Jonas Moura
07/07/2019
08:00
Rio de Janeiro (RJ)

Com razões de sobra para sorrir, Rafaela Silva tenta confirmar o alto nível que mostrou este ano. Em preparação para os Jogos Pan-Americanos de Lima, entre 8 e 11 de agosto, e o Mundial de Tóquio, entre 25 e 31 de agosto, a judoca campeã olímpica na categoria até 57kg chegou ao pódio nos últimos cinco eventos que disputou.

No mais recente, o Grand Slam de Baku (AZE), em maio, encerrou uma sequência de batidas na trave e levou o ouro, ao vencer a japonesa Tsukasa Yoshida, atual líder do ranking. Nesta semana, ela terá como aperitivo para os grandes eventos o Grand Prix de Budapeste, na Hungria, entre sexta e domingo.

Ao L!, Rafaela falou sobre a retomada do foco após o ouro olímpico no Rio, os próximos objetivos e o namoro com a judoca Eleudis Valentim (52kg), com quem convive no dia a dia da Seleção Brasileira.

Você está prestes a disputar duas grandes competições, que são o Pan de Lima e o Mundial, no Japão. Como chegará?
Eu acho que temos de manter o trabalho que ajudou nos resultados e nas preparações anteriores. E é preciso ter cautela. São as competições mais importantes do ano, muito intensas e ambas no mesmo mês. Isso exige maior prevenção de lesões. Qualquer problema tem de ser evitado, pois o Mundial dará muitos pontos para Tóquio-2020.

O Pan não terá suas maiores adversárias e não vale pontos no ranking. Qual será a sua motivação para ir a Lima?
O Pan depende de cada atleta, mas eu gosto de viajar e de não ficar muito tempo sem segurar o quimono. Treinar é diferente de competir. Então, ajuda, até porque, no Pan, tem algumas adversárias chatas, como a cubana (Anailys Dorvigny). Não vale pontos para o ranking, mas dá para manter o ritmo.

Antes do ouro em Baku, você ficou quatro vezes com a prata. O que mais tirou de lição?
Além da japonesa, há atletas muito fortes na categoria. As canadenses têm um judô mais defensivo, e, às vezes, a gente se estressava ao enfrentá-las. É necessário ter muita paciência. Eu já perdi a cabeça em lutas contra elas. Somos enrolados por esse estilo de atuar. Elas colocam pressão, nos jogam no chão, e, com isso, não fazemos o planejado. É trabalhar paciência e concentração.
* NR: Devido ao Mundial, o Canadá não levará ao Pan de Limas suas principais atletas, Christa Deguchi (3 do ranking) e Jessica Klimkait (7).

Você já se imagina em Tóquio-2020, na condição de atual campeã olímpica? O que espera?
Tento fazer uma competição por vez. Em um ano, muita coisa acontece. Tem o ranking (está em quinto) e preciso ver se vou entrar na Olimpíada como cabeça de chave ou não. Tento não pensar que chegarei como atual campeã olímpica, com expectativa de resultados e cobranças. Não adianta dar o passo maior do que a perna. No Mundial, no Japão, dará para sentir o clima dos Jogos.

O ano de 2019 marca um salto para você neste ciclo olímpico, após dois anos de poucos resultados. O que mudou?
Começamos a priorizar treinamentos e competições. Eu estava desfocada em relação à agenda. Não concluía uma semana de treinos. Então, desde o ano passado, recuperei o foco. Sentamos com a comissão técnica para definirmos onde eu teria de treinar e viajar. Foi bem direcionado. Passei a cuidar mais de mim e da minha agenda. Sou movida a desafios. Por ser a atual campeã olímpica, uso meu back number dourado no quimono. Se não focar, vou perdê-lo. São pequenos detalhes que me apego para não perder mais o foco.

Você iniciou um tratamento dentário. Isso ajudou no judô?
Ajudou muito. Faço tratamento com alinhadores no Consultório Boutique, no Rio, pois não tinha a mordida correta. Os dentes não encaixavam. Já usei aparelho fixo, mas me machucava no judô. Vejo judocas quebrarem dentes ao lutarem. É horrível, pois trabalhamos com a nossa imagem o tempo todo, diante do patrocinadores.

