Cicinho

Cicinho em entrevista coletiva nesta terça-feira, no Morumbi (Foto: Divulgação/São Paulo)

Yago Rudá
06/03/2018
12:28
São Paulo (SP)

Campeão paulista, da Copa Libertadores e do mundo vestindo a camisa do São Paulo, em 2005, o lateral Cicinho anunciou sua aposentadoria do futebol nesta terça (6). Aos 37 anos, o jogador revelou que as constantes dores no joelho o impossibilitaram de seguir a carreira. Ídolo do Tricolor, o atleta foi homenageado pela direção do clube do Morumbi e foi surpreendido com um vídeo de seus ex-companheiros.

- Hoje estou aqui para falar do encerramento da minha carreira devido a problemas no joelho. Estou muito feliz e bem tranquilo com essa decisão. Foi em comum acordo com a minha família e com a minha esposa. Para continuar jogando futebol precisava de uma cirurgia agressiva. Por ter 37 anos, não achei viável e, pensando na minha qualidade de vida, a melhor opção seria parar de jogar futebol, disse o jogador na sala de imprensa do estádio do Morumbi.

Revelado nas categorias de base do Botafogo-SP, o jogador passou pelo Atlético- MG antes de chegar ao São Paulo. No Tricolor, Cicinho viveu o melhor momento de sua carreira, tendo sido protagonista nas conquistas do Paulistão, Libertadores e Mundial de Clubes na mesma temporada. O jogador foi um dos pilares da equipe comandada pelo técnico Paulo Autuori, tendo marcado alguns gols importantíssimos naquela época. 


Em 2006, foi para o Real Madrid e disputou a Copa do Mundo daquele ano, mas perdeu espaço e foi para Roma em 2007. Em 2010, fez sua segunda e última passagem pelo Tricolor, sendo emprestado por seis meses e pouco utilizado. Desde então, jogou em Villarreal, Sport e Brasiliense e teve uma passagem pelo Sivasspor, da Turquia, entre 2013 e 2016.

Durante a passagem pela Europa, Cicinho teve um grave problema com as bebidas e, segundo o próprio, perdeu a motivação de continuar trabalhando. Recuperado do alcoolismo, o jogador passou a frequentar igrejas e testemunhar sobre seus problemas pessoais, causados pelo consumo excessivo de álcool. Agora aposentado, Cicinho pretende passar mais tempo com a família e amigos. 

Confira a entrevista coletiva da despedida de Cicinho

Momento inesquecível da carreira
O futebol tem altos e baixos. No São Paulo, tive o privilégio de jogar quase dois anos. A visão que nós temos é a da chegada do aeroporto, toda aquela multidão. Foi um momento marcante. Eu já tinha contrato com o Real Madrid. Fui para minha casa no interior e na sequência embarquei ara Madrid. Então, aquilo ali, me fez repensar se tomei a melhor decisão na época. Tínhamos uma família e uma amizade muito grande. Se houvesse algum problema fora de campo, ali seria sanado. Éramos amigos e estávamos sempre juntos. Formamos uma grande família. Não tive situações difíceis no São Paulo, apenas situações de alegria.

Futuro após a aposentadoria
Espero tirar alguns meses para ficar com a família e dedicar o tempo minha esposa e filhas. Vida de atleta é muita concentração. Tenho um projeto, a 110km de Goiânia, que é uma escolinha de futebol, um centro esportivo bem completo e bem legal. Claro que não vou dispensar oportunidades de trabalhar no futebol, mas o meu pensamento é o centro esportivo. A torcida do São Paulo tem abraçado muito a causa dos ex-jogadores. Tenho recebido convites para dar palestras em empresas e em eventos com torcedores. Agora é momento de viajar, pescar, comer um pudim sozinho. A minha esposa está aqui e me cobra muito (risos). Não posso engordar. Tive e tenho a oportunidade de trabalhar na Turquia, mas isso é um pouco distante porque nossa vontade não é sair do Brasil.

Você acha que o São Paulo leva algum título nesta temporada?
Sou torcedor, sou apaixonado pelo São Paulo. Não tem como não pensar nisso. É obrigação ser campeão. Quando eu jogava sabia da minha responsabilidade. Topei o desafio e consegui conquistar títulos

Adiou um pouco a aposentadoria?
Não creio que eu adiei minha aposentadoria. Terminei meu ciclo na Turquia, sendo eleito o melhor lateral da Turquia. Optei por fazer uma recuperação na minha cidade, com meus fisioterapeutas. Queria dar uma desligada do futebol. Quando tentei, houve esses problemas no joelho. Estou parando no momento certo. Feliz e no lugar que sempre me acolheu. Posso recuperar meu joelho e ter qualidade de vida.

