Sérgio Batarelli

Sérgio Batarelli quer mudar a imagem negativa que o boxe deixou no passado no Brasil (Foto: Arquivo Pessoal)

Jonas Moura
17/02/2019
08:00
Rio de Janeiro (RJ)

Ex-campeão mundial de fullcontact e empresário de Esquiva Falcão e Robson Conceição, Sérgio Batarelli tem planos ambiciosos de recolocar o boxe na boca do povo brasileiro, como nos tempos de Maguila e Popó. A quinta edição do Boxing For You, a primeira no Brasil, no dia 31 de março, no Portobello Resort & Safári, em Mangaratiba (RJ), será um teste decisivo para as suas pretensões.

As cifras totais não são reveladas, mas o custo só dos atletas da casa chega a R$ 1,5 milhão, com direito a luxos, como passagens aéreas na classe executiva e convites. A Top Rank, maior promotora de lutas do mundo, é quem banca.

Além de Esquiva, prata em Londres-2012, e Robson, ouro na Rio-2016, a medalhista de bronze Adriana Araújo também está confirmada.

Em entrevista ao LANCE!, o CEO falou sobre o desafio, analisou o momento de Esquiva, que após enfrentar o argentino Jorge Miranda, no Rio, deve lutar pelo cinturão dos médios da Associação Mundial de Boxe (WBA, em inglês), e reforçou o desejo de atrair novos talentos.

Você estabeleceu uma meta nos últimos anos de fazer o boxe voltar a ter relevância no Brasil, impulsionado pelos bons resultados de nossos atletas. Como foi esse processo?
É um projeto antigo. Mas para você construir algo firme, precisa de uma fundação. Trabalho nisso desde que deixei de lado as promoções de UFC e kickboxing, onde minha carreira começou. Tracei um desafio de levantar o boxe no Brasil, com credibilidade. Fui para Las Vegas, onde desenvolvi um relacionamento com a Top Ranking há 10 anos, e aprendi o lado do business, pois o da luta eu já sabia. O business do boxe tem diferenças em relação ao business do UFC, no sentido desenvolver carreiras e negociar. Até que surgiu a chance de passar o Esquiva Falcão para o boxe profissional. Foi quando me dei conta que o cavalo estava passando selado. Era a chance de termos um ídolo no Brasil. Ele foi a grande locomotiva desse trem que colocamos no trilho e começa a andar.

Como surgiu a ideia de reunir medalhistas olímpicos em um evento como Boxing For You?
Graças à Top Rank, surgiu a ideia de colocar o Esquiva e o Robson Conceição no mesmo evento e testar o público, só para convidados. Lá, cabem 350 pessoas. Será o relançamento do Boxing For You. Eles queriam testar o evento com venda de ingresso, mas eu disse: “esquece”, pois já tinha reservado tudo. Não poderia mudar data e local. Então, eles resolveram que testarão a audiência na televisão. Quero fazer seis eventos até fevereiro de 2020. O segundo será em maio. A ideia é rodar o Brasil.

O que você pretende mostrar ao público para convencê-lo de que o boxe ainda está em alta?
Eu queria tentar mudar um pouco a imagem do boxe de antigamente. Querendo ou não, ele estava queimado, graças a promotores que fizeram muita coisa errada. Anunciavam um lutador e traziam outro, por exemplo. Isso deu um descrédito geral com os patrocinadores. Nossa ideia é fazer bem diferente, como se fosse um evento de Las Vegas, fechado, com produção nota 10. Vai custar bem caro. Seria mais barato fazer em um ginásio, em Salvador ou em Vitória, conseguir uma parceria com os governos e vender ingressos, mas a ideia não é essa. É dar o novo visual do boxe brasileiro, desenvolver talentos e não fazer um evento jogado no ar como tantos. Não quero avacalhar, com lutas em um ginásio sem iluminação e cimento duro.

