Miguel Angel

Miguel Angel López venceu a etapa desta quarta-feira do Tour de France e assumiu o terceiro lugar geral. Colombiano é o único que ainda pode tirar um título que pinta ir para a Eslovênia  (com Primoz Roglic ou Tadej Pogacar)  AFP

Fernando Moyna
16/09/2020
22:16
BLOG SOLTA O FREIO

A Etapa Rainha do Tour de France-2020, com duas montanhas gigantescas no final,  não decepcionou e tivemos grandes disputas entre os top 10 e, consequentemente, mudanças na classificação geral.

Etapa começou com a triste notícia do abandono do campeão de 2019, o colombiano Egan Bernal (Ineos). Logo na etapa que há meses, quando foi anunciado o percurso, a grande maioria o apontava como favorito. Junto com o compatriota Nairo Quintana (da Arkea e que também vem se arrastando devido a quedas).Esta seria o tipo de etapa que combina perfeitamente com suas características. Muita altimetria seguida, longo e com altitude.

A fuga se formou depois de muita briga. Quase uma hora de ataque em cima de ataque e por fim cinco se firmaram: o francês da quick-step Julian Alaphilippe(de novo), Lennard Kamna (alemão da Bora, vencedor da etapa de terça-feira), Richard Carapaz (equatoriano da Ineos), além de Izaguirre e Dan Martin. Boa fuga, mas com um número insuficiente para ser bem sucedida. O pelotão ficou satisfeito e manteve a fuga abaixo de dez minutos

O receio de colocar montanhas tão longas e duras no percurso é que os favoritos da classificação geral (camisa amarela) temam ter um dia ruim numa etapa como essa, tão decisiva. Por isso, passam o Tour inteiro poupando energias para esse dia e não se atacam ou se arriscam 100%. Nesse sentido temos que agradecer a equipe Bahrain do espanhol Mikel Landa. A Bahrain raramente assumiu a ponta do pelotão nas 16 etapas anteriores, mas nesta "Rainha" Landa mandou seus experientes e confiáveis gregários assumirem o controle do pelotão. A Bahrain começou a queimar seus gregários, confiando no poder de finalização de seu capitão. É o que ele tinha e tem que fazer, pois dos top 10 é quem provavelmente terá o pior contrarrelógio no sábado, ou seja, se quer melhorar na geral teria de arriscar.

A primeira montanha gigante da etapa, Col de la Madeleine, passou. E o ritmo estava o suficiente para minar as pernas para o último monstro de montanha.

A Bahrain continuava na ponta. Só que agora realmente acelerando. A equipe Jumbo Visma estava feliz de ver a Bahrain fazendo o trabalho para ela e ficou de roda com a rival. Com Pello Bilbao de gregário é que realmente começaram a sobrar a maioria dos gregários das outras equipes. Até alguns capitães começaram a ter dificuldades. Caruso, o último gregário do Landa na Bahrain, assumiu e o pelotão, naquela altura contando com apenas 16 ciclistas. Richard Carapaz, ainda tentava se segurar na fuga. Mas, naquela altura, na metade da subida final, era lógico observar que ele seria pego e os top 10 disputariam não só a etapa, mas os bônus de tempo na chegada.

Quando começou a ficar muito empinado, Caruso rateava e os ataques eram iminentes. A essa altura eram só 11 os sobreviventes e a Jumbo ainda contava com três atletas: Roglic, Dumoulin e Kuss. Os demais: Porte, Mas, Valverde, Pogacar, Superman López, Uran, Yates e Landa.

Migel Angel López atacou e logo Dumoulin, Uran, Valverde, Yates e Landa ficaram para trás. Depois de todo esforço coletivo da equipe Bahrain, Landa foi um dos primeiros do top 10 a não responder aos ataques.

