Mário Bittencourt - Fluminense

Mário Bittencourt durante entrevista coletiva no CT Carlos Castilho (Foto: LUCAS MERÇON / FLUMINENSE F.C.)

Luiza Sá
07/08/2020
15:46
Rio de Janeiro (RJ)

Às vésperas da estreia no Campeonato Brasileiro, o presidente Mário Bittencourt voltou a conceder uma coletiva após mais de quatro meses. Em quase três horas de entrevista, o dirigente abordou diversos assuntos relacionados ao Fluminense. Os principais deles foram a venda do lateral-direito Gilberto e uma possível saída do jovem atacante Marcos Paulo. Com relação ao primeiro, o mandatário tricolor admitiu que a proposta do Benfica (POR) era irrecusável e afirmou não ter ainda negociações em curso para a contratação de um substituto.

- Não costumamos falar publicamente sobre isso. Muitos nomes são oferecidos e outros já temos monitorados. Não há negociação em curso para substituir o Gilberto. Alguns jogadores foram oferecidos e outros estamos analisando. Sobre possibilidade de vinda, tem que se encaixar no orçamento. Os nomes que vocês ouvem as pessoas oferecem e os próprios empresários dizem que estão negociando ou que procuramos. Em breve, encontrando o nome que agrade ou encaixe no projeto, vamos informar - disse, antes de elogiar o jogador.

- Estávamos encaminhando a renovação com ele quando chegou a proposta. Ele recebeu sondagens de clubes do Brasil e eu disse que para o clube brasileiro eu não faria. Gosto muito do futebol dele e da pessoa. É um jogador que contribui muito, é espetacular. Eu não iria perdê-lo para o Brasil. Já tínhamos definido contrato, valores, e no mesmo dia proposta chegou. O Gilberto merece progredir na carreira. A proposta foi espetacular para ele e para nós. Estamos fechando a operação por 1,5 milhão de euros. Teve proposta e contraproposta apenas por questão de parcelamento do pagamento - completou.

RENOVAÇÃO E FUTURO DE MARCOS PAULO

Outro tema bastante abordado foi a situação de Marcos Paulo, visto hoje como maior ativo do clube no mercado e que pode dar um alívio nas finanças ao final do ano. Com contrato até o meio de 2021, Mário Bittencourt garantiu que o atacante vai renovar caso não seja negociado nesta janela. Isso porque, caso ele não faça um novo vínculo, poderá assinar um pré-contrato já em janeiro e sair de graça.

- Não temos hoje como sobreviver se não vendemos os jogadores jovens. Não todos, mas aqueles que são a bola da vez. O Marcos Paulo tende a sair na janela porque ele subiu, performou, está se transformando em um jogador com imagem excelente e tem valor de venda. Não se vende um carro antigo pelo preço que vende uma máquina nova. Vamos continuar vendendo jogadores. Tentar fazer a melhor venda possível. Muita gente considerou a venda do Pedro para a Fiorentina (ITA) ruim. O mercado está diferente agora, estagnado, é raro ter proposta. Certamente o valor que pode vir pelo Marcos Paulo pode ser menor do que o esperávamos antes da pandemia - afirmou.

- Temos uma relação muito boa com o jogador e o estafe. Ele tem uma gratidão enorme ao Fluminense e sempre reforça nos nossos encontros que jamais sairá daqui sem que o Flu seja recompensado. Dependo dele renovar o contrato. Ele pode não querer, outros jogadores já fizeram isso para sair de graça, isso acontece. Mas estou fazendo uma defesa dele e dos empresários que dizem que se não fizermos a venda ele irá renovar. O Marcos Paulo ama o Fluminense, tem gratidão e tem certeza que se tornou esse jogador por causa do clube. Já estamos trabalhando  para o caso de não haver a venda agora - completou.

Uma das dúvidas levantadas foi com relação ao percentual que o Fluminense tem direito em uma venda de Marcos Paulo. Com Gilberto, por exemplo, o Portal da Transparência dizia que o Flu tinha 100%, mas na realidade o clube explicou que adquiriu apenas 50%.

- Quando cheguei como presidente a primeira coisa que pedi foi a lista de percentual dos jogadores. Percebemos que tínhamos 100% do Marcos Paulo e realmente temos, mas existem contratos anteriores, e são legítimos, de bônus para o próprio atleta, exclusividade de comissionamento de venda e das pessoas que descobriram. É algo que vem me afligindo. Se acontecer uma negociação, temos direito econômico, mas na receita líquida vamos ter que cumprir contratos. Vamos abrir uma nova coluna no Portal da Transparência para clarear a cabeça do torcedor e de vocês. Vamos abrir de todos os jogadores, mas a única coisa que não vamos colocar é o nome de quem tem os direitos, porque tem cláusula de sigilo no contrato - explicou.

VEJA OUTRAS RESPOSTAS DO PRESIDENTE:

CONTRATAÇÕES

No orçamento aprovamos gastar x milhões de reais. Hoje estamos bem abaixo. Isso significa que agora posso fazer mais duas ou três contratações. Estou abaixo porque alguns jogadores saíram, como o Henrique, o Gilberto, com isso vai abrindo fluxo. Deixamos no orçamento uma projeção para se estivermos mal no campeonato poder fazer um investimento de emergência de quatro ou cinco jogadores para não brigar contra o rebaixamento. Se eu cair, perco o faturamento do contrato de televisão. Existe uma gordura deixada porque o futebol é a coisa mais importante. No orçamento comprovamos que gastamos 90% de todo dinheiro do Fluminense com o futebol.

