Mizael Conrado é eleito presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro

Mizael Conrado preside o Comitê Paralímpico Brasileiro desde o ano passado (Foto: Divulgação/CPB)

Jonas Moura e Vitor Chicarolli
18/08/2018
08:00
São Paulo (SP)

Preocupado em melhorar o rendimento do Brasil nos próximos Jogos Paralímpicos, que acontecerão em Tóquio, em 2020, o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) trabalha também com outras metas no longo prazo. Uma das grandes missões da entidade é ampliar o número de praticantes no país, uma vez que a atual gestão vê grande disponibilidade de pessoas com deficiência, tanto para o alto rendimento quanto para a inclusão em atividades físicas.

Atualmente, o CPB afirma ter cerca de 7 mil atletas cadastrados nos cinco esportes que gerencia: atletismo, esgrima, halterofilismo, natação e tiro esportivo. Mas o número total no território é maior e difícil de ser estimado.

Modalidades como o vôlei sentado e o basquete em cadeira de rodas, e aquelas voltadas para deficientes visuais, como judô e goalball, são administradas pela Confederação Brasileira de Voleibol para Deficientes (CBVD), a Confederação Brasileira de Basquetebol em Cadeira de Rodas (CBBC) e a Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais (CBDV), respectivamente. E até mesmo nos esportes sob responsabilidade do CPB existem muitos atletas que não têm inscrição formal.

No último Censo Demográfico, de 2010, 45,6 milhões de pessoas declararam ter pelo menos um tipo de deficiência, o que correspondia a 23,9% da população na época. Os números serão atualizados no Censo 2020. Para o presidente do CPB, Mizael Conrado, ainda é preciso inserir uma grande parcela no âmbito esportivo.

– Falta no Brasil criar mais oportunidade para as pessoas que ainda estão à margem. É basicamente o que estamos buscando fazer em nosso planejamento estratégico. Oferecer a condição para que as crianças tenham acesso ao esporte na fase escolar, bem como as pessoas que se tornam deficientes depois de adultas, nos centros de reabilitação, nas Polícias Militares e nas Forças Armadas. Assim, contribuiremos com o aproveitamento de muito potencial que ainda é desconhecido pelas organizações esportivas – disse Mizael, ao LANCE!.

Para ampliar o número de praticantes, a entidade promete não apenas manter a caça aos talentos, mas investir em quem deve formá-los. O Comitê tem como meta capacitar 100 mil professores de Educação Física até 2025.

Bicampeão mundial de futebol de 5, Mizael foi eleito em abril do ano passado para o cargo. Antes, ele era vice-presidente na gestão do brasileiro Andrew Parsons, que hoje comanda o Comitê Paralímpico Internacional (IPC).

Ele é uma das atrações do VIII Seminário de Gestão Esportiva FGV/FIFA/CIES, que debaterá a essência do esporte como ferramenta de crescimento e bem-estar, no dia 25 de agosto, no Centro Cultural da FGV, no Rio de Janeiro. 

Esporte pode resgatar a produtividade, diz Mizael

Desde a era Andrew Parsons, o Brasil cresceu no cenário continental e internacional, com o aumento das verbas das loterias federais e a inauguração do Centro de Treinamento Paralímpico em São Paulo, um dos legados da Rio-2016. No dia a dia, porém, ainda há uma distância grande entre portadores de deficiência e o mundo do trabalho. E até nisso o esporte tem a acrescentar. 

– No esporte paralímpico, o atleta resgata sua cidadania, ganha resiliência e recupera o sentido de produtividade, que nos move. Além disso, o esporte muda a percepção da sociedade. Sai a imagem da limitação e da deficiência, que dá lugar à da superação e da eficiência. Isso faz com que a sociedade receba de uma melhor forma a pessoa com deficiência e possa identificar o potencial desses indivíduos – disse o dirigente.

O atual mandatário do CPB assumiu a presidência com discurso de manutenção do trabalho do antecessor. E acredita que a inserção cada vez maior de pessoas com deficiência no alto rendimento tem muito a inspirar.

– Se o Daniel Dias, com limitação nos quatro membros, pode conquistar medalhas e recordes em Jogos Paralímpicos e Mundiais, você pensa: "por que ele não pode trabalhar na minha empresa, estudar na escola com meu filho e conviver em condições de igualdade?". No plano econômico, o esporte tem garantido sustento a centenas de pessoas, que antes estavam à margem do mundo do trabalho, com patrocínios e o Bolsa Atleta – completou o dirigente.

Tóquio-2020 no radar e meta de ser top 10

A meta do Brasil para os Jogos Paralímpicos de Tóquio-2020 já foi definida pelo CPB. Os dirigentes projetam 60 a 75 medalhas, o que colocaria o país no top 10. Quatro anos depois, a ambição é maior: faturar de 70 a 90 medalhas, em Paris.

Para a Rio-2016, o objetivo era ficar entre os cinco melhores do mundo, mas o Brasil terminou apenas na oitava colocação (o número de ouros é o critério), uma abaixo de Londres-2012. Foram 72 medalhas, sendo 14 douradas, 29 de prata e 29 de bronze.

Mais realista, o CPB reconhece a dificuldade de competir contra potências, como China e Inglaterra, e rivais diretos, como Austrália, Alemanha e Holanda.

– O Brasil recebeu em 2009 a missão de organizar grandes delegações para Londres-2012 e Rio-2016. Agora, pensando no futuro, nosso objetivo é consolidar definitivamente o esporte paralímpico no Brasil e no mundo. Eu entendo que consolidar significa trabalhar de maneira irremediável, com o país entre as 10 potências. É claro que queremos o melhor resultado possível, mas o compromisso até 2024 é fazer com que a nação não saia mais do top 10.

QUEM É ELE

Nome
Mizael Conrado de Oliveira
Nascimento
​3 de novembro de 1977, em Santo André (SP)
História
Mizael nasceu cego devido a uma catarata congênita. Após quatro cirurgias, ainda bebê, começou a enxergar. Aos nove anos, teve um descolamento de retina, que iniciou a perda de sua visão. Ficou completamente cego aos 13 anos. No Instituto Padre Chico, escola especial para deficientes visuais, teve seu primeiro contato com o futebol de 5.
Currículo
Mizael Conrado foi campeão latino-americano (1994), tricampeão da Copa América (1997, 2001 e 2003), campeão mundial sub-25 (2002), bicampeão mundial (1998 e 2000) e bicampeão paralímpico (2004 e 2008), além de ter conquistado o título de melhor jogador do mundo, em 1998. Depois de se aposentar, formou-se em direito e foi vice-presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), antes de assumir a presidência da entidade.