Qual seu gol mais marcante pelo São Paulo?
O momento mais marcante  foi o gol contra o Palmeiras, no Palestra Itália. Aquele 1 a 0, com um gol de esquerda. Chegamos no vestiário e o Rogério Ceni e o Lugano dizendo que seria impossível a gente perder aquela Libertadores porque eu tinha feito um golaço, e ainda de perna esquerda (risos).

Lembranças do Choque-Rei
Tive o privilégio de fazer aquele gol de esquerda. No segundo jogo, fiz gol de falta aos 45 do segundo tempo. Foi o gol 10 mil da história da Libertadores. Só tenho lembranças boas desse clássico.

Você se vê em qual função no futuro, caso volte a trabalhar com futebol?
Quando voltei e tentei jogar no Brasiliense, comecei a me preparar para ter uma aposentadoria tranquila. Não voltei a jogar futebol por questões financeiras. Eu voltei pelo prazer de jogar futebol. O futuro pertence a Deus e hoje o tempo é de parar. Daqui a pouco, o tempo será de pensar sobre um retorno ao mundo do futebol. Hoje quero me distanciar um pouco. Preciso estudar, me aperfeiçoar no inglês e pensar se quero ser um dirigente ou um assistente. Não me vejo como um treinador. Hoje estou preparado para ficar tranquilo. Tenho certeza que vou contribuiu onde eu for chamado.

Trauma de infância
A gravata é um trauma de infância. Quando eu era menorzinho, tinha um receio de ficar anão. Me via de gravata e pensava que eu ia ficar anão. Por isso, estou de gravata. Para mostrar que o trauma está superado (risos).

Problema com o alcoolismo
Quando comecei a me preparar foi quando voltei a treinar forte no Brasiliense. Você começa a perder o sono, mas não tirou minha tranquilidade e minha certeza do futuro. Tomei a melhor decisão. A questão do problema descoberto pelo São Paulo foi com o doutor Sanchez. Detectaram que eu tinha um problema e era por conta do álcool. Na minha opinião existem vários tipos de depressão. A minha eu escondia atrás do álcool. O São Paulo detectou isso e me ajudou. Eu não tinha mais prazer de jogar futebol. Busquei no lugar certo. Não fui em centro de reabilitação, fui direto a Jesus, a Deus, que são minhas crenças. Os planos de Deus era que eu desse testemunho sobre o que era e o que não era legal levar uma vida daquele jeito. Bebida não combina com nada. Eu não soube o que fazer. Perdi o prazer de jogar futebol. Creio que levantei essa bandeira. Me sinto privilegiado por isso. Sou mais vitorioso fora de campo do que dentro de campo.

Faltou alguma coisa na sua carreira?
Como jogador de futebol me faltou um pouco mais de profissionalismo. Eu voltei para o São Paulo para jogar seis meses e faltou um pouco de profissionalismo. Mas tudo foi superado e tenho portas abertas no clube.

O Brasil está carente de laterais?
Vejo jogadores saindo muito rápido do Brasil. Esse é o problema. O Brasil vende muitos jogadores. Como podemos falar que estamos escassos de laterais, se temos nomes como Fagner, Bruno, Daniel Alves, Danilo... Temos muitos laterais. A gente olha o lateral apenas pelo que ele produz na seleção brasileira. Hoje você vê 70 meninos em uma peneira, e as 70 querem ser igual ao Neymar e ao Messi. Hoje o pessoal monta escolinha e pensa em dinheiro. Mas você precisa formar ser-humano. No Brasil, todo mundo quer ser atacante, quer ser Neymar, e não é assim.

O São Paulo encara o Rosário Central, pela Copa Sul-Americana. Quais suas recordações do confronto com os argentinos, pela Libertadores de 2004?
Ali foi um momento memorável para a gente. Aqui no São Paulo era um momento muito difícil. O torcedor do São Paulo é acostumado com competições sul-americanas. Quando isso acontece, o torcedor nos dá algo a mais. Mas é uma competição diferente, um clima diferente. Ali, tivemos a oportunidade de fazer um grande jogo e nos deu, digamos assim, estávamos começando a quebrar o tabu de que o São Paulo chegava e não ganhava. Infelizmente, não fomos campeões, mas 2004 nos deu uma maturidade que levamos para 2005. Se tratando do jogo contra o Rosário Central, nada melhor do que buscar a vitória e trazer o torcedor para jogar ao seu lado. Para falar a verdade, quando cheguei hoje ao estádio, imaginava a rotatória (praça Roberto Gomes Pedrosa) lotada com torcedores me apoiando.

Sobre a curta (4 meses) passagem pelo Brasiliense
Todos me abraçaram da melhor forma possível. O Brasiliense financiou meu sonho, mas eles sabiam da minha condição. Joguei dois jogos, cada um de 70 minutos, e não era o que eu queria. É um clube do bem, onde tenho um carinho especial. De 20 em 20 dias vou estar no clube, auxiliando os jogadores porque somos amigos. Peço perdão, mas a minha condição física não permitiu isso. Fica o meu carinho ao clube.