'Uma renovação importante já ocorre no Brasil', afirma presidente do COB
Paulo Wanderley diz que as perspectivas do país para Tóquio-2020 são 'boas' e promete investir recursos da nova MP nas categorias Sub-18 e Sub-21, junto com confederações

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Perto de completar um ano na presidência do Comitê Olímpico do Brasil (COB), Paulo Wanderley reuniu no período práticas e argumentos para derrubar a impressão de que o esporte no país perdeu o rumo após os Jogos Rio-2016. Agora, precisa mostrar que o discurso se sustenta em uma nação onde os valores do Movimento Olímpico ainda precisam chegar a uma grande parcela da população.
Os escândalos que mancharam a gestão de Carlos Arthur Nuzman, seu antecessor e de quem o atual mandatário foi vice por um ano, e a falta de patrocinadores foram desafios para o dirigente. Mas ele assegura que os projetos esportivos de auxílio à preparação para Tóquio-2020 não correm riscos e se compromete a aplicar mais recursos nas categorias Sub-18 e Sub-21, em parceria com as confederações.
Com a edição da Medida Provisória 846, o COB deve ter, por ano, uma receita extra de mais de R$ 40 milhões com verba das loterias. E o mandatário, que já vê um processo de renovação em andamento, garante que a base será prioridade no resto do mandato com esta receita.
– A boa participação nos Jogos Sul-Americanos de Cochabamba-2018, em maio, com uma delegação basicamente sub-23, mostra que o esporte brasileiro já está passando por uma renovação importante – afirmou Wanderley, ao LANCE!.
O COB passou por uma série de mudanças desde o início de sua gestão. Qual foi a medida mais difícil que teve de tomar?
O momento era dos mais delicados quando assumi, com denúncias contra o ex-presidente, suspensão por parte do Comitê Olímpico Internacional e descrédito de toda a sociedade. Mas o desafio era do tamanho da oportunidade. Desde que assumi a Presidência, em outubro do ano passado, estou implementando cortes de custos e de RH para adequar o COB à realidade atual do país. Pretendo fazer com que esse exemplo seja seguido em todas as Confederações Olímpicas do país. Austeridade, Meritocracia e Transparência são palavras de ordem no COB sob a minha gestão. A aprovação do novo estatuto em apenas 42 dias não foi tarefa fácil e mostrou a energia que temos para transformar o esporte brasileiro.
E quais considera as mais bem sucedidas?
Os atletas obtiveram maior representatividade na Assembleia do COB, passando de um para 12. O processo eleitoral para presidente e vice-presidente se tornou mais acessível, abrangente e inclusivo. Houve a criação do Conselho de Administração e do Conselho de Ética, que estamos certos de que irá impactar na melhoria de gestão do COB. Abrimos um canal de ouvidoria para receber denúncias e reclamações diretas da sociedade. Outro ponto importante, a assinatura do termo de Ajuste de Conduta (TAC) com o Ministério do Esporte, ratificou o compromisso do COB com a transparência. Além disso, nos últimos dias o Conselho de Administração do COB aprovou a mudança da sede da entidade para o Parque Aquático Maria Lenk, o que vai gerar 38% de economia com as estruturas do COB. Estou satisfeito com o resultado das mudanças até aqui, e vamos continuar aprimorando a gestão do COB. O objetivo final é o atleta. Com melhor gerenciamento dos recursos, poderemos oferecer melhores condições de treinamento e preparação nessa caminhada para os Jogos de Tóquio-2020.

Dentre as modalidades que mais renderam medalhas ao Brasil em Jogos Olímpicos, o vôlei sofre uma crise, com cortes severos de investimentos, e a vela acaba se encerrar o Mundial sem medalhas. A canoagem velocidade, que fez história na Rio-2016, hoje tem o apoio do BNDES ameaçado. Qual a sua perspectiva para Tóquio-2020?
As perspectivas são boas. Vamos dar o máximo ao atleta. Nosso desafio é oferecer as melhores condições sempre. Os projetos esportivos não sofreram abalos significativos com a retração dos patrocinadores e a crise financeira. Minha equipe já realizou diversas visitas de inspeção a Tóquio e já temos definidas várias bases de apoio à operação de suporte à delegação do Brasil.
O que você planeja fazer para minimizar barreiras como essas na preparação do Time Brasil?
O nosso objetivo é possibilitar que o atleta só tenha a preocupação de descansar, treinar e competir bem. O último ano foi bem positivo, quando conquistamos 18 medalhas em Campeonatos Mundiais ou competições equivalentes. Este é o segundo melhor resultado do país em um primeiro ano pós-olímpico, só perdendo para 2013, e o terceiro no geral. A avaliação é positiva, e seguimos trabalhando para estruturar o esporte olímpico brasileiro.
