Matheus Dantas
02/12/2021
07:00
Rio de Janeiro (RJ)

Walter Monteiro é o candidato à presidência do Flamengo pela Chapa Ouro - Flamengo Maior. Em entrevista exclusiva ao LANCE!, o advogado, que já foi membro das comissões de finanças do Conselho Deliberativo e do Conselho de Administração do clube, explicou como pretende acabar com o amadorismo na gestão do departamento de futebol, assim como de outras pastas, e também vê a necessidade de reaproximar o clube de sua matriz popular. Assista acima!

Walter Monteiro também apontou caminhos para o Flamengo ter uma política de ingressos mais inclusiva, não vê com otimismo a viabilidade da construção de um estádio próprio, devido à concorrência com o Maracanã, tampouco a criação e sucesso de uma Liga sem a profissionalização do contexto do futebol brasileiro, começando pelos clubes, e mais. Leia, na íntegra, a entrevista abaixo!

O LANCE! também publicou as entrevistas com os candidatos Marco Aurélio Asseff (Chapa Azul - Sempre Flamengo), Ricardo Hinrichsen (Branca - Flamengo Sem Fronteiras) e Walter Monteiro (Ouro - Flamengo Maior).  Rodolfo Landim, atual mandatário, (Chapa Roxa - UniFla) preferiu não atender a reportagem. O pleito presidencial será realizado no sábado, na Sede da Gávea, das 8h às 21h.

Walter Monteiro - Eleição Flamengo
(Arte: LANCE!)

L!: Começando por uma questão mais particular, por que Walter Monteiro é candidato à presidência do Flamengo?

W.M.: Porque percebi a necessidade de fazer um contraponto a uma ideologia que está se disseminando no Flamengo, que o Flamengo é um clube de poucos, decididos por poucos e com projetos para poucos. Nós acreditamos que o Flamengo pode e deve ser maior.

Embora a gestão do Landim seja muito bem sucedida do ponto de vista desportivo, nos últimos três anos, houve profundas regressões em outros aspectos, nos aspectos do profissionalismo, da gestão, e, fundamentalmente, nos aspectos que performam aquilo que consideramos que é a alma do Flamengo. A sua matriz popular, a sua identificação com sua imensa torcida. Tudo isso estava indo embora.

Para que tenhamos um contraponto a isso, resolvemos lançar uma candidatura de oposição, uma candidatura alternativa, e tive a honra de ser escolhido pelas pessoas que me apoiam para liderar essa missão. Por isso sou candidato.

'Não acredito em um departamento de futebol cuja governança esteja entregue a amadores. E mais ainda, no caso do Flamengo, não está entregue só a amadores, mas a um conselho de palpiteiros formado por membros de grupos políticos'

L!: Quais os projetos para o departamento de futebol?

W.M.:
O maior êxito do departamento de futebol na gestão do Landim, não só do Landim, neste século, vamos dizer assim, foi justamente o período no qual o departamento de futebol foi inteiramente profissionalizado, que foi quando esteve entregue aos cuidados de Jorge Jesus. Ele veio, trouxe sua equipe, implantou métodos revolucionários de gestão do departamento, fez com que todas as pessoas que dão palpites, que gravitam no entorno do departamento, palpiteiros, conselheiros, amadores em geral, fossem todos afastados e ele, com a cultura do profissionalismo, fez o Flamengo ser vitorioso. Acho que esse é um espelho do que precisamos ter daqui para a frente.

Não acredito em um departamento de futebol cuja governança esteja entregue a amadores. E mais ainda, no caso do Flamengo, não está entregue só a amadores, mas a um conselho de palpiteiros formado por membros de grupos políticos do clube. Eu acredito que tem que ser diferente. O futebol está se modernizando, se sofisticando, a competitividade vai ser cada vez mais acirrada e o Flamengo precisa ter uma gestão inteiramente profissional.

Quando digo isso é porque é preciso mudar o estatuto do Flamengo, acabar com a figura do vice-presidente de futebol, criar a figura do diretor executivo geral de futebol, com ampla autonomia para gerir o departamento com pleno profissionalismo e antenado às boas práticas de gestão dos melhores clubes do mundo.

