Rayssa Leal

Rayssa Leal, uma das medalhistas brasileiras nos Jogos de Tóquio (FOTO: Wander Roberto/COB)

Luiz Fernando Coelho*
09/10/2021
18:08
São Paulo (SP)

Encerrados os Jogos Olímpicos, uma enxurrada de matérias e declarações são veiculadas em redes sociais, mídia impressa e mídia eletrônica. A grande maioria são arroubos, que são apelidados de desafios para um futuro próximo.
Sem qualquer planejamento ou viabilidade de serem executados. É o pensamento de vira-lata; é jogar para a arquibancada; e, por que não, um meio de se eximir da responsabilidade e dizer: Eu fiz a minha parte!

A próxima etapa é atacar a falta de apoio do governo, dos incentivos e dos patrocínios da iniciativa privada. Claro que as questões econômico-financeiras são fundamentais para este desenvolvimento. Mas aqui há um ponto para reflexão: será que, realmente, os investimentos e os incentivos são tão pequenos assim? Será que podemos pensar e planejar de acordo com o que temos e não com o que queremos ter? Será que não deveríamos pensar primeiro em termos o esporte como uma ferramenta de desenvolvimento social e depois, em sermos uma potência olímpica?

Por outro lado, as confederações e federações do esporte olímpico são as instituições que deveriam ser os guardiões de ações efetivas para o desenvolvimento do esporte. Mas, percebam que não é isso o que acontece na realidade. Os discursos nada têm a ver com a prática.

Há alguns anos a Confederação de Vela (CBVM) foi envolvida numa enorme confusão e dívidas. O que aconteceu? Nada. Fechou e foi criada uma nova.
Recentemente, a canoagem. Temos alguns atletas de altíssimo nível, neste esporte, um medalhista de ouro em Tóquio. E qual a solução agora?

Temos menos de três anos para Paris 2024. Será que ainda há espaço para questões como: falência, disputas políticas, perpetuação no poder de alguns, gestão inadequada? Conheci há uns anos uma confederação na qual, do presidente à barraquinha de hot dog, fora do ambiente de disputa, todas as atividades eram geridas por uma família e todos os seus agregados.

A mídia, por sua vez, faz suas opções. Aquelas que garantem maior audiência. O Brasil tinha acabado de conquistar sua primeira medalha no skate e qual a matéria do dia seguinte? A falta de um like em um post, de um terceiro, do medalhista brasileiro, o que revelava uma possível briga entre os atletas.

Dia 25 de setembro jogaram Corinthians e Palmeiras. Ao ser entrevistado, na véspera, um atleta do Palmeiras declarou que o jogo era muito importante; seria contra o “nosso maior inimigo”. Roque Junior, que estava comentando, reagiu de forma brilhante, contestando o atleta entrevistado sobre a utilização da palavra “inimigo”, quando o correto seria adversário. Afinal, sem adversários não há vencedores.

Em 29/9, depois do Palmeiras conquistar a vaga na final da Libertadores, um dos focos é a briga do técnico com o vizinho. É impressionante como, salvo raras exceções, os profissionais, de todos os níveis do esporte esquecem que, denegrir a imagem de um esporte, publicamente, só desvaloriza a conquista, e a sua própria área de trabalho.

Existe, ainda, o lado do atleta. Mais um ingrediente do salve-se quem puder.
Faz sentido, por exemplo, atletas que têm uma baita renda e já são conhecidos mundialmente, alguns ganhando em moeda estrangeira, receberem bolsa atleta ou algo similar? Será que este incentivo não deveria ter outro destino? Por exemplo, aqueles atletas, que hoje são as nossas promessas para Los Angeles 2028?

Posso concordar que, talvez, não seja tão simples assim. Mas não posso deixar de chamar a atenção para que se faça uma reflexão mais profunda sobre o tema. Dá para perceber que para transformar-se em potência olímpica, vamos precisar caminhar muito.

Enquanto tratarmos com foco total as medalhas, não chegaremos muito mais longe, do que chegamos. Como sempre, irá surgir um talento aqui, outro ali, que fará a nossa alegria, quando conquistar uma medalha ou um campeonato internacional.

O primeiro passo é trazer de volta a educação física para os currículos escolares. Dar formação a este professor, para que a aula não seja, sempre, uma “pelada” organizada.

Na Lei de incentivo ao esporte deveriam ser descartados todos os projetos de construção de novos equipamentos esportivos; e deveriam ser aprovados imediatamente todos aqueles que envolvem a recuperação dos já existentes e a revitalização deles. Isto é colocar a renúncia fiscal, a favor do esporte brasileiro.

As questões relativas ao compliance das confederações, federações, clubes etc., deveriam ser levadas em consideração, cada vez que uma instituição estiver avaliando um patrocínio. Certamente, minimizaríamos as surpresas desagradáveis.

A mídia, tão importante neste processo, precisa transferir seu foco para algo mais construtivo. Já damos muito mais importância ao erro, do que ao acerto em nossas vidas; mais criticamos do que celebramos. Já passou a hora de mudar este comportamento.

Aos atletas, futuros ídolos, preparem-se. Integralmente. A partir de um certo ponto da carreira, seus vencimentos, certamente não são somente para praticarem o esporte. Mas, também, para serem modelo para a sociedade e, principalmente, para quem está se formando.

Fazer com que o discurso do esporte seja compatível com o do patrocinador, que por sua vez deve ter a perspectiva de que, patrocinar, está longe de ser uma mídia barata, com retorno fantástico; trazer para o foco as realizações, as jornadas, e, não somente, os problemas, sem ser chapa branca, claro, é dever de todos, mas principalmente da mídia, que deveria lembrar que sem eventos esportivos, a editoria desaparecerá.

Concluindo: para que o Brasil se torne uma potência olímpica, o primeiro passo é a educação, a formação, a inclusão de todos. É fazer com que todos os atores atuem em uma mesma direção. Sem que isso ocorra, o Saci, o Boto e o Boitatá ficarão amargando esta incomoda companhia.

*Luiz Fernando Coelho é Jornalista. Tem MBA em Marketing pela PUC-RJ. Atuou em grandes empresas na área de marketing. Sua última participação corporativa foi no Bradesco, tendo atuação importante no marketing do esporte (Projeto BCN/FINASA OSASCO, OLÍMPIADAS RIO 2016). Nos Jogos do Rio, criou a CASA DO VOLEI, para a Federação Internacional de Vôlei. É voluntário da SOU DO ESPORTE na área de planejamento de marketing.