No abraço de pai e filha, nem tiros transformam sonho em pesadelo
Mesmo baleada, Julia foi ao jogo do Tijuca na Superliga. E sorriu.

Eram 17h45 quando Julia e Marcos chegaram no Tijuca Tênis Clube para o jogo contra o Sorocaba pela Superliga de Vôlei. Três dias depois de ser baleada, o que ela estava fazendo ali? Porque ele, que viveu o pesadelo de ver armas apontadas para si e, pior, viu a filha tomar um tiro, não ficou em casa? A resposta é tão complexa que chega a ser simples.
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Julia e Marcos vivem um sonho. Por muitos anos, talvez até década sonharam em ver o Tijuca na Superliga A. Dentista, Marcos decidiu que dedicaria todo seu tempo fora do consultório, a fazer o sonho acontecer. Sem receber nada por isso. Algumas vezes, foi chamado de louco. Mas se apegou aos membros da diretoria que também acreditavam e conseguiu que o Tijuca chegasse à elite do vôlei nacional nesta temporada.
Julia, que jogou na base do clube, logo foi a primeira contratação. Deixou chances que teria no exterior para abraçar o pai e o sonho.
O mesmo abraço que no último domingo foi seguido de muito, muito choro. A "ficha tinha caído". Sua filha acabara de tomar um tiro e escapar ilesa. O desespero por tudo que podia ter acontecido e a felicidade por ver a filha bem, se misturaram com a adrenalina. O pai soluçava. A filha agradecia por estar viva.
Como superar um pesadelo desses? Decidindo seguir vivendo no sonho. Por isso, pai e filha fizeram questão de estar em quadra nesta quarta. Valia mais do que o jogo contra o Sorocaba. Como diz a expressão popularizada no futebol: "Era mais do que só vôlei".
Julia chegou sorrindo. A cadeira de rodas só incomodou quando precisou descer escadas. O braço do pai, o esforço da atleta, e problema resolvido. Marcos estava mais tenso. E foi ficando cada vez mais enquanto o jogo rolava.
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Bruna Perez se emocionou e chorou muito ao abraçar a amiga. Outras jogadoras fizeram o mesmo. Todos tentavam fazer com que Julia ficasse feliz. Hora chegava água de coco, hora ofereciam doce de leite. Aliás, desde que sofreu o atentado, flores, presentes e mensagens de apoio chegam em profusão. Entre entrevistas e a tensão pelo jogo, Julia sorria.
Também presente no ginásio, uma torcedora especial. A avó de Julia fez questão de prestigiar a neta.
- Não é porque você não está em quadra que não vou torcer por você - disse, antes de fazer um carinho e seguir para o seu lugar cativo nas arquibancadas.

Avós/mães e seu incrível poder de entender. Ali está o sonho da neta e do filho. E é hora de viver esse sonho. Que nem os tiros foram capazes de parar. Na quadra, o Tijuca venceu de virada. Fora dela, venceu de goleada.
Julia segue sorrindo.
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