L!: Uma nova concessão do Maracanã será decidida a partir de 2022. O que pensa a respeito da gestão do estádio? A ideia é mantê-lo como a casa do Flamengo?

W.M.:
Sobre a gestão especifica, do contrato atual que é a gestão compartilhada com o Fluminense, eu tenho dificuldade de opinar pois o Flamengo é muito pouco transparente em relação a isso. A promessa que nós conselheiros do clube tivemos, quando o contrato foi assinado, era que o Flamengo prestaria contas, daria detalhes de como as coisas se desenvolveriam. Isso, definitivamente, não aconteceu. Temos dificuldades em saber se deu lucro, deu prejuízo, se o Fluminense está pagando ou não. Então, realmente, tenho restrições de dar minha opinião sobre algo que não conheço a fundo por culpa do Flamengo que esconde esses dados.

Em relação à próxima licitação, eu alimentei a esperança, logo quando lançamos a candidatura no começo do ano, que nós chegássemos ao final de 2021 com esse assunto já resolvido e encaminhado, e que isso não fosse um tema da campanha. Infelizmente isso não aconteceu e será um tema a ser decidido pelo próximo presidente. O que costumo dizer, repetido sempre com essa pergunta, é que enquanto a variável "Maracanã" não for retirada da equação da escolha sobre um novo estádio ou não, nada disso irá andar. O Flamengo joga no Maracanã há mais de 70 anos e, ao longo desse período, muitas vezes se prometeu, colocou-se soluções e nada disso avançou.

Não avançou pois o Maracanã oferece vantagens para o Flamengo que são muito difíceis de competir em outro cenário. Para encontrar algo semelhante ao Maracanã precisa encontrar um estádio com uma localização tão boa, uma estrutura tão boa, a capacidade de gerar receitas como o Maracanã tem e é capaz. Então, enquanto tivermos esses elementos de comparação será muito difícil avançar no projeto de estádio próprio.

'Nós perdemos um certo bonde da história que foram nos momentos que antecederam a Copa do Mundo de 2014, quando os principais estádios brasileiros foram erguidos. Tivemos financiamentos públicos, investidores dispostos a participar dessas parcerias com os clubes e tivemos, naquela época, uma economia bem diferente da realidade atual do Brasil.'

É preciso também lembrar outra coisa. Nós perdemos um certo bonde da história que foram nos momentos que antecederam a Copa do Mundo de 2014, quando os principais estádios brasileiros foram erguidos. Tivemos financiamentos públicos, investidores dispostos a participar dessas parcerias com os clubes e tivemos, naquela época, uma economia bem diferente da realidade atual do Brasil. Então, imaginar hoje a construção de um estádio é ainda mais difícil do que foi há 10, 8 anos atrás. É preciso que a torcida compreenda o seguinte: o Flamengo, mesmo sendo o clube mais rico do Brasil, não tem dinheiro para investir em uma aventura própria de estádio.

Costumo dizer que podemos comparar duas soluções diferentes de dois clubes rivais. O Corinthians teve a iniciativa de pegar o financiamento, se endividar e ter o estádio próprio, e o Palmeiras, que teve a  iniciativa de se associar a um investidor privado e ter um estádio compartilhado. Parece claro, para mim e até para os corintianos, que a solução do Palmeiras é melhor. Ter a Arena do Corinthians tem impactado muito a gestão do Corinthians no âmbito esportivo. O Flamengo não pode correr o mesmo risco. Repetindo, não há dinheiro para o Flamengo construir um estádio próprio, que só se viabilizaria se a negociação com o Maracanã não fosse boa o suficiente, e eu tenho esperança que seja, e se for possível encontrar um parceiro disposto a ser o dono da propriedade imobiliária e que o Flamengo seja o provedor de conteúdo desse estádio. Não é uma solução fácil, que vá surgir da noite para o dia. E repito: enquanto o Maracanã estiver nessa equação, nada vai andar.

