Gabriela Brino
09/03/2020
12:39
Santos (SP)

Brilho nos olhos, garganta seca e mãos suadas... Jobson estava estático e realmente emocionado ao ver Renato ali na sua frente, conversando e agradecendo todo o carinho do jovem de 24 anos, que o tem como maior ídolo no futebol.

Desde que o volante soube que usaria a camisa 8, que era a de Renatinho antes de se aposentar, ele se sentiu honrado. Tanto que fez homenagem ao ex-jogador em seu Instagram citando o exemplo que ele é para si dentro do mundo da bola. E no fim das contas, Jobson estava certo, afinal, ele foi honrado com um gol na Libertadores, contra o Defensa y Justicia. E de cabeça!

Mas o que vocês não sabem é que Jobson estudou muito a movimentação para esse gol sair. Pelo Youtube, com vários e repetidos vídeos de Renatinho enquanto atuava. Com todo esse empenho, o LANCE! teve que juntar a dupla para nos contar as histórias. Essa admiração começou desde que ele era uma criança procurando jogadores com seu estilo.

- (A admiração) Começou desde que eu era pequeno. Comecei a jogar bola muito cedo e acompanhei alguns que faziam meu estilo. Comecei a me espelhar e me imaginar no lugar dele. Desde que eu entrei por aquele portão (entrada do hotel do CT Rei Pelé), talvez ele nem se lembre, Renato foi a primeira pessoa que eu vi. Fiquei nervoso (risos). Até hoje eu ainda tenho um pouco de timidez pra falar com ele, porque não é fácil ficar de frente pro seu ídolo. Às vezes faltam palavras pra expressar o que você sente. Estar hoje usando a camisa que ele usou, é uma imensa alegria e poder representar ele e um pouco desse número. Espero fazer muitos gols para poder homenageá-lo - disse Jobson ao LANCE!.

Renato sorriu algumas vezes enquanto ouvia Jobson falar e se recordou da época em que ele também procurava jogadores para se espelhar. O ídolo do Santos citou Giovanni e Zico quando atuava como meia e César Sampaio após mudar de função, e agradeceu o reconhecimento pelo que fez na carreira. 

- Para mim é um orgulho grande. Acho que é reconhecimento da carreira que tive. Comecei como ele, novo, de uma cidade muito pequena, Santa Mercedes. Tinha o sonho de ser jogador de futebol, consegui realizar. Por tudo que eu fiz na minha profissão, só tenho a agradecer. De estar olhando a maneira como eu jogo e do que eu fiz lá atrás. Confesso que eu era mais meia, eu gostava muito do Giovanni, que passou aqui... me espelhava muito nele em 95, no Zico a forma de jogar. Ai mudei a função, passei a olhar mais o César Sampaio... Agradeço ao Jobson pelo carinho, acho que esse é o legado que a gente deixa - respondeu Renato.

Renato se aposentou no final de 2018 e na sequência Jobson foi contratado pelo Santos. Com isso, ruiu-se a ideia de atuarem juntos, sonho do jovem volante. Porém, o destino se encarregou de trazer um momento marcante para o jogador, que se recorda com detalhes de um chapéu que tomou de seu ídolo, em um jogo-treino no CT Rei Pelé. E ele achou a situação "fora de série" e também contou mais sobre procurar vídeos de Renato para estudar.

- Uma vez fiz um amistoso aqui com ele, acho que era Nacional e Santos. Primeiro tempo devo ter ficado no banco, olhei de lá impressionado com o que ele fazia em campo. Até brinquei com ele, quando entrei teve uma bola perto da lateral que ele estava sem espaço e não podia fazer nada, eu fui marcar ele e acabei tomando um chapéu (risos). Então eu falo, pra mim ele é um dos que fora de série. Eu, aliás, fico procurando vídeos dele jogando no Youtube, acho muito pouco o que tem, toda hora que eu entro eu falo "puts, esse daqui eu já vi!"... Ele foi um dos melhores da posição - explicou.

E se você pensa que Renatinho se esqueceu desse chapéu, ele não esqueceu. O ex-volante brincou com a situação e também citou a magia e o carinho de estar atuando com um ídolo. Disse que vê potencial em Jobson e qualidade técnica para a sua antiga posição. O resumiu Jobson como um "atleta moderno e completo".