RENOVAÇÕES E PROJEÇÃO

Um clube com dificuldade financeira tem que manter a base. Para começar do furo 5 ao invés do 1. Por isso estou tentando renovar os contratos. Depois que o Fluminense perdeu o investimento da Unimed, jamais ficou na parte de cima. O que estou tentando fazer de diferente dos anos anteriores é tentar manter a base e fortalecer. Porque não temos dinheiro. Nosso time hoje custa 600 mil dólares por mês. O Gilberto é um jogador de altíssimo nível e mantivemos ele. Fui criticado quando fizemos a compra. Por isso falo em pré-Libertadores nesse Brasileiro. Acredito que o Fluminense possa ir mais longe, nosso time é bom, mas em um campeonato mais longo temos dificuldade de reposição e ter 30 jogadores. Não estou falando de qualidade, mas de maturidade. Temos uma projeção de aumento de orçamento da folha do futebol para o ano que vem. Queremos pagar dívida, abrir fluxo e investir no futebol. Daqui um tempo vamos voltar a ter um time para disputar o topo.

LARANJEIRAS

Isso se tornou um tema político. Todas as vezes que tem um revés ou insatisfação isso é usado para tirar atenção da gestão. Aí se utiliza de veículos ligados ao clube para mandar maquete e foto. Em nenhum momento eu disse que faria um novo estádio em Laranjeiras. Eu disse apenas que iria revitalizar o patrimônio. Não quer dizer que vamos fazer sem embasamento técnico. É uma discussão embrionária e teórica sobre a possibilidade de voltar a jogar lá. Não significa que sairíamos do Maracanã. Poderia ser uma alternativa para alguns jogos nossos. Existe uma corrente que defende a revitalização do estádio como está. Os jogos deficitários tem que acabar, não tem que construir o estádio para essas partidas. Um clube que não paga imposto, tem dificuldade para pagar salários e está falando em construir um novo equipamento para jogos deficitários. Recebemos um grupo de pessoas que diz ter um projeto para 12 mil pessoas. O Fluminense apoia o estudo. Para que eles consigam receita para começar e saber se é viável. Nossa equipe que cuida de arenas e finanças não vê como um estádio de 12 ou 14 mil pessoas consiga se pagar naquele lugar. Existe uma discussão interna. Após a pandemia vamos fazer uma reunião com o grupo do projeto e nossa equipe. Ninguém que faz parte do grupo geriu arenas, vou colocar nossa equipe de especialistas para mostrar qual o entendimento de quem trabalha com isso. Nenhum clube grande que desenvolve um projeto de sócio caminha para ter uma arena de menos de 40 mil lugares. Não é que sou contra, sou realista. Temos que estudar. Se revitalizamos laranjeiras para 15, 8 ou 5 teremos resultado positivo? Virou uma obsessão. No momento que o clube passa de dificuldade financeira, o que ganhou os títulos foi o time de futebol. Estou trabalhando para que o clube volte a ter um bom time. A discussão é que se criou uma obsessão por algo que não há dado técnico comprovado de que isso mudará a vida do Fluminense. O que definimos na gestão é revitalizar para ter jogos da base e do futebol feminino. Vamos jogar o sub-23 lá. Estamos contratando uma equipe para fazer uma avaliação do estádio que está lá. Do jeito que está hoje não dá, precisamos ter no mínimo oito entradas e saídas, os vestiários não comportam os times, foram plantados 11 tipos de grama diferentes. Se eu tiver alguém que quer gastar 60 milhões no estádio que talvez não tenha retorno, prefiro que pague a dívida para eu montar um grande time de futebol. Não vejo nosso adversário dizendo que quer largar o Maracanã para jogar em um estádio de 12 mil pessoas. Amamos Laranjeiras, é nosso centro histórico, prometo que vamos começar a revitalizar o estádio e a sede ainda em 2020. Mas se vamos ter um estádio viável para mais gente não sabemos ainda.

CELSO BARROS

Ele segue como vice-presidente geral do clube. Não está mais no comando do futebol, mas nos falamos cordialmente. Queria fazer um esclarecimento sobre o lançamento do livro na FluFest, pois disseram que não convidamos o Celso Barros e o Conca. O Conca foi convidado e não quis vir, falou que não podia. Foi pedido um vídeo para ele, e depois ele disse que não sabia que era para o evento. Seguimos em uma pandemia, fizemos a opção por colocar dois atletas que jogam no clube e estavam fazendo testes, O Tartá já mora no Rio de Janeiro. O lançamento do livro faz parte das comemorações, o tema da FluFest não era o tricampeonato, era o Fluminense. A inverdade de que excluímos está no livro. A segunda página é escrita por ele. Eu só escrevi como presidente, pois não participei do título de 2010. O Celso foi convidado pelo autor para escrever. Um belíssimo texto. Ele não recebeu antes daquele dia pois era o lançamento, ninguém recebeu. Por uma questão de saúde ele não foi convidado a participar, estamos em uma pandemia, ele tem quase 70 anos e no ano passado teve um problema de saúde no pulmão.

META DE SÓCIOS

Tínhamos uma meta no orçamento maior do que temos hoje. Quando preparamos o orçamento entre janeiro e fevereiro não imaginamos a pandemia. Fizemos uma meta prevendo os jogos normalmente. Consideramos que progredimos bastante com o crescimento. Acho que vamos ter que trabalhar com outra realidade. O cenário ainda tem muita neblina. O Brasileiro termina em fevereiro. Não sabemos se terá vacina e público até o final. É muita incerteza, não sabemos como vai ficar o mercado, o contrato da televisão. Conseguimos sair muito melhor da paralisação do que imaginávamos. Mas é uma resposta ainda lacônica porque não dá para fazer projeção. Meu sonho de consumo é 60 mil sócios. é um número do tamanho do Fluminense.