O que o Flamengo precisa fazer, isso nada tem a ver com o estádio próprio, é tornar o Estádio José Bastos Padilha funcional. É reformar a arquibancada que está caindo aos pedaços, até por questões de segurança, está condenado pela Defesa Civil, instalar refletores, cuidar do gramado e permitir que possa haver jogos do futebol feminino e de base, o que já acontece, mas com a presença de público, e até jogos do futebol masculino de menor porte. Para isso, para tornar o Estádio da Gávea funcional, o Flamengo tem dinheiro e eu pretendo fazer isso na minha gestão.

L!: E quanto à política de preço de ingressos?

W.M.: A primeira coisa que eu acho é que o Flamengo deveria ter sido mais incisivo na propositura de uma reversão, uma alteração da política de gratuidade do Maracanã. Essa política de gratuidade do Maracanã, ao meu ver, está equivocada, porque privilegia o critério etário. Você não paga ingressos se for criança ou idoso. Não acho que seja o ideal. A política de gratuidade deve estar voltada para um critério de renda familiar. É possível criar mecanismos e atrelar à política de gratuidade a pessoas que são beneficiárias de programas do governo, por exemplo. Já houve, inclusive, projetos neste sentido na Alerj. Acho que o Flamengo, que se mobiliza tanto para assuntos legislativos de outros interesses, deveria se mobilizar para esse assunto que tem a ver com a questão da sua torcida.

Além disso, tem outra política de gratuidade que me incomoda muito que é a gratuidade dos muito ricos, pessoas que são herdeiras ou que compraram de herdeiros de pessoas que financiaram a construção do estádio na década de 1940. Essas pessoas entram de graça no Maracanã, pagam uma taxa que não vêm para os clubes. Precisamos, de alguma forma, resolver esse imbróglio, indenizar as pessoas que estão usufruindo desse benefício há 70 anos, e fazer com que esses lugares nobres do estádio possam ser comercializados a preços elevados.

O estádio ideal, hoje em dia, é o estádio que tenha, sim, preços elevados para quem pode e quer pagar mais caro, e preços populares para quem só tem essa opção. É esse equilíbrio que temos que encontrar no futuro Maracanã e na política de preços. Estamos falando após uma maravilhosa vitória do Flamengo que se deve muito ao papel que a torcida do Flamengo teve ontem no Maracanã, incentivando o time até o final. Está provado que, no momento em que a demanda não está aquecida, você incentiva a participação da torcida através de preços populares, a torcida comparece e faz muito bem para o time.

Não quero fazer discurso demagógico de que os ingressos devem ser baratos para sempre, até porque quem me acompanha há mais tempo sabe que defendi política de preços diferentes. Acho que a política de preços de ingressos precisa estar adequada a uma série de fatores conjunturais, dentre eles a atratividade do jogo, o momento do time e a capacidade de pagamento do torcedor. Eu quero o Maracanã compartilhado para muita gente, e não só para os ricos.

L!: Ainda neste tema, quais melhorias e mudanças você pretende realizar no programa de sócio-torcedor do Flamengo?

W.M.: Eu fui um grande defensor desse programa de sócio-torcedor desde a sua implementação. Na minha opinião, ele está na raiz da recuperação financeira de forma tão acelerada como conseguimos. O Flamengo saiu de uma situação de um clube absolutamente falido para o clube mais poderoso do Brasil em bem menos de 10 anos. O Flamengo conseguiu alcançar esse estágio em seis anos.

Parte substancial dessa recuperação veio do programa de sócio-torcedor, que gerou uma receita nova e gerou novos hábitos de frequência ao estádio. Combinando a receita de bilheteria com a receita de sócio-torcedor, o Flamengo conseguiu dar o salto que precisava. O fato de eu ter defendido lá atrás é porque naquela conjuntura ele se adequava e fazia sentido.

O que vejo hoje, do programa de sócio-torcedor, e tenho feito de forma mais acentuada depois do episódio da final da Libertadores, é que o modelo está próximo de um esgotamento e de uma sensação muito perigosa. Tínhamos cerca de 10 mil ingressos para a torcida do Flamengo que foram comercializados exclusivamente para os detentores dos planos mais elevados. Isso é uma armadilha que o Flamengo precisa fugir.

