Montagem - Falcão e Mário Quintana

Falcão jogava na Roma quando Mario Quintana foi morar no hotel de sua propriedade (Fotos: Divulgação)

Vinícius Faustini
05/05/2020
18:07
Rio de Janeiro (RJ)

A trajetória de Paulo Roberto Falcão não ficou marcada apenas por fazer poesia com a bola nos pés. Na década de 1980, quando já tinha sido alçado a "Rei de Roma", o então meio-campista teve um encontro cercado de lirismo: Mario Quintana hospedou-se em um hotel que era de sua propriedade, em Porto Alegre. Morto em 5 de maio de 1994, aos 87 anos, Quintana, que era poeta, tradutor e jornalista nascido em Alegrete (RS), deixou para um dos craque do futebol brasileiro grandes lembranças.

- Eu estava em Roma quando a sobrinha do Mario falou com meu irmão que ele tinha deixado outro hotel, e fizemos questão que ele ficasse hospedado conosco. Um tempo depois, eu vim para o Brasil e coincidiu de ele estar no hospital, após ter se submetido a uma cirurgia na vista. Fui visitá-lo e, ali, pude ver a humildade impressionante que o Mario tinha - recorda Falcão, ao LANCE!.

O ex-meia dimensionou o quanto foi marcante o encontro com Quintana. Segundo ele, o futebol não entrou em pauta.

- Diante de uma pessoa admirável como ele, você escuta mais do que fala, né?! E ele sempre humilde, fazendo piadas sobre a cirurgia. Mario é um poeta muito intuitivo, escreve com naturalidade sobre a vida - disse.

Falcão detalhou alguns dos versos de Quintana que mais ficaram marcados em sua memória.

- Tem uma frase dele que acho belíssima: "A amizade é uma espécie de amor que nunca morre". Agora, uma divertida é em relação aos chatos. "Há duas espécies de chatos: os chatos propriamente ditos e... os amigos, que são nossos chatos prediletos" (risos). A outra é aquela "Quando alguém pergunta ao autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro" (risos). É tudo de uma simplicidade impressionante! - afirmou.

Falcão endossa a crítica à atitude da Academia Brasileira de Letras (ABL) em relação a Mario Quintana.

- É de se lamentar que ele nunca tenha conseguido uma cadeira da Academia Brasileira de Letras. Com uma obra tão bonita, tão vasta, com a facilidade que tinha para escrever seus versos, foi uma grande injustiça - disse.

Mario Quintana se candidatou por três vezes a uma cadeira na ABL. Entretanto, não conseguiu em nenhuma delas alcançar os 20 votos necessários para se eleger. Ao ser convidado para uma quarta candidatura, o poeta recusou. Logo depois, lançou o "Poeminha Do Contra", que tem os versos:

"Todos esses que aí estão 
Atravancando meu caminho
Eles passarão...
E eu passarinho".

Aos olhos de Paulo Roberto Falcão, a "injustiça" com Quintana foi parecida com a que ocorreu a com um ex-treinador do meia no Inter.

- O Rubens Minelli era um grande treinador, e conduziu o Internacional aos títulos do Brasileiro de 1975 e 1976. Depois, ele foi para o São Paulo e ganhou seu tricampeonato brasileiro. Nada mais natural que ele treinasse a Seleção Brasileira na Copa de 1978. Não foi o que aconteceu. Injustiça da Seleção como o Minelli, e da Academia com o Mario - declarou.    

O ex-volante detalhou em qual setor acredita que Mario Quintana jogaria se trocasse as letras pela bola. 

- Mario escrevia de maneira intuitiva. Da mesma forma que há jogadores que têm capacidade de pensar a partida, adivinhar para onde irá a jogada, ele foi com as palavras. Acredito que atuaria no meio de campo, não como marcador, mas para distribuir as jogadas, tentando encontrar o caminho do gol - acredita.

Em meio à pandemia do novo coronavírus, na qual grandes jogos são reapresentados, outros versos de Mario Quintana cabem perfeitamente na forma como a memória dos esquadrões do futebol nacional não pode ser deixada de lado:  "Se me esqueceres, só uma coisa, esquece-me bem devagarinho".