José Colagrossi - Diretor executivo do IBOPE Repucom

José Colagrossi, diretor-executivo do IBOPE Repucom, fez uma análise das transmissões no Brasil (Foto: Divulgação)

Matheus Dantas
03/07/2020
07:00
Rio de Janeiro (RJ)

Celebrada internamente, entre a direção da Gávea, e efusivamente pela torcida do Flamengo nas redes sociais, a inédita transmissão da FlaTV do jogo contra o Boavista, na última quarta-feira, promete ter sido o primeiro passo de uma transformação significativa na forma como o futebol brasileiro é promovido, transmitido e comercializado pelos clubes, e consumido pelos fãs. Na visão de José Colagrossi, diretor-executivo do IBOPE, a experiência do Flamengo foi um "gol de placa", com números expressivos, mas há ressalvas importantes a serem feitas, especialmente na comparação entre o alcance e penetração da transmissão digital e da transmissão "tradicional", ou seja, pela TV aberta.


- Foi um extraordinário sucesso (a transmissão de Flamengo e Boavista). Não existe outra maneira de apresentar isso. Agora, dito isto, tem dois aspectos importantes: era de se esperar. Não deveria ser surpresa para ninguém. É uma torcida gigantesca, uma nação, que estava sem assistir jogos há mais de três meses, uma demanda reprimida extraordinária. Nem em Copa do Mundo isso acontece. O clube está vivendo seu melhor momento da história, comparável ao time do Zico e Andrade, quase ganhou o Mundial. No Brasil, ganhou tudo. É um momento extraordinário e uma torcida engajadíssima. Os números não devem ser surpreendentes. Era de se esperar - afirmou ao L!.

Além de destacar os resultados expressivos alcançados na transmissão da partida, válida pela Taça Rio, José Colagrossi fez uma comparação com a TV aberta no Brasil. Conforme o diretor do IBOPE explica, o alcance do digital ainda está distante. Como exemplo, Colagrossi usou o jogo entre Botafogo e Portuguesa, disputado na mesma hora que Flamengo e Boavista, e alcançou quase o dobro de espectadores. Isso sem ter sido transmitida nacionalmente.

José Colagrossi, diretor do IBOPE, ao LANCE!: 'Os números, a qualidade da transmissão e do espetáculo, as ações de promoção: sob todos esses aspectos, não há como não considerar como um gol de placa.'

- Há outro lado que é igualmente importante. Em relação a audiência, quantidade de pessoas e o tempo médio, ainda não há comparação entre TV e digital. O digital é super interessante, é novo, permite que a pessoa que não tem TV na hora assista da forma que quiser. Sou fã de carteirinha, mas não há como comparar a penetração e alcance do digital com a TV, especialmente aberta. A audiência de Botafogo e Portuguesa, em cinco praças (Grande Rio, DF, Grande Belém, e Grande Vitória e Manaus), nos lembra disso. O jogo do Flamengo foi para o Brasil inteiro, e teve 2,1 milhões espectadores simultâneos de pico. O jogo do Botafogo foi de 3,9 milhões (média). Mesmo com toda preparação do clube e os aspectos, a audiência da TV em um jogo modesto, com o Botafogo atrás da classificação, a audiência foi quase o dobro. Isso não é desmérito ao Flamengo, ao show que fizeram, muito menos da torcida, Isso mostra que a alcance e a penetração da TV é muito superior ao digital. Com o tempo, essa diferença tende a diminuir.

Na avaliação do especialista, a implementação da rede 5G no Brasil ajudará a equiparar o meio digital à TV aberta em relação ao seu alcance e penetração.

Colagrossi também ressalta que as transmissões digitais, por ora, estão limitadas a poucos clubes e jogos, apesar da Medida Provisória nº 984, publicada pelo presidente Jair Bolsonaro no último dia 18, garantindo aos mandantes os direitos sobre a transmissão. Afinal, a maioria dos clubes, inclusive o Flamengo, têm os direitos do Campeonato Brasileiro negociados até 2023. A grande mudança - para melhor ou pior - acontecerá a partir deste ano.

Veja mais respostas de José Colagrossi, diretor-executivo do IBOPE, ao LANCE!:

A transmissão de Flamengo x Boavista mostrou que o meio digital é um caminho para os clubes brasileiros?

Acho que, no médio prazo, sim. O problema é que, possivelmente, tem mais dois jogos na FlaTV. Há muita polêmica por conta da Globo, mas vamos assumir que terá mais dois jogos. E depois acabou. Só no Estadual de 2021. Hoje são poucos clubes que têm essa possibilidade. O Red Bull, o Athletico... Três clubes, talvez quatro. Até 2023, quando os contratos atuais (de Campeonato Brasileiro do Flamengo com a Globo, por exemplo) expiram, essa realidade da transmissão própria é uma possibilidade muito limitada a poucos clubes e jogos. A partir de 2023, tudo isso vai mudar. Para melhor ou pior ainda é cedo para dizer.

Acredita que os números alcançados na transmissão de quarta-feira se repitam com frequência?

Foi uma tempestade perfeita, no bom sentido. Clube vivendo um momento histórico, 100 dias sem transmissão já que o jogo contra o Bangu passou... Ainda tem a questão com a Globo, que o torcedor adora a polêmica. Deu um atrativo maior ao espetáculo e chegou a 2,2 milhões simultâneos. É muita gente. Segundo o Youtube, é a maior audiência de uma transmissão esportiva do Brasil. É um contexto extraordinário. Se tiver jogo na FlaTV toda semana, não terá esse alcance todo.