Somos uma torcida muito grande, 42 milhões de torcedores. Obviamente, mesmo em um país onde a população do país é muito pobre e, consequentemente, a torcida do Flamengo é muito pobre, há um contingente numérico muito expressivo de rubro-negros com muito dinheiro e fanatizados por futebol. Se você cria mecanismos de incentivo onde comprar ingressos para jogos importantes significa pagar mais caro pelo plano de sócio-torcedor para furar a fila virtual, você estimulará cada vez mais que rubro-negros com dinheiro façam isso.

Daqui a pouco vamos ter uma arquibancada dos muito ricos. É claro que a final da Libertadores é um jogo excepcional, com uma condição que não deveríamos ter aceitado. Acho que o jogo único é outro debate. Mesmo com essas ponderações, estamos vivenciando uma arquibancada do Flamengo só dos muito ricos. Isso gera muita preocupação. Se não atentarmos para esse fenômeno, daqui a pouco estamos criando estímulos para que os rubro-negros com dinheiro paguem cada vez mais caro para furarem a fila virtual.

É preciso que se faça uma reflexão, onde, sim, tenham planos VIPs, gerar receitas adicionais com rubro-negros dispostos a pagarem mais caros para terem experiências VIPs, não necessariamente furar as filas virtuais. Proponho uma revisão desse conceito. Vamos criar experiências VIPs para rubro-negros VIPs, mas que não se vincule isso a furar as filas virtuais. Gostaria muito de revisar esse programa de sócio-torcedor. Repito: não é uma crítica direta à diretoria do Flamengo.

A minha crítica é reconhecer um modelo que foi bom, que defendemos, mas que está se esgotando e isso impõe riscos no futuro. Precisamos evitar que essa elitização máxima contamine nossa arquibancada e modifique a feição de quem apoia o Flamengo nos estádios.

L!: O que pensa a respeito da criação da Liga e qual deve ser o papel do Flamengo neste sentido?

W.M.:
O papel tem que ser sempre de liderança pelo o que ele é. O Flamengo representa, no mínimo, 20% da torcida dos brasileiros. A cada cindo brasileiro, um torce pelo Flamengo. Quem tem esse papel natural, precisa ter consciência desse papel e se colocar como liderança. Como conceito, sou a favor de uma liga de futebol profissional. Um dos grandes problemas que enfrentamos no Brasil é a estrutura arcaica, no modelo das federações, que emperra grandes transformações.

É por conta do modelo regulatório que temos e por conta de estarmos presos ao sistema federativo é que somos obrigados a sacrificar 16 datas do calendário disputando campeonatos estaduais. Com isso, comprometemos as principais competições ao longo do ano, pois não podemos parar na Data Fifa, pois estouramos nossos jogadores, enfim. A origem do problema do futebol brasileiro vem daí. Enquanto existir o modelo federativo não sairemos dessa armadilha. Só sairemos criando uma liga.

Acredito muito que esse seja o futuro, mas tenho receios do ponto de vista conjuntural. Olhando para a situação atual. Primeiro, não temos no Brasil a cultura da gestão profissionalizada, que eu quero trazer para o Flamengo. Alguns clubes, sim, têm essa estrutura e racionalidade para lidar com temas espinhosos. O grande problema do futebol comandado por torcedores é a falta de racionalidade.

Só isso impede que um clube como o Botafogo, em um momento crítico de sua existência, abra mão de uma receita para não deixar o Flamengo jogar em seu estádio para poder se orgulhar de dizer que o estádio que a Prefeitura lhe aluga é seu. Só o torcedor é capaz de tomar uma decisão dessa, colocando a paixão acima das escolhas que as boas práticas de gestão recomendam.

'Acredito muito que esse seja o futuro, mas tenho receios do ponto de vista conjuntural. Olhando para a situação atual. Primeiro, não temos no Brasil a cultura da gestão profissionalizada, que eu quero trazer para o Flamengo. Alguns clubes, sim, têm essa estrutura e racionalidade para lidar com temas espinhosos. O grande problema do futebol comandado por torcedores é a falta de racionalidade.'

Então, tenho, sim, medo de uma liga comandada por dirigentes torcedores. É difícil equacionar nisso na atual realidade que temos. O Flamengo poderia e deveria ser um exemplo, mas, infelizmente, o Flamengo de Landim não tem a menor condição de estar à frente disso. O Flamengo de Landim acredita na disrupção, não há tentativa de diálogo, de preservação do ecossistema que está inserido e percepção de que o futebol avança a partir da colaboração.

