Luiz Gomes: 'O machismo precisa ser enfrentado sem a glamourização dos vídeos pré-roteirizados'
'A era das faixas solenemente conduzidas pelas equipes ao entrar em campo, com mensagens apaziguadoras e pregando o bem, há muito chegou ao fim'

O Atlético-MG agiu certo. O funcionário que se vestiu a fantasia de Galo Doido domingo passado no Mineirão foi devidamente afastado depois do que fez durante a apresentação do time feminino, constrangendo a jogadora Vitória Calhau, obrigada por ele a dar uma voltinha comemorada com as mãos esfregando. Mas o Atlético-MG também passou dos limites ao transformar os desdobramentos do caso, quatro dias depois do assédio, em uma ação de marketing, fartamente explorada nas redes sociais. O Galo Doido, um personagem, não era quem deveria pedir desculpas públicas à Vitória. Mas sim, o funcionário que encarnou a mascote, o que aconteceu, segundo a versão oficial, mas apenas nos bastidores.
O machismo, assim como o racismo, a homofobia e a xenofobia, pragas que contaminam e ameaçam o futebol, precisa ser enfrentado de frente, sem a glamourização dos vídeos pré-roteirizados ou os discursos politicamente corretos da cartolagem que encobrem o vazio das suas ações. Manifestações de misoginia, como a que se viu no Mineirão, não podem ser relativizadas. Não são menos graves e violentas do que agressões racistas como as que sofreram o africano Marega, do Porto, ou os brasileiros Taison e Ratinho, na Ucrânia, apenas para citar casos mais recentes e explorados pela mídia. São tão pesadas quanto a frequente hostilização neonazista sobre os atletas turcos nos estádios da Alemanha, tão intoleráveis quanto às perseguições homofóbicas de torcidas mundo afora – inclusive já aqui no Brasil.
A era das faixas solenemente conduzidas pelas equipes ao entrar em campo, com mensagens apaziguadoras e pregando o bem, há muito chegou ao fim. Assim como os protocolos das Fifas, Uefas e Conmebols da vida, prevendo advertências e paralisação de jogos, já não fazem mais efeito, são armas que a prática mostra ultrapassadas, desafiadas que continuam a ser pela intolerância dos que estão do outro lado. Só resta agora, portanto, o caminho do radicalismo para enfrentar os radicais. Em qualquer lugar do mundo – o mundo civilizado, pelo menos – comportamentos desse tipo são considerados crimes. E assim devem ser tratados, inclusive no âmbito esportivo. O que significa ser duro como nunca antes, tirando pontos e até decretando o rebaixamento sumário, em casos de reincidência, de clubes que não conseguem controlar seus fãs.
Mas, voltando a tratar especificamente das mulheres no futebol, há avanços bem positivos, não se pode negar. O número de torcedoras nas arquibancadas cresce a cada ano, tratadas em geral com naturalidade e respeito pelo público masculino. Campanhas como #Elas no estádio, promovida pela Federação Paulista para multiplicar a presença feminina nos jogos – de 14% durante o Paulistão do ano passado – também têm dado bons resultados. E, por fim, o próprio futebol feminino vai conquistando espaço, já não apenas em torno da seleção de Marta, com o Brasileirão ganhando direito de aparecer na TV e levando aos campos, em alguns jogos, um público maior até do que o de partidas masculinas do mesmo nível.
É uma luta das mais difíceis, diga-se de passagem. Especialmente no cenário atual, em um país onde o presidente da República ofende a uma jornalista com insinuações de caráter sexual, ouve risadas ao invés de protestos de quem estava ao seu lado e onde a indignação da sociedade não encontra fórum. Quando o exemplo e a impunidade vêm de cima, o preconceito e a intolerância se multiplicam. E o ato do funcionário vestido de Galo Doido contra Vitória Calhau acaba ganhando ares de um simples roubo de galinha. Sem a real dimensão que merecia ter.

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