Kobe Bryant

Kobe foi gigante para o basquete (Foto: Stacy Revere / AFP)

Matheus Costa*
27/01/2020
09:00
Rio de Janeiro (RJ)

Kobe Bryant marcou uma geração no basquete. Pouco antes do fim da carreira de Michael Jordan, o então camisa 8 do então defasado e sem perspectiva de futuro Los Angeles Lakers dava sinais de que poderia sim representar uma nova era na NBA.

Ao contrário de LeBron James, que é um atleta nato extremamente talentoso, Kobe sempre se destacou pela inteligência dentro de quadra e pela capacidade de superar desafios, obstáculos e, principalmente, de se superar. Por muitos anos, 'KB' mostrou que era capaz de tudo.

Tudo começou quando no draft da NBA de 1996, o Charlotte Hornets escolheu Kobe Bryant na 13° escolha da noite. Sim, o Charlotte Hornets. Mas ali aconteceria a troca que mudaria a história da liga: o Hornets mandou Kobe para o Los Angeles Lakers em troca de Vlade Divac. Acho que é necessário dizer que esta foi a pior troca da história da franquia da Carolina do Norte.

Foram diversos embates individuais que Kobe travou ao longo de sua carreira. Michael Jordan, Allen Iverson, Paul Pierce e LeBron James foram épicos. Viscerais. Arrepiavam. Mas os confrontos de Kobe não permaneceram apenas dentro de quadra. Afinal, a maior rivalidade de sua carreira foi justamente contra um companheiro de time.

Quando o Lakers assina contrato com o pivô Shaquille O'Neal, a equipe de Los Angeles contrata o treinador Phil Jackson, que comandou a dinastia de Michael Jordan no Chicago Bulls, para dar início a uma nova era na NBA: foram três campeonatos e uma das maiores duplas da história da liga. Nos bastidores, os dois divergiam constantemente e chegaram a um ponto que sequer se falavam. Incrível.

Histórias de Kobe Bryant há aos montes, mas eu decidi escolher uma em especial que mostra exatamente quem era Kobe Bryant, o que representou Kobe Bryant para o basquete e como ele criou a "mentalidade mamba", que é um estilo de vida que o atleta criou que basicamente exige que você dê tudo de si em qualquer coisa na sua vida.

Em um texto para o "The Players Tribune" em 2017, Kobe detalhou o quão obcecado ele era com Allen Iverson, um dos seus maiores rivais em quadra. No dia 19 de março de 1999, Iverson faz 41 pontos e 10 assistências enquanto Bryant o marcava. Este, segundo Kobe, foi o momento em que sua carreira mudou. Ele não só percebeu que precisava treinar mais duro, como ele precisava estudar Iverson como um obcecado. Portanto, ele, acredite se quiser, começou a estudar como os tubarões caçam focas na costa da África do Sul, focando na paciência, no "timing" e nos ângulos. No dia 20 de fevereiro de 2000, os dois se reencontraram e Kobe, novamente, foi escolhido para marcar Iverson a partir da segunda metade da partida. Allen Iverson, que já estava com 16 pontos até então, não pontuou novamente. Ele foi engolido por Kobe e completamente anulado. Kobe era o tubarão. Iverson, a foca.

Há tanto o que podemos falar sobre Kobe Bryant, mas pouco pode descrever o seu legado ao jogo. Ele influenciou tantos jogadores e fãs em 20 anos de carreira que se torna um cálculo imensurável mencionar algo que possa lhe passar a noção da legião de pupilos do camisa 8, que depois vestiu a camisa 24.

Em 20 anos de carreira, Kobe foi selecionado como "all-star" em 15 deles. Cinco campeonatos em que foi amplamente decisivo em todos. Eleito o melhor jogador da NBA em 2008. Eleito o melhor jogador das finais da NBA em 2009 e 2010. Quarto maior pontuador da história da NBA, marca superada por LeBron James, por uma poesia do destino, um dia antes de seu falecimento.

Ele era o jogador que ou você o amava ou você o odiava. E muitos, de tanto odiá-lo, acabavam se tornando fãs e amantes de sua carreira. Ame ou odeie, Kobe Bryant foi Kobe Bryant. Não há nada que apague, manche ou simplesmente afete tudo o que o "Mamba Negra" fez dentro de quadra e contribuiu para o jogo.

Kobe foi, simplesmente, o Michael Jordan de uma geração que não pôde assistir Michael Jordan, como muito bem disse André Kfouri, colunista do LANCE! e comentarista dos canais ESPN. A capacidade de decidir um jogo, a capacidade de crescer perante as adversidades, a capacidade de matar uma bola que desafia as leis da física. Assim como Jordan, quando as coisas complicavam, Kobe botava a bola debaixo do braço e ia para dentro. Nem sempre deu certo, é claro, mas geralmente dava. 

Kobe e Jordan se assemelhavam muito mais do que por conta do estilo nas quadras. Afinal, se Jordan influenciou toda uma geração, Bryant fez o mesmo. O Mamba foi um dos principais responsáveis pela globalização do basquete nos anos 2000. Kobe não seria Kobe sem o basquete. O basquete não seria basquete sem Kobe.

Foi um prazer, Kobe. Obrigado por tudo.

* Sob supervisão de Paulo Victor Ramos