O Flamengo cultua uma ideologia de aniquilação do seu entorno. A criação de uma liga comandada por dirigentes torcedores que colocam a paixão acima da razão e, fundamentalmente, a inserção de um Flamengo, com uma enorme dificuldade de dialogar, vejo com preocupações.

O Flamengo tem uma dificuldade enorme de dialogar. O Flamengo conhece duas formas de relações externas. A primeira é o puxa-saquismo, a bajulação explícita. Essa foi a forma de relação que o Flamengo introduziu com políticos de gosto duvidoso. Está aí o exemplo do governador do Rio de Janeiro dentro do avião, ajoelhado em Lima para comemorar o título da Libertadores.

O Flamengo não ganhou nada com aquilo. Para os demais, o Flamengo tem uma capacidade de destruição. O Flamengo não dialoga e não se relaciona bem com praticamente ninguém. O Flamengo se orgulha de se relacionar mal.

L!: Enquanto a Liga não sai, como gerir a relação com essas entidades?

W.M.:
Especificamente com a CBF, o Landim, acho que foi um erro pessoal dele, tomou a pior decisão possível em relação a isso que foi aceitar ser interventor da CBF. Uma coisa que, por si só, é incompatível: ser presidente de um clube e acumular a presidência da instituição que comanda os clubes brasileiros. A partir do momento que o Landim aceita ser interventor da CBF, ele compra uma briga impossível de vencer. Só venceria a briga se efetivamente o Rogério Caboclo tivesse sido afastado em definitivo, o que não aconteceu. O Rogério Caboclo recuperou o seu cargo com rapidez, a CBF continua comandada por esses cartolas ligados às federações e o Flamengo não percebeu, com extrema ingenuidade, que não é possível controlar a CBF. O Flamengo chegou a se iludir que controlaria a CBF.

Até se tivesse dado certo, seria um desastre. Geraria uma instabilidade nos demais clubes. A missão do próximo presidente do Flamengo é, de fato, reconstruir as relações com a CBF, reconhecendo que é preciso ter diálogo. É preciso compreender que a legislação do futebol brasileiro te obriga a estar dentro do sistema federativo. Não acredito em uma relação conflituosa, que foi o que pautou o Flamengo nesses três anos. Acredito em uma relação colaborativa e me orgulho disso. As pessoas me criticam por acreditar na colaboração e valorizar o ecossistema do futebol traz benefícios para o Flamengo. Seria uma bananice. Não tem nada disso.

A prova de que construir boas relações é benéfico estamos vendo. O Flamengo conflituoso, que briga com todos, está sendo sacaneado pela CBF. E clubes que fazem bons trabalhos de bastidores estão sendo beneficiados. E nem vou falar da questão da arbitragem, pois isso precisa que haja má fé dos profissionais e acho leviano. Mas há coisas que a CBF pode fazer para ajudar os clubes, como está fazendo com o Atlético-MG e Grêmio na remontagem da tabela. E como sacaneou o Flamengo na remontagem da tabela. Essa responsabilidade precisa ser cobrada do Landim.

L!: Sobre os Esportes Olímpicos, quais são os projetos da chapa para esta pasta do clube?

W.M.: 
Tenho muito orgulho de ser um candidato de oposição que aplaude de pé a gestão dos Esportes Olímpicos do Flamengo. Se há um exemplo de Flamengo que dá certo, um exemplo de cultura que quero reproduzir, como presidente, na gestão do departamento de futebol é aquilo que acontece nos Esportes Olímpicos do Flamengo. Sempre foram um espaço privilegiado da política do clube, com ex-atletas, pessoas que queriam se destacar na política do clube assumiram essa pasta em torno de promoção pessoal.

Em 2013, o Eduardo Bandeira de Mello assume e acaba com essa lógica. Tivemos um grande vice-presidente, o Alexandre Póvoa, mas o que se fez de forma acentuada foi que passou a ser gerido por um profissional. O Flamengo foi ao mercado, contratou o Marcelo Vido, um profissional treinado, é um ex-atleta mas é do mercado, traz uma cultura vitoriosa, implanta o profissionalismo, passa por três gestões diferentes, com três VPs e ele está lá.