- Lembro desse chapéu (risos). São lances assim que a gente guarda. É como eu falei, imagine você jogar contra seu ídolo, É uma reação muito grande. Eu também cheguei a jogar com o Giovanni em um jogo beneficente e tem todo aquele carinho, aquela magia... É gratificante pra nós. Desejo toda sorte pra ele, que ele possa ser muito feliz e dar muitos títulos para o Santos. E que ele cresça cada dia mais, porque ele tem muito potencial e qualidade técnica, que é diferenciada hoje em dia. Espero que ele seja até melhor que eu na posição - afirmou.

" É completo. Hoje em dia é um dos poucos que a gente vê com essas características", disse Renato sobre Jobson. 


- É um jogador de passe bom, um cara que está sempre dando passes certos. Joga com a cabeça erguida, sabe o momento de ir pra frente. Tanto que no jogo da Libertadores ele foi um elemento surpresa surgindo de trás, era uma coisa que eu fazia... Pessoal me cobrava muito quando eu voltei, mas pela idade eu não tinha tanta vitalidade de fazer essa movimentação pra frente. Ele é inteligente, versátil, sabe chutar com as duas pernas. É um atleta moderno. Tanto na posição de 1º, saída de bola, ele sabe fazer, tanto como um jogador de lado, com os dois volantes ele tem qualidade pra passe e chute. É completo. Hoje em dia é um dos poucos que a gente vê com essa características... - acrescentou.

Nesse momento os olhos de Jobson brilhavam muito. Segundo o próprio, a garganta secou e a mão ficou um pouco suada. Passou um filme em sua cabeça e houve um desabafo sobre tudo que ele "ralou, sofreu e abriu mão" ter valido a pena. Disse que a emoção de estar ali, conversando e ouvindo Renato era idêntica a de marcar o seu primeiro gol pelo Santos.

- Garganta fica até um pouco seca, a mão começa a suar um pouco... Não é um dia que acontece sempre, escutar isso dele é uma honra, será um dia que eu não vou esquecer. Quero dar muitas alegrias para o Santos e que ele fique muito orgulhoso de mim também. Um dia, se Deus quiser, eu ainda vou dar muito para o Santos - disse.

- Acho que eu falaria para ele (o Jobson de anos atrás) "parabéns, o tanto que você ralou, sofreu e abriu mão lá atrás valeram a pena". Estar vivendo hoje e escutar do Renato é uma coisa que se eu dormisse e tentasse sonhar com isso, eu não conseguiria Escutar o que eu escutei, sem dúvidas me marcou e ficará marcado como um dos melhores dias da minha vida. A emoção é a mesma de fazer o gol que eu fiz na Libertadores. Espero poder continuar o que fiz lá (bom desempenho) e demonstrar o fã que sou do Renato, por que ele merece todas as homenagens - concluiu.

Em meio a tanta emoção, Jobson pediu para entregar um presente para Renato: a camisa em que ele atuou contra o Defensa y Justicia, na Libertadores. A que ele marcou seu primeiro gol. Ele escolheu a peça por conta da inspiração e do peso que ela retirou das costas dele em um jogo tão "raçudo".

- Todos falam que fazem quadro, penduram na parede, eu naõ pensei duas vezes "essa daqui vai pro renato. Ele me inspirou, me ajudou a estar ali dentro, então vai pra ele". Tirou um pouco do peso que eu estava carregando, eu me cobro muito. Sei do que sou capaz de fazer. Ver o que eu estava fazendo dentro de campo e não estar rendendo o que eu sei que consigo, estava me chateando. Espero ter uma sequência e ter um ritmo de jogo. Espero ter mais confiança pra desempenhar meu papel. E o gol que eu fiz teve um pouco da benção do Renato, porque muitos dos gols que eu vi ele fazendo nos vídeos de cabeça valeram a pena (risos) - brincou.

Renato recebeu, o abraçou e afirmou que um dia quer vê-lo convocado para a Seleção Brasileira. Benção maior não há. Agora é com você, Tite.