A decisão do COB de não revelar uma meta de medalhas para 2020 com antecedência tem a ver com a experiência do ciclo anterior, quando o Brasil não conseguiu entrar no top 10, conforme esperado? Você acredita que houve uma pressão excessiva sobre os atletas no último ciclo?
O COB definirá uma meta para Tóquio-2020 após os Jogos Pan-Americanos de Lima e os Campeonatos Mundiais de 2019, eventos que fornecerão subsídios para uma análise mais detalhada do Brasil e dos possíveis adversários em cada modalidade. É natural que haja mais pressão em uma competição disputada dentro do seu próprio país. E quando falamos em Jogos Olímpicos tudo é superdimensionado. Considero a participação do Brasil nos Jogos do Rio muito boa, apesar de não ter alcançado a meta estabelecida. A delegação brasileira atingiu marcas inéditas para toda a história do evento esportivo mais importante de todos, com recorde geral de medalhas, recorde de medalhas de ouro, recorde em participações em finais. Também aumentamos o número de modalidades no pódio, passando de 9 para 12. Além disso, brindou o público com atuações inesquecíveis, como a de Rafaela Silva, no judô, Thiago Braz, no atletismo, Robson Conceição, no boxe, Isaquias Queiroz, na canoagem, que se tornou o maior medalhista brasileiro em uma só edição dos Jogos, o ouro inédito do futebol, entre tantos outros.
Muitos ídolos dos brasileiros na história recente estão se aposentando ou já deixaram de competir. Ao mesmo tempo, os novos talentos que surgem enfrentam dificuldades de se manterem no topo. O quanto essa carência de ídolos preocupa para o desenvolvimento de uma cultura olímpica no país?
Muito se falou dos Jogos Olímpicos Rio-2016, mas o evento foi muito importante para a criação de uma cultura olímpica no país. Toda uma geração teve contato com os Jogos, com novos ou velhos ídolos, e passou a acompanhar o esporte mais de perto, ou mesmo a praticar uma atividade esportiva.

Mas o dinheiro foi embora. Como criar novos ídolos?
A boa participação nos Jogos Sul-Americanos Cochabamba-2018, em maio, com uma delegação basicamente Sub-23, mostra que o esporte brasileiro já está passando por uma renovação importante. Em Cochabamba, o Brasil teve sete atletas entre os dez maiores medalhistas dos Jogos, todos jovens. A nadadora paulista Gabrielle Roncatto ficou em primeiro lugar, com cinco medalhas, sendo quatro de ouro e uma de prata. Além de Roncatto, na liderança, o Time Brasil teve seis atletas entre os dez maiores medalhistas dos Jogos: Natália Gáudio (ginástica rítmica), Bruna Takahashi (tênis de mesa), Ana Carolina Vieira (natação), Rafaela Raurich (natação), Flávia Saraiva (ginástica artística) e Vitor Ishiy (tênis de mesa).
Com a edição da MP 846, o COB se beneficiou de ter à disposição uma quantia maior de recursos das loterias daqui para frente. Onde e de que forma esses valores serão aplicados?
Toda a polêmica em torno da MP 841, agora MP 846, teve o aspecto positivo de mostrar que o esporte brasileiro começa a se unir para enfrentar os desafios. A mobilização de toda a comunidade esportiva nesse caso foi fantástica, além de ter posicionado o COB como liderança no setor. O detalhamento das ações bem como de outros projetos ainda depende de estudo da nossa equipe técnica a partir da aprovação da MP em até 60 ou 120 dias. Mas temos o compromisso de continuar investindo nos Jogos Escolares da Juventude, que têm um potencial enorme não apenas de desenvolvimento das modalidades, mas também na formação de cidadãos. Pretendemos incrementar ainda mais esse projeto dentro do COB, além de investir os recursos também nas categorias de base, em conjunto com as Confederações. Nosso objetivo principal serão as categorias Sub-18 e Sub-21.
"Toda a polêmica em torno da MP 841, agora MP 846, teve o aspecto positivo de mostrar que o esporte brasileiro começa a se unir para enfrentar os desafios. A mobilização de toda a comunidade esportiva foi fantástica e posicionou o COB como liderança no setor"
O esporte se tornou nas última décadas um setor muito lucrativo, sobretudo com o alto rendimento. Como é possível conciliar o "esporte negócio" com o "esporte ferramenta de desenvolvimento e bem-estar da população"?