É a gestão perene, que sobrevive à política e tem planejamento de curto, médio e longo prazo, que aplica corretamente os recursos, que tem consciência que só deve se envolver e participar de modalidades que tem capacidade de competir em alto nível.

O Flamengo só pode se envolver naquilo que tem condições de ganhar. Não há como participar de todas modalidades, e sim daquelas que podem dar alegrias à torcida, com times e atletas de alto nível. Quero dar parabéns a todas as pessoas que construíram a gestão dos Esportes Olímpicos do Flamengo desde 2013 e quero dizer que é exatamente isso que quero fazer daqui para frente. Espero que o Marcelo Vido continue nos Esportes Olímpicos do Flamengo por muitos e muitos anos, independente de quem seja o presidente.

L!: E em relação à Sede e ao Estádio da Gávea, quais são os planos?

W.M.: A Prefeitura não tem como impedir a reforma estrutural. Muito pelo contrário, poderíamos imaginar o cenário inverso, com a Prefeitura obrigando o Flamengo a fazer essa reforma. Publicamos um documento com a revisão completa de segurança e prevenção do Flamengo, muito em função da tragédia do Ninho do Urubu. O estádio está inserido nisso. Precisa de reforma estrutural. Ter a arquibancada reformada não é apenas uma escolha em relação à utilização do estádio, mas é um exemplo de que o clube elevou a prioridade da segurança e prevenção.

Ainda que não houvesse dinheiro disponível, é obrigação do Flamengo sacrificar outro recurso e investir naquilo. Isso deveria ser um consenso entre todos candidatos. Temos um plano mais audacioso através de uma receita adicional que hoje não existe mais vamos gerar. Um dos pilares de nossa campanha está baseado em uma nova modalidade de associação ao clube, o associado contribuinte-torcedor. É um associado que não frequenta a sede, mas é sócio do clube. Não é sócio-torcedor, pois ele tem direito de voz, de voto, desde que cumprido os prazos de carência do estatuto.

'Clubes como Internacional, Grêmio, Boca Juniors, River Plate, dentro da nossa realidade, têm mais de 80 mil sócios do clube. O Flamengo pode e vai chegar lá, desde que sejam criadas essas condições.'

Estamos imaginando a mensalidade em torno de R $85, dos quais você desconta R $55 para o plano de sócio-torcedor, então terá uma receita adicional de R $30. Com essa receita, basta multiplicar pela quantidade de sócios que somos capazes de atrair e pela quantidade de meses que a gestão dura, e teremos uma receita bem interessante. Clubes como Internacional, Grêmio, Boca Juniors, River Plate, dentro da nossa realidade, têm mais de 80 mil sócios do clube. O Flamengo pode e vai chegar lá, desde que sejam criadas essas condições. Através dessa receita adicional, é possível reformar o José Bastos Padilha, fazer melhorias na sede sem sacrificar a mensalidade de quem frequenta a sede.

Tenho procurado fazer propostas mais globais, e não em relação à sede social em si, mas é importante sua pergunta para dizer que, até um candidato como eu, que não tenho o olhar aprofundado para as questões da sede, a proposta que trago é mais interessante do que os demais que estão lá, fazendo promessas paroquiais. O grande problema da sede hoje é que, como são poucos sócios e a sede custa caro, esse custeio vem pressionando os aumentos das mensalidades. Eu proponho inverter essa lógica. Vamos criar uma receita adicional, que será muito expressiva, e aplicá-la integralmente no patrimônio do Flamengo em sua sede social.

L!: Muito tem se falado a respeito da internacionalização da marca Flamengo. É um ponto que a sua gestão tem como foco? Como desenvolver esse projeto?

W.M.: Essa questão, como quase tudo do Flamengo atual, é cercada de muita nebulosidade, com pouca transparência. Não sabemos quais são sos projetos, os planos, onde o Flamengo quer chegar e os objetivos por trás desse projeto. Acho curioso um clube com dificuldade para cuidar de gramado, possa imaginar que irá cuidar de um clube na Europa. As prioridades no Flamengo deveriam ser resolver os problemas mais urgentes e ampliar a conexão com os torcedores no Brasil. O Flamengo tem uma dificuldade imensa de se relacionar adequadamente com os torcedores de fora do Rio de Janeiro.

