Luiz Gomes: 'O mundo estranho em que vive Domènec Torrent'
Entrevista após humilhação no Equador mostra que treinador ainda não conhece o Fla

A entrevista do treinador Domènec Torrent, após a humilhação a que o Flamengo foi submetido na altitude equatoriana é reveladora: o catalão ainda não entendeu o mundo em que está vivendo. Não, ao final, não são apena três pontos que o Independiente ganhou e o Rubro-Negro perdeu, como foi realçado por ele. O que aconteceu foi muito mais do que isso, foi um dos maiores vexames pelo qual o Flamengo passou em sua história centenária, foi uma prova inequívoca da desconstrução de uma época e não o início de outra, mas uma volta à estaca zero. Dome disse "Somos Flamengo". Mas será que ele sabe de fato o que é ser Flamengo? O Flamengo não pode passar por isso.
Há conclusões terríveis que o massacre de quinta-feira nos permite tirar. A mais dramática delas é que os jogadores – o melhor e mais caro elenco do futebol brasileiro – não entendeu nada do que o treinador quer que eles façam dentro do campo.
A marcação avançada, uma das armas mais eficazes dos tempos de Jorge Jesus – sim, essa comparação é inevitável, por mais que se queira fugir dela -, tornou-se uma completa inutilidade. Mas como é que antes funcionava e agora não funcionava mais? A resposta é simples: antes, havia mobilidade, Gabigol, Bruno Henrique, Everton Ribeiro e Arrascaeta, trocavam de posição nos 90 minutos do jogo – o que Dome abomina - mas principalmente estavam sempre juntos, um perto do outro e em cima do adversário que tinha a bola, impedindo a armação das jogadas. Agora, distantes, como se tivessem levado para o campo as regras do isolamento social, deixam buracos, verdadeiras crateras por onde os adversários avançam sem muitos obstáculos em contra-ataques mortais. Quantos dos cinco gols do Independiente surgiram dessa forma?
A quantidade de gols que o Flamengo tomou desde a volta da paralisação mostra, por outro lado, o desajuste da armação defensiva. A marcação por zona, que Dome quer fazer os zagueiros entenderem está longe de funcionar. Cruzamentos na área tornam-se um Deus nos acuda, um terreno fértil para que cabeceadores apenas medianos subam desmarcados para concluir para as redes. Contem quantos foram os gols tomados dessa forma nos jogos do Rubro-Negro no Brasileirão. E como se não bastasse, Gérson e Arão, que jogavam por música na temporada passada, verdadeiros caçadores de bola a impedir a armação dos rivais, hoje procuram um lugar em campo, erram mais do que acertam facilitando ainda mais a penetração dos adversários.
São apenas dois dos exemplos mais gritantes, há outros na mesma linha.
Mas, se os jogadores não entendem o jeito de jogar que o técnico quer, o técnico também não entende o papel dos jogadores que têm em mãos. Pelo menos é o que parece, Dome tem sido desastroso nas mexidas que faz no time, seja ao fazer opções erradas na troca de jogadores no rodízio – como aconteceu na derrota para o Ceará – seja nas substituições ao longo das partidas que tornam o time um arremedo do que pode ser. Convenhamos, Pedro, Bruno Henrique e Gabigol juntos numa noite em que o Flamengo perdeu o meio-campo desde que a bola começou a rolar, sem nenhum poder de armação, é uma piada. O trio poderia estar jogando até agora que a bola não chegaria a eles. E o placar em compensação, poderia estar lá pelos 7 a 0.
Essa conversa está chata. É óbvio que Domènec Torrent tem o direito de impor o seu estilo. E que precisa de tempo, como todo treinador, para disseminar suas propostas de jogo, conhecer e convencer o elenco, mas quando insiste naquilo que não tem dado certo, tentando trocar o pneu com o carro andando, transforma uma Ferrari num fusquinha e tem de se desviar, a cada partida, para não se esborrachar no poste que surge à frente. A diretoria do Flamengo sabia quem estava contratando, sabia das diferenças entre o catalão e o português e fez a sua aposta. Deve respeito a Domènec. Mas deve satisfação à Nação Rubro-Negra. Uma equação que terá de resolver. E, para qual, o jogo contra o , na terça, pode ser um fator decisivo.

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