David Freitas

David Freitas tentará o ouro na disputa por equipes do tênis de mesa no Parapan (Foto: Daniel Zappe/Exemplus/CPB)

Jonas Moura
25/08/2019
08:00
Enviado Especial a Lima (PER)*

O perfil de David Freitas, um dos veteranos da Seleção Brasileira de tênis de mesa nos Jogos Parapan-Americanos de Lima, está longe de transmitir autoritarismo. Mas o manso cearense de 41 anos, que compete na classe 3 e inicia hoje a disputa por equipes na capital peruana, aprendeu a se impor em diversas situações da vida.

Nascido em Fortaleza, o atleta é agente de trânsito e chefe do posto do Detran de Eusébio, no Ceará, há sete anos, funções que concilia com a carreira no alto rendimento. No órgão do governo, trabalha como mesário e opera o bafômetro em blitzes da Lei Seca. Ele diz já ter sofrido discriminação de motoristas por ser cadeirante.

– Sabemos que, quando se mete a mão no bolso, o ser humano é complicado. Já quiseram me menosprezar e tirar minha autoridade, mas sei me posicionar. Coloquei essas pessoas em seus lugares. São situações raras. Já ouvi: 'quem é você? Veja a sua situação? Você não tem isso ou aquilo". Eu respondo, com calma: "Olha, estou aqui para fazer com que a lei seja cumprida e você será punido, porque cometeu uma infração" – disse o mesa-tenista, ao LANCE!.

Em 2004, aos 26 anos, ele se submeteu a uma cirurgia para a extração de um tumor benigno na medula. Apesar de curado, imaginava que ficaria poucos dias sem andar, mas não recuperou os movimentos nos membros inferiores.

Após dois anos trancado em casa, apostou no esporte como meio para se reinserir na sociedade. Primeiro, jogou xadrez, incentivado pela família, e até venceu um torneio. Em uma edição da Paralimpíada Cearense, foi apresentado ao tênis de mesa. Apesar do receio inicial, sagrou-se vice-campeão do evento e viu que tinha potencial.

Em 2015, David idealizou e colocou em prática uma campanha de fiscalização de veículos que são estacionados em vagas para idosos e pessoas com deficiência. Ele mesmo ia para as ruas barrar quem cometia a infração.

O cearense chegou até a fazer um curso de humanização do SUS (Serviço Único de Saúde) para desenvolver maneiras de lidar com o público em situações de estresse. As lições foram valiosas.

– No Detran, nunca tive problemas, mas, na campanha, sofri muito. Foi uma das missões mais difíceis da minha vida, pois as pessoas, infelizmente, se acham no direito de desrespeitar o outro. Já ouvi: "tira a cadeira desse aleijado daí!", Ainda falta muita conscientização, mas consegui mobilizar muitas pessoas – contou David, que diz ter sido bem recebido no Detran:

– Meus colegas sempre foram solícitos e me ajudaram. Eu os mostrei que não é minha limitação que irá me diferenciar deles. Não sou superior nem inferior a ninguém. No início, alguns tiveram preocupação, mas nada que dificultasse minha atividade. Fico como mesário operando o bafômetro. Qualquer um, independentemente de andar ou não, pode desempenhar a função.

Uma situação que David conta ser recorrente é a de motoristas com alguma lesão, como um pé quebrado, afirmarem serem deficientes para poder utilizar as vagas especiais. Por mais que se sensibilize com a dificuldade de quem vive uma situação como essa, com o atletas não tem jeitinho.

– Uma vez, eu estava dentro do carro e pedi para um motorista tirar o dele da vaga reservada. Outro homem que estava na viatura disse: "mas o motorista é deficiente!". Eu perguntei: "Qual é a deficiência?". Ele estava com o pé engessado. Eu expliquei que isso não é deficiência. Então, ele respondeu: "Você quer saber mais do que eu?". Um policial logo avisou: "quem está falando com você é cadeirante". Ele obedeceu. Não tem como questionar (risos).

Medalhista de ouro no individual e por equipes em Toronto-2015, além de prata no individual e ouro por equipes em Guadalajara-2011, David ficou fora do pódio no individual. No último sábado, foi eliminado nas quartas de final pelo americano Jenson Van Emburgh, por 3 sets a 1.

O Brasil inicia a disputa por equipes do tênis de mesa neste domingo, às 12h (de Brasília), contra o Canadá, ao lado de Helder Ezequiel e Welder Knaf. 

BATE-BOLA
David Freitas, mesa-tenista, ao LANCE!

Você percebe avanços na conduta dos motoristas em relação às pessoas com deficiência?

A ferro e fogo, conseguimos atingir um público alto e sensibilizá-lo. Por incrível que pareça, em frente ao Detran, em menos de quinze dias eu já flagrei 60 veículos estacionados de forma irregular. Gente até mesmo do Detran. Se o desrespeito já acontecia em frente ao órgão de fiscalização de trânsito, imagina fora dali?

Como você reage às situações de desrespeito?
Eu administro da melhor maneira, porque sei que as pessoas não falam por mal, mas por ignorância. O público que atingimos muitas vezes tem um nível escolar baixo. É mais por brabeza, não por maldade.

Como você faz para conciliar a vida no esporte com as funções no Detran?
Recebi um cargo de confiança para chefiar o setor durante o período comercial e, à noite, desempenho a função do agente, como fiscalizar blitz. Mas esta é optativa. Vou porque gosto, me sinto útil e é um complemento da renda. Nos períodos de competições, eu sou liberado. Treino às segundas, quartas e sextas, e jogo nos finais de semana.

O que o esporte mais te ensinou?
Às vezes, as pessoas deixam que os outros as freiem e esquecem que somos protagonistas de nossas vidas. Eu aprendi isso.