Essas seriam as questões prioritárias a serem endereçadas no Flamengo atualmente. Mas eu não quero ser refratário à boas ideias. Se existem bons projetos de internacionalização da marca e alguém me convence de que isso trará benefícios, é óbvio que estamos dispostos a analisar. O que olho com ceticismos é como vendem o projeto como se estivessem reinventando a roda. A ideia, pelo o que está colocado pela imprensa, é que o Flamengo irá comprar um time em Portugal, o qual não se pode mudar o nome, a cor, o Flamengo não colocará dinheiro nenhum, não terá risco nenhum pois não terão contrapartidas, e o Flamengo fará o intercâmbio de jogadores, o Flamengo ficará com os lucros.

É como se fosse um clube de presente ao Flamengo. Se Papai Noel existe e quer dar um clube para o Flamengo, para dizermos que estamos disputando no principal mercado de futebol, eu aceito o presente. Se é isso. Só tenho receio pois uma conversa mais ou menos parecida com essa foi feita com o Fluminense, há uns anos, e o Fluminense, no final, ficou com zero lucro, zero jogador, zero tecnologia, e uma dívida.

L!: Tem algum ponto do Estatuto que pretende colocar em discussão?

Muitos e muitos. Praticamente todos os pilares da nossa campanha estão baseados na transformação estatutária do Flamengo. A criação da modalidade associado-contribuinte-torcedor é uma mudança estatutária. A extinção das vice-presidências temáticas e a transformação do clube em gestão profissionalizada, de cabo a rabo, é outra.

Cito outra importante: transformar o atual Conselho Diretor, que hoje é formado por 21 cargos, para 11 membros, dos quais são o presidente, o vice-presidente, cinco indicados pelo presidente, dois indicados pelo Conselho Deliberativo, um indicado pelo Conselho de Administração e um indicado pelo Conselho de Grandes Beneméritos.

Então, teremos um time no Conselho Diretor formado por 11 pessoas, que terão a missão de planejar o Flamengo e controlar a gestão executiva. É a separação completa da política do Flamengo da execução e gestão diária. Essa mudança é fundamental. O estatuto do Flamengo é de 1992, está perto de completar 30 anos e as forças retrógradas da Gávea se agarram a ele para impedir que a democracia, a modernidade e as boas práticas de gestão avancem no clube. Essa é a principal decisão que os sócios precisam escolher na eleição de dezembro.

Quem acredita no modelo amador, tem a opção de votar no Landim ou em outros candidatos, que estão anunciando vice-presidentes. Quem acredita que o Flamengo deve dar o salto definitivo da transformação, ser um clube efetivamente profissional, com previsão estatutária, tem a opção de votar na Chapa Ouro.

L!: O que pode ser feito em relação ao acidente do Ninho do Urubu?

W.M.:
Eu e outros conselheiros, no ano de 2020, apresentamos ao Flamengo uma proposta de reforma do estatuto para criar o Dia da Memória em 8 de fevereiro. Seria o dia que o Flamengo não teria atividades esportivas, seria um dia de reflexão e culto à memória dos meninos que se foram e de reflexão sobre o mal que o Flamengo causou. Achei seria uma proposta recepcionada de forma ampla, com amplo apoio do clube, foi rechaçada nas comissões do Conselho Deliberativo sob a argumentação de que é impossível mudar o estatuto do Flamengo neste particular, que só o presidente do Flamengo poderia instituir o Dia da Memória.

Reencaminhamos essa sugestão ao presidente Rodolfo Landim e ele nada fez. Se recusou a criar o Dia da Memória. Esse é o exemplo de como o Flamengo lida mal com essa questão. Eu tenho vergonha de como o Flamengo lida com essa questão. O Flamengo resumiu tudo a uma questão financeira, e está longe de ser isso. Nós também encaminhamos, assim que o acidente ocorreu, um pedido de instauração de uma comissão de inquérito interna para apurar as responsabilidades e punir os responsáveis. O Flamengo se recusou a investigar.