Você teve prejuízos financeiros quando trouxe Vitor Belfort e Wanderlei Silva para lutarem em São Paulo, em 1998. O que tirou de lição da experiência?
Vivi minha vida inteira com desafios. Isso dá o tempero especial. Navegar em mar calmo não é comigo. Eu tomei uma rasteira atrás de outra no UFC, e não foi da organização. O acordo era para eu levar 20% do mercado brasileiro. Mas, no meio do caminho, tropecei em pedras e percebi que não adianta confiar nos outros. Fui estudar mais contratos, mesmo com advogados. A experiência no UFC me deu muitos ganhos. No Japão, fui vice-presidente mundial do K-1, de 1999 a 2004. Eu desenvolvi o MMA no Japão. Quando negociei com o UFC, sabia de negócios. E tomei ferro dos meus compatriotas brasileiros.

Sérgio Batarelli
Sérgio Batarelli e Esquiva Falcão (Foto: Divulgação)

O Esquiva vai lutar pelo título mundial. Quando haverá disputa de cinturão no Brasil?
A luta pelo cinturão não será aqui, mas torço para tudo dar certo no evento do dia 31 de março, com bom pico de audiência. A Top Rank me deu a palavra que, se Esquiva ganhar o título, e ele está pronto, pois trabalha como os melhores, a defesa será no Brasil, provavelmente ano que vem. É promessa.

De que forma pretende atrair mais boxeadores com o evento?
A ideia é descobrir os talentos e desenvolvê-los. Deixá-los na boca do gol e fazer parcerias com os Estados Unidos para levar os meninos. Não é algo simples, mas o Brasil é um celeiro de lutadores. O que falta é apoio. Tem muito boxeador que migrou para o MMA com o sonho de lutar no UFC e ganhar dinheiro, pois é o único que paga bem. Agora, tem o Bellator. Tenho olho clínico. Com eventos regulares, eles aparecerão. Quero dar condições para que se desenvolvam, sem criar uma carreira mentirosa e dar a falsa confiança de que eles, fisicamente e psicologicamente despreparados, irão para fora ser campeões.

Há críticas sobre o baixo nível dos oponentes dos brasileiros...
Dizem que eles estão pegando adversários mortos, mas não. Pegam quem tem de pegar. Só que eles estão batendo fácil. Então, é hora de impormos obstáculos que eles possam ultrapassar. É preciso cortar o sangramento no início e corrigir o percurso, até ficarem maduros e prontos. É burrice arriscar uma luta dura que não vale título!

Sérgio Batarelli
Sérgio Batarelli com Manny Pacquiao (Foto: Divulgação)

O boxe amador está em baixa, devido a escândalos de corrupção em entidades como a Associação Internacional de Boxe (Aiba), e vive o risco de ficar fora dos Jogos de Tóquio. Como vê essa situação, já que a carreira olímpica é tão importante para levar nossos brasileiros ao profissional?
A Aiba é uma entidade igual a Fifa, e o COI pediu uma limpeza, mas entrou um cara meio sombrio do Cazaquistão. Era corrupção pura. A luta do Esquiva, na final de Londres-2012, foi roubada. O Robson ganhou do (Vasyl) Lomachenko (ucraniano, em 2011), levantaram a mão dele, ele dormiu campeão, e mudaram o resultado no tapetão. O boxe amador está sem credibilidade. O caminho é o profissional, que te dá liberdade. As pessoas ficam tristes que tem campeão aqui e ali, e não se encontram, mas nas quatro grandes organizações que valem dinheiro para televisão, que são WBC, WBA WBO e IBF, não há manipulação de resultado. Isso é business. Quanto tempo não demorou para que acontecesse a luta Mayweather x Pacquiao? E, quando saiu, foi o evento esportivo que mais faturou. Isso é para os lutadores serem valorizados. Eu seguro meu campeão aqui e o seu aí, e quando as ações subirem a gente vende. Isso faz parte do business.

QUEM É ELE

Nome
Sérgio Batarelli
Nascimento
24/2/1960 - São Paulo (SP)
Carreira
Começou no Kung Fu estilo Taisan (estilo do Leão). Em 1987, foi campeão Sul-Americano de fullcontact e, em 1995, foi campeão mundial, na categoria superpesado. Também foi campeão mundial pela Full Contact Fighters Karate Association (SFKA), campeão brasileiro, sul-americano e intercontinental. Hoje, é promotor.