É possível conciliar o esporte como negócio e como ferramenta de inclusão social e de obtenção de saúde para a sociedade. Mesmo uma entidade como o COB, que não tem como missão gerar lucro, hoje em dia tem que usar as ferramentas do mercado para ser bem-sucedida. Austeridade, transparência e meritocracia são as bases da gestão do COB hoje em dia. Com isso, buscamos atrair novos patrocinadores, aumentar o financiamento do esporte brasileiro, gerar ídolos e, por consequência, inspirar a juventude e toda a população brasileira a encontrar os benefícios da prática esportiva, seja em alto rendimento ou como lazer e busca por uma vida mais saudável. Ao mesmo tempo em que é uma indústria que gera milhões de empregos e receita pelo mundo, mais e mais pessoas estão procurando os benefícios do esporte como gerador de saúde e bem-estar, sem falar no caráter social muito importante para países como o Brasil. O esporte é um caminho direto para a ascensão social e um norte para a juventude do mundo todo. O projeto Transforma, do COB, um dos pilares mais importantes de nosso pilar de promoção dos Valores Olímpicos, é um bom exemplo disso.
O Brasil aproveita bem o seu potencial no esporte?
O Brasil tem um potencial muito grande a ser desenvolvido em vários aspectos do esporte. A função do COB é trabalhar com o alto rendimento, preparar as delegações brasileiras para as principais competições multiesportivas do calendário internacional – Jogos Olímpicos, Pan-Americanos, Sul-Americanos... Mas a entidade também tem a responsabilidade difundir os Valores Olímpicos.
Como o país pode obter melhores resultados sociais com o investimento que faz no setor?
Organizamos os Jogos Escolares da Juventude, que movimentam todos os estados do país em uma competição para atletas de 12 a 17 anos, divididos em duas faixas-etárias. A maior preocupação do COB nesse evento é a formação da cidadania dos jovens atletas, até maior do que a esportiva. Durante o período dos Jogos, realizamos diversas atividades culturais e educacionais, colocamos vários ídolos do esporte em contato com os jovens, muitos saídos das camadas mais desprovidas da nossa sociedade, para que incentivem e inspirem a nossa juventude. As crianças que participam dos Jogos são agentes multiplicadores e levam as lições aprendidas e uma nova forma de ver o mundo para suas casas, sua vizinhança e suas cidades. O esporte tem o poder de transformar vidas para melhor. Tenho essa convicção.

Dirigente vê Brasil mais capacitado após Jogos
Mais do que arenas, o legado dos Jogos Olímpicos Rio-2016, na visão de Paulo Wanderley, foi de conhecimento. O dirigente, que assumiu a presidência do COB dois meses após o evento, acredita que o país está mais capacitado para trabalhar nas mais diversas áreas do esporte olímpico, graças aos aprendizados obtidos pelos profissionais na época.
– O principal legado dos Jogos Olímpicos foi em relação aos recursos humanos. Temos hoje diversos profissionais de várias áreas capacitados a trabalhar em prol do desenvolvimento do esporte e do Movimento Olímpico no Brasil. Sem falar em uma geração de jovens e crianças que, com certeza foram impactados e serão estimulados a desenvolver uma prática esportiva e, de alguma forma, levar adiante os valores olímpicos – disse Wanderley.
Com o atual mandatário, o COB passou por mudanças em seus principais cargos. Ele efetivou, dentre outros, o ex-judoca Rogério Sampaio como diretor geral, Jorge Bichara como diretor de esportes, Manoela Penna como diretora de comunicação e marketing, e Luciano Hostins, como diretor jurídico.
Wanderley dará palestra no Rio
Paulo Wanderley é uma das presenças confirmadas no VIII Seminário de Gestão Esportiva FGV/FIFA/CIES, que debaterá a essência do esporte como ferramenta de crescimento e bem-estar, amanhã, no Centro Cultural da FGV, no Rio de Janeiro.
O presidente do COB participará de um painel sobre os princípios e valores do Movimento Olímpico e Paralímpico, às 14h, ao lado do presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), Mizael Conrado.
QUEM É ELE
Nome
Paulo Wanderley Teixeira
Nascimento
29/9/1950, em Caicó (RN)
Cargo
Presidente do COB
Trajetória
Foi técnico da Seleção Brasileira de judô de 1979 até 1993. No período, comandou o país nos Jogos Pan-Americanos de Havana-1991 e nos Jogos Olímpicos Barcelona-1992. Em 2001, foi eleito presidente da Confederação Brasileira de Judô (CBJ), cargo que ocupou até 2016, quando foi eleito vice do COB.
A ASCENSÃO
Formação
Paulo Wanderley se formou em Educação Física em 1972 e se tornou técnico de judô.
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Auge como técnico
Em Barcelona-1992, foi técnico de Rogério Sampaio, hoje diretor geral do COB, na conquista do ouro olímpico.
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Vida de dirigente
Com o tempo, Wanderley se interessou cada vez mais pelos bastidores. Em 2001, assumiu a presidência da Confederação Brasileira de Judô (CBJ), cargo que ocupou por 16 anos.
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No COB
Em 2016, assumiu como vice de Nuzman. Com a renúncia do antecessor em 2017, suspeito de intermediar a compra de votos da Rio-2016, ele virou presidente até 2020.
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