'importante investigar internamente porque é fato, a Polícia investigou, a Justiça está no caso, mas não existe apenas a responsabilidade criminal. Existe a responsabilidade interna do clube. Quem fez aquilo ali? Os associados do clube precisam saber quem fez e as pessoas que tiveram responsabilidade nisso precisam ser responsabilizadas. Pedimos a instauração da comissão de inquérito e nada avançou. Pedimos duas vezes.'

É importante investigar internamente porque é fato, a Polícia investigou, a Justiça está no caso, mas não existe apenas a responsabilidade criminal. Existe a responsabilidade interna do clube. Quem fez aquilo ali? Os associados do clube precisam saber quem fez e as pessoas que tiveram responsabilidade nisso precisam ser responsabilizadas. Pedimos a instauração da comissão de inquérito e nada avançou. Pedimos duas vezes.

O clube trata esse assunto da pior forma possível, da forma mais desumana, com o menor nível de empatia possível, a ponto de impedir que as famílias fossem ao local, no dia da morte, pois iria atrapalhar a preparação dos jogadores para um jogo pelo Estadual. Quando é político, fazendo proselitismo eleitoral, as portas estão abertas, pode jogar, fazer pelada.

Queremos eliminar essa forma desumana e que reduz tudo ao dinheiro. De forma concreta, o que faremos é criar o Dia da Memória Rubro-Negra. Será a primeira coisa a fazer como presidente, faço questão. Todo dia 8 de fevereiro. Criar a comissão interna de investigação, para descobrir quem causou aquilo e, eventualmente, punir os responsáveis. Me surpreende que o Flamengo tenha resistido a isso, porque a gestão atual, que diz que nada tem a ver com isso, não precisaria se esconder tanto, se negar a realizar a investigação.

E, por fim, há um documento que recomendo que todos leiam, estão em nossas redes, que criemos a cultura das lições aprendidas. Isso precisa ser uma marca para que o Flamengo jamais produza algo sequer parecido com isso. Aprender com os erros que o clube cometeu e mudar a cultura de prevenção e segurança. Isso que eu gostaria muito de fazer. Sinto muita vergonha, como rubro-negro, por tudo o que aconteceu e a forma como o Flamengo lidou com isso.

Acho que o clube está certo quando reage de forma enfática a canalhas que usam clubismo para nos atacar. Quem causou aquilo não foi a torcida do Flamengo, foi a instituição por pessoas, que não sabemos quem são, pois o clube se recusa a investigar. Reconheço os méritos em ser enérgico a quem manipula a tragédia por clubismo, mas, fundamentalmente, tenho vergonha pelo o que aconteceu e quero dar o tratamento humano e digno às famílias das vítimas e cultuar a memória e que o episódio sirva de lição para todos nós.

L!: Uma mensagem final para a torcida.

W.M.:
As pessoas me perguntam sempre porque sou candidato do Flamengo sendo que há um favoritismo tão grande ao presidente que ganhou tantos títulos. Sou candidato porque acredito ser possível transformar o Flamengo. Independentemente do resultado da eleição, acredito que a maior transformação institucional do Flamengo neste século foi providenciada pela nossa luta. Essa será a primeira eleição do Flamengo com voto a distância, e isso só aconteceu pois tivemos coragem de ir ao judiciário. Permitir que o associado vote a distância é permitir que a democracia no Flamengo se amplie e que mais e mais rubro-negros se sintam estimulados a participar. Então, me considero realizado e vitorioso por ter dado a chance do clube que amo realizar essa transformação institucional. É para isso que nossa luta perseguirá.

Queremos cada vez mais gente pensando o Flamengo de forma diferente e mostrando que esse Flamengo desumano, frio, puxa-saco de político, amador, dos palpiteiros pode até ser campeão, mas precisa acabar, pois só tem sido campeão pelas fragilidades dos nossos adversários. Quando o futebol se sofisticar e se tornar profissional, ou damos o salto definitivo para avançar ou ficaremos presos a esse clube do seio da zona sul da capital fluminense. Para quem quer o Flamengo assim, a opção está dada. Para quem quer o Flamengo Maior, a opção somos nós.