões no São Paulo. É por isso que se fala que Cuca foi importante na montagem do elenco que seria campeão da América e do mundo em 2005.

CUCA vs FOSSATI

Cuca perdeu a cabeça com Jorge Fossati durante o jogo contra a LDU, no Morumbi, pela fase de grupos da Libertadores. Ele acertou uma bolada no rosto do uruguaio, que dirigia a equipe equatoriana naquela ocasião.

- Era um lateral para nós e o jogador deles ficou com a bola embaixo do braço do meu lado. Eu tirei a bola do jogador e, quando fui dar para o nosso bater, acabou o primeiro tempo. Ele veio do meu lado falando não sei o quê, eu bati com a bola no rosto dele e mereci ser expulso - explicou Cuca, na coletiva pós-jogo.

A bronca de Cuca com Fossati não começou naquele dia. No Equador, o São Paulo perdeu por 3 a 0 para a LDU e o treinador ficou com a impressão de que o uruguaio o provocava ao comemorar os gols.

SIMBIOSE COM A TORCIDA

Por ordem de Cuca, os jogadores do São Paulo não desceram para o vestiário no intervalo da partida contra o Rosario Central (ARG), pelas oitavas de final da Libertadores. O time, que perdeu na Argentina por 1 a 0 e tomou um gol logo no começo do jogo no Morumbi, conseguiu o empate no último lance do primeiro tempo e empolgou a torcida. O técnico quis manter o estádio fervendo.

Detalhe: o autor do gol de empate foi Grafite, que saiu do banco ainda no primeiro tempo para virar herói do jogo. Na etapa final, ele anotou mais um e garantiu a decisão por pênaltis que classificou o Tricolor.

CONSELHO DE AMIGO

O São Paulo ainda perdia a partida contra o Rosario Central por 1 a 0 quando o goleiro Gaona defendeu uma cobrança de pênalti de Luis Fabiano. Antes da decisão por pênaltis, Cuca se aproximou do camisa 9 e lhe aconselhou a bater no mesmo canto direito.

Quando as cobranças começaram, o técnico percebeu que Gaona havia adotado a estratégia de só pular para a direita. Ele não teve como alertar o Fabuloso, que cobrou no mesmo lugar e... fez o gol! Para alívio de Cuca, o São Paulo se classificou.

ENTREVERO COM CENI

Cerca de um mês antes de pegar dois pênaltis e decidir a classificação contra o Rosario Central, Rogério Ceni tornou-se desafeto de Cuca. Tudo começou em um rachão disputado no Morumbi, em que o goleiro se desentendeu com o preparador físico Omar Feitosa. 

- Ele (Rogério Ceni) teve uma discussão com meu preparador físico (Omar Feitosa) e eu peguei as dores do meu preparador sem saber o teor, e o teor era que ele estava totalmente errado, o meu preparador – disse Cuca, ao jornal O Estado de S. Paulo, em 2013.

O técnico costuma dizer que aprendeu com aquele episódio. Em 2017, no Palmeiras, o mesmo Omar Feitosa se desentendeu com Felipe Melo durante um rachão e Cuca orientou a diretoria a multar os dois. Ele admite que errou ao escolher um lado na briga do Morumbi. No mesmo ano, Ceni e Cuca voltaram a trocar farpas quando o então palmeirense sugeriu que o ex-goleiro, à época treinador do Tricolor, havia espionado um de seus treinos.

MALDITA FOME DE BOLA

O São Paulo empatava por 1 a 1 com o Once Caldas, em Manizales, e estava prestes a disputar nos pênaltis uma vaga na decisão da Libertadores. O time estava encaixado e Cuca já estava elaborando a lista de batedores, mas Gustavo Nery dizia insistentemente que estava cansado e precisava sair. O técnico não queria mudar naquele momento, mas acabou cedendo e colocando o atacante Vélber.

Nery e Fábio Santos estavam fechando os espaços pelo lado esquerdo da defesa são-paulina, e Cuca conta que Vélber entrou com a mesma atribuição: "ajude a marcar e guarde posição, não precisa se arriscar no ataque".

Eis que, no último lance do jogo, Vélber avança para cobrar um arremesso lateral e acaba devolvendo a bola para o Once Caldas. No contra-ataque, Agudello ficou no mano a mano com Fábio Santos e fez o gol que eliminou o Tricolor. Repreendido por Cuca no vestiário, Vélber justificou a desobediência tática dizendo que entrou com "fome de bola".

ESSE GOL DÓI ATÉ HOJE

Além de ter saído no último lance, com uma falha boba de marcação, o segundo gol do Once Caldas foi marcado por um atleta que seria pego em exame antidoping dias depois. Cuca lembra disso toda vez que é questionado sobre aquela Libertadores.

Ele ficou muito frustrado com a perda da vaga na decisão. O São Paulo havia se planejado para jogar contra o Boca Juniors em La Bombonera na semana seguinte. A ideia era ir direto da Colômbia para Belém do Pará, onde haveria um jogo contra o Paysandu no fim de semana, e depois já voar para Buenos Aires. Não deu...

O VOO DE VOLTA

Juvenal Juvêncio, vice de futebol do São Paulo em 2004, chamou Cuca para uma conversa no voo de volta ao Brasil após a eliminação na Libertadores. Queria que o treinador avisasse a Gustavo Nery que, depois de pedir para sair em um momento tão delicado, não seria mais utilizado no clube. A situação foi embaraçosa, o técnico tentou sair pela tangente, mas aquela foi mesmo a última partida do jogador no Tricolor.

FIM DA LINHA

Cuca encerrou sua passagem pelo São Paulo após uma derrota por 3 a 2 para o Coritiba, no Morumbi, pelo Brasileirão. O clube havia enfrentado protestos da torcida após a eliminação na Libertadores, vendera Luis Fabiano ao Porto (POR) e não conseguia reagir no Brasileirão. O técnico entregou o cargo, a diretoria aceitou e foi atrás de Leão para o lugar dele.

Na partida contra o Coxa, Rogério Ceni desperdiçou uma cobrança de pênalti pela primeira vez na carreira. O goleiro Fernando defendeu a batida do Mito. Anos depois, Fernando passaria a ser chamado também pelo sobrenome e se tornaria Fernando Prass, campeão brasileiro com Cuca em 2016 no Palmeiras.

ELE SEMPRE QUIS VOLTAR

Cuca manteve contato com Juvenal Juvêncio e com diversos funcionários do São Paulo após deixar o clube. Alguns deles estão lá até hoje. Quem falou com o técnico depois da confirmação do retorno atesta o que foi dito por Raí e Leco na coletiva desta quinta-feira: ele está muito motivado, louco para começar a trabalhar. Ao longo dos anos de afastamento, Cuca comentou diversas vezes em papos informais que um dia retornaria ao Morumbi.