Mano Menezes

Mano chegou a colocar o cargo de técnico à disposição, mas recebeu apoio para seguir (Foto: Pedro Vale/AGIF)

Luiz Fernando Gomes
06/08/2019
07:30

A entrevista coletiva de Mano Menezes após mais uma derrota do Cruzeiro neste Brasileirão, desta vez para o Atlético, no Independência, teve seu ponto alto não numa resposta, mas numa lembrança do treinador a um repórter.

"Antes do campeonato começar o senhor me perguntou se o Cruzeiro ia jogar este ano para ganhar o Campeonato Mineiro – que já havia ganho –, o Brasileiro, a Libertadores e a Copa do Brasil. Esse era o Cruzeiro. Se essa era inclusive a perspectiva de um repórter experiente como o senhor, essa era a perspectiva que se tinha pela frente. Então, isso não pode estar tudo errado", disse o técnico em tom de desabafo e como se ele mesmo buscasse respostas.

É realmente surpreendente. O Cruzeiro de Mano começou a temporada em ritmo acelerado. Foram 21 jogos de invencibilidade e a conquista do campeonato mineiro exatamente em cima do rival Atlético. Reforçado de nomes de peso, contratações ousadas - e caras - como Rodriguinho e Pedro Rocha, sem grandes perdas no elenco do ano passado, o Azul entrou com ares de favorito, nas competições que disputava.

Mas foi só decepção de lá pra cá.

Os problemas, como se sabe, não se limitam às quatro linhas. Tão ou mais graves são os de fora do campo. Envolvido em uma guerra interna de poder, com os dirigentes acusados de irregularidades financeiras como transações indevidas de jogadores - inclusive da base, antes da idade mínima -, o clube foi punido pela Fifa com a perda de seis pontos, por atrasar a quitação da dívida com o Zorya, da Ucrânia, pela compra de William. Segura-se em recursos para não cumprir a pena e piorar ainda mais sua situação.

Depois da conquista do estadual, na Libertadores, o Cruzeiro chegou a ter a segunda melhor campanha na fase de grupos. A partir da vitória sobre o Goiás, contudo, na terceira rodada do Brasileirão, foram nada mais nada menos do que 17 jogos com apenas uma vitória (sobre o Galo, na Copa do Brasil), oito empates e oito derrotas. Há sete jogos o time não vence, números inacreditáveis para um clube que tem a quarta maior folha salarial do futebol brasileiro, superado apenas por Palmeiras, Flamengo e São Paulo.

É obvio, e Mano já alertara para isso, que a crise extra campo, a repercussão e as incertezas provocadas por ela afetam o desempenho nos gramados. Não há, por outro lado; como atribuir-se a isso, tão somente, os maus resultados. Tem faltado futebol à Raposa e é mesmo difícil entender as razões da derrocada. Nelson Rodrigues poderia apontar o dedo do Sobrenatural de Almeida. Outros dirão apenas que são "coisas do futebol", uma fase ruim que vai passar do mesmo jeito que começou. Do nada.

Mano, no comando do Cruzeiro desde 2016, colocou o cargo à disposição logo após a derrota para de domingo. Foi mantido pela diretoria, ao menos até segunda ordem. Foi uma atitude digna do técnico e uma decisão acertada dos dirigentes. Mano continua a ter a confiança dos jogadores - quem cobre o dia-a-dia na Toca da Raposa afirma que ele tem o grupo nas mãos. O desafio de recuperar o bom futebol sem dúvidas passa por isso. E até a torcida, sempre aguerrida, tem demonstrado, diga-se aqui, uma paciência pouco comum diante do caos em que o time se meteu. Continuidade muitas vezes é um caminho melhor do que um salto no escuro. É preciso que os cruzeirenses acreditem nisso de verdade.