Com exceção dos pesados, o Brasil tem dificuldade de obter, no masculino, os mesmos resultados do feminino. Isso preocupa para Tóquio-2020?
É difícil falar, pois às vezes estamos em bom momento, mas não fizemos muitas competições. Ou passamos por lesões e não caímos em uma chave boa. Com isso, entramos em uma primeira luta e mal sentimos o campeonato, como aconteceu comigo em 2017. Dá para chegarmos fortes nos dois, mas o feminino ainda tem mais atletas experientes, como eu, a Mayra (Aguiar), a Sarah (Menezes) e a (Maria) Suelen (Altheman). O masculino teve maior renovação, então enfrentará mesmo as dificuldades. Os homens começaram a fazer um trabalho com a Yuko Fujii (japonesa e primeira mulher a treinar a Seleção Brasileiro masculina). No judô é difícil, pois trabalhamos algo hoje, mas leva um tempo para aparecer o resultado. Mas, para Tóquio-2020, estaremos prontos para buscar medalhas.

Que avaliação faz da preparação do judô brasileiro para Tóquio-2020?
A CBJ tem feito um trabalho mais direcionado. Conversamos muito com treinadores, em cima das nossas dificuldades. Quando entrei na Seleção, ia todo mundo para Espanha ao mesmo tempo, por exemplo. Hoje, na minha categoria, a Europa ainda se sobressai. Treinar lá me ajuda. No masculino, na acima de 100kg, é mais o estilo asiático. Tem de buscar mais lá, fazer treinamentos de de campo. Agora, tem um planejamento melhor.

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Recentemente, você assumiu namoro com a Eleudis. Como tem sido conciliar vida pessoal e profissional no dia a dia?
Eu acho que a presença dela no meu dia a dia é uma motivação, pois ela também disputa uma vaga para Tóquio-2020, com outra atleta de sua categoria. Ter alguém para te incentivar em casa, quando você está desanimado ou cansado, faz a diferença. É sempre um suporte a mais e agrega, pois estamos caminhado para o mesmo lado. Dá para chegar lá sozinho, mas junto, você vai mais longe. Acredito que ela me ajudará bastante nessa caminhada e meu objetivo é ajudá-la, também.

Os estilos de vocês são parecidos?
Sou mais competitiva, até no joguinho de dança do videogame. Quando eu a venço, já quero zoar. Ela fala que, se eu ficar provocando, vai parar de jogar (risos). Mas somos bem parecidas. As duas passam o dia perturbando as outras judocas.

COM A PALAVRA

No consultório dentário, uma preparação para os tatames

Dra. Erika Abreu, dentista responsável pelo tratamento de Rafaela Silva, ao lado da Dra. Rachel Abreu, no consultório Boutique.

A saúde bucal do atleta de alto rendimento é muito importante. Temos de saber quais medicamentos receitar, devido às políticas antidoping. Corpos infecciosos podem interferir em lesões. Neste tratamento da Rafaela, ela usa um tipo aparelho que corrige a mordida inadequada. Este problema pode causar alterações na postura, na força e na respiração. Fizemos um tratamento para melhorar o encaixe dos dentes e, consequentemente, ajustar todos esses fatores. É um aparelho móvel, não fixo. Para ela, é interessante, pois com o fixo qualquer momento que o atleta esbarrar em uma luta pode machucar a boca. Pelas regras do judô, ela não pode competir com protetor bucal. É diferente do MMA, em que isto é até obrigatório. Antes do tratamento, ela usava aparelho fixo e não podia usar o protetor. Corria risco de lesões nos lábios. 

QUEM É ELA

Nome
Rafaela Lopes Silva
Nascimento
24/4/1992, no Rio de Janeiro
Posição no ranking
5ª, na categoria até 57kg
Principais conquistas
Campeã olímpica na Rio-2016; campeã mundial no Rio-2013, quando se tornou a primeira brasileira da história a conquistar o ouro no evento; prata no Mundial de Paris-2011; prata no Pan de Guadalajara-2011; e ouro nos Jogos Mundiais Militares, em 2015.