Montagem

'Sócrates tinha gravado um disco mais ou menos na época na qual eu fiz 'Vicente'. Fiz o convite e ele aceitou. A família do Vicente é muito grata a mim pela música', disse Renato Teixeira (Divulgação; Domicio Pinheiro/AE/Arquivo Lance!)

Vinícius Faustini
20/05/2020
22:07
São Paulo (SP)

Um dos nomes históricos da música brasileira, Renato Teixeira abriu espaço em grande estilo para o futebol no seu repertório. O cantor e compositor, que completa 75 anos nesta quarta-feira, lançou em 1981 uma canção em homenagem ao então presidente do Corinthians, Vicente Matheus, na qual fez um curioso dueto com Sócrates, o eterno camisa 8. Ao LANCE!, o autor de músicas como "Romaria", "Tocando em Frente", "Frete" e "Amizade Sincera" contou como teve a ideia de compor "Vicente".

- Embora eu não seja corintiano, o Vicente (Matheus) é um sujeito com uma história muito bonita. Um espanhol que veio para cá, teve uma infância pobre e depois ficou rico devido ao seu trabalho. E além disto, ele tinha aquelas expressões engraçadas, era muito querido pela torcida do Corinthians, uma figura muito simpática - afirmou.

O cantor contou como surgiu a oportunidade de convidar o meia Sócrates para fazer a homenagem a Vicente Matheus.

- Eu fiz esta música quando estava na (gravadora) RCA. O Sócrates tinha gravado mais ou menos naquela época um disco (só cantando músicas caipiras) por lá e eu decidi chamá-lo. Ele aceitou na hora. O engraçado é que ele tinha acabado de renovar com o Corinthians e contou para mim: "cara, perdi dez anos nessa negociação. O Vicente é muito difícil" (risos) - e depois detalhou:

- Só que, em um programa no qual participamos juntos muitos anos, o Sócrates não titubeou ao perguntarem qual foi o melhor dirigente com o qual conviveu: "Vicente Matheus" - completou.

A gravação rendeu até um "pedido" de Renato Teixeira: na reta final do duelo, ele chama o "Doutor" para jogar no Taubaté, clube que o cantor adotou como um de seus times de coração.

- Aquele diálogo foi improvisado, quis fazer uma brincadeira. Lembro que na época do dueto, o Sócrates estava machucado, depois de um jogo pela Seleção Paulista com a Seleção Carioca. Ele virou para mim e falou: "peguei a bola, fui na direção do gol, aí chutei uma parede". Olhei para ele: "Mas que parede? Fora do estádio?". Ele respondeu: "Não, o (zagueiro) Edinho" (risos) - recordou.  

O artista ainda destacou que "Vicente" rendeu uma grande alegria ao "clã" dos Matheus.

- Fiquei muito amigo não só dele, mas também da Marlene (Matheus, que posteriormente também foi dirigente do Corinthians), esposa dele. Fui à casa do Vicente, no Tatuapé, conheci a família dele toda. Todos ficaram tão gratos que me trataram com uma reverência quando fui almoçar lá - disse.

Porém, as histórias com o ex-mandatário do Timão não ficaram restritas a uma visita. Renato Teixeira testemunhou um dos momentos folclóricos que ficaram associados a Vicente Matheus. 

- Estávamos entrando no SBT para fazer um programa de auditório quando uma pessoa pediu: "seu Vicente, o senhor dá um autógrafo para minha filha?". Ele aceitou e perguntou: "qual é o nome da sua filha?". Logo depois que o sujeito respondeu Cecília, o Vicente olhou para a Marlene e perguntou: "Cecília se escreve com C ou com dois "S"?  (risos). Eu pude comprovar uma história das que contavam dele - e detalhou um "comentário" bem-humorado feito pela esposa de Vicente Matheus:

- Ela me disse: "sabe essas histórias que contam? É tudo verdade!" (risos) - completou.

O compositor ainda recordou um "conselho" que recebeu do homenageado em outro momento.

- Ele sabia do meu carinho pelo Taubaté e elogiava muito do presidente do clube na época, Joaquim de Moraes Filho. Dizia que eles "jogavam bem no tapetão". Aí, o Vicente virou para mim e disse: "você nunca se meta em direção de futebol, é prejuízo certo" - afirmou.

Ao falar do futebol atual, o torcedor do Santos Renato Teixeira destaca o que chamou sua atenção no Peixe neste início de temporada.

- O Soteldo é muito bom, tem o uruguaio, Carlos Sánchez, que joga bem. E é curioso que o Santos está sempre revelando jogadores bons. É a magia que a gente tem. Fora os esquadrões que formamos - disse.

E, mesmo em meio aos desafios da Série A2, ele tenta manter o otimismo com o acesso do Taubaté.

- A ligação que tenho com o Taubaté é forte. O campo era do lado da minha casa. Acabei virando quase do clube de tanto que eu ia ao jogo, fui homenageado... O time é centenário, tem um bom estádio, mas tem muitos problemas para decolar. A gente tá numa época de clube-empresa... Fico feliz que o Taubaté tenha melhorado e esteja brigando pelo acesso. Tomara que dê certo... - disse. 

O aniversariante Renato Teixeira elege um craque com quem gosta de bater uma bolinha.

- Um dos melhores jogadores dos quais sou parceiro é Raimundo Fagner - brinca, e depois revela:

- Nunca deu certo por causa da distância entre a gente. Mas ele me manda os lances pelo WhatsApp, escrevemos alguma coisa juntos... Agora, na pelada, meu apelido é Sócrates - completou, garantindo que mantém sua habilidade afinada aos 75 anos.