Estranhamente Kuss, o último gregário do Roglic, acabou na frente com uma pequena diferença num momento de “estudo” para ver quem iria neutralizar o ataque do Superman. Parecia não saber se aproveitava a chance ou voltava para ajudar Roglic. Na dúvida, Superman foi com tudo faltando 1,5km. Porém, com aquela inclinação (entre 15 e 18%) significava ainda uns bons cinco minutos de prova. Primoz Roglic finalmente respondeu e o compatriota esloveno Tadej Pogacar tentou segui-lo. Os outros ficaram para trás e estava claro que só esses três estavam realmente lutando pela etapa. Roglic ainda conectou com o Kuss, que o ajudou por 1km.

No final muitas caretas de todos na parte final e mais empinada, inclusive do Roglic, que claramente estava a 100%.

Superman ganhou com autoridade e honrou os colombianos numa etapa como essa.

Depois de todos chegarem de um em um, o maior ganhador de posições na etapa foi o Porte. Era o sexto e agora está em quarto. Superman López, o vencedor da etapa, entrou de vez no pódio até com uma boa vantagem sobre Porte. Do Porte até o oitavo são apenas 1m13s de diferença.

Roglicl o líder terminou em segundo lugar e aumentou 17s a sua vantagem para o vice-líder Pogacar. E mais importante: demonstrou que não está prestes a implodir. É uma mensagem e tanto já que ataca-lo e ainda por cima com sua equipe Jumbo para defende-lo parece suícidio.

A etapa desta quinta-feira

O Tour Ainda não acabou e a etapa tem excelente chances para ataques e emboscadas táticas. Serão cinco montanhas categorizadas e a estrada aponta para cima desde a largada.

Como sempre, na terceira semana de um Tour de France, a briga pelo sprint intermediário dominará o começo. Desta vez teremos um logo no 13,5km. O que isso significa? Todos terão de se aquecer no rolo antes da largada já que começarão a toda.

Após o sprint intermediário, a estrada só aponta para cima até o 45km no topo do “categoria 1”, que servirá de rampa de lançamento para as fugas, que sairão de novo em quantidade.

Esse cabo de guerra entre pelotão e quem conseguirá ficar na fuga será importante. Muitos interessados e por vários motivos. Grande pontuação para camisa de bolinha (melhor escalador), para os que irão tentar ganhar a etapa e para os gregários dos favoritos a camisa amarela que tentarão se infiltrar e se posicionarem à disposição de seus capitães quando eles começarem a aumentar o ritmo no final da etapa.

A última montanha categorizada, “Montée du plateau de Glieres” é curta, mas empinada. São 6,1km com média de 10,9%. Empinado e ainda por cima no final tem um trecho de “gravel” (cascalho) de 2km. Essa é a última chance neste Tour para os escaladores conseguirem fazer diferença. Eles deverão ir com tudo para ver se quebram quem está com uma fadiga acumulada.

Esta etapa não acaba ao alto e isso pode significar que alguém que fique para trás antes do topo ou com algum problema mecânico no “gravel” encontrará muita dificuldade em reconectar:ficará sozinho por mais 30km até a chegada. Por isso a importância deles tentarem infiltrar gregários na fuga logo cedo na etapa.

Caso seja disputada de forma a arriscarem tudo, a etapa tem muita chance de ser animada. Caso os favoritos não queiram arriscar suas posições será um desperdício de um ótimo percurso para atacar.

Minha opinião é a de que Tadej Pogacar irá atacar e arriscar sua colocação, mesmo com seu segundo lugar consolidado. Ele é ousado, tem atitude, veio do cyclocross e só gostaria mais da etapa se estivesse chovendo. Caso Pogacar ataque, o lider Roglic e a Jumbo terão de responder. E claro: os outros do top 10 deixarão a Jumbo fazer força até terem alguma chance Roglic ficar isolado no rata final, como nesta etapa 17. Com isso, quem sabe, começarão os ataques em efeito dominó.

Tomara!! Vai Pogacar!!