Jonas Moura
12/03/2016
08:05
Rio de Janeiro (RJ)

Ficaram no passado o frio na barriga ao entrar em quadra, a emoção dos abraços a cada ponto suado e a busca incansável pela classificação aos Jogos Olímpicos. Mas permanece viva em Emanuel a sensação de responsabilidade. Após encerrar a carreira de atleta no Grand Slam do Rio, etapa do Circuito Mundial, o paranaense deseja ser parte de uma mudança no modo de realizar gestão esportiva no Brasil.

Ciente de que terá missão difícil em meio às incertezas sobre os investimentos nas modalidades olímpicas após a Rio-2016, o ex-jogador acredita que o país vive uma época de abertura às opiniões dos esportistas. Garante que irá aproveitar o megaevento para entender como tudo funciona nos bastidores. Desde Atlanta-1996, quando o vôlei de praia entrou no programa olímpico, ele disputou todas as edições.

– Vejo a dificuldade que vivemos na política, na economia e no pós-Olimpíada como o grande desafio de toda a minha carreira – afirmou Emanuel, em entrevista exclusiva ao LANCE!. Confira abaixo a primeira parte:

Qual foi o momento em que a ficha caiu que você e Ricardo estavam fora da Rio-2016?
O modelo de classificatória foi muito curto e rápido. Eram sete semanas seguidas, o que para nós, que somos mais velhos, fica difícil. Mas nos engajamos para dar certo. Nas últimas etapas, sobretudo no Japão, vimos que tínhamos cinco resultados idênticos aos do Pedro e do Evandro. Somente dois eram diferentes. Chegar tão próximo da outra dupla na reta final de classificação olímpica e ficar fora foi muito difícil. Um time não era muito melhor do que o outro. Se fossem outras condições... mas faz parte da regra. Nós, como atletas, precisamos obedecê-las.

Foi ali que decidiu não continuar?
Estou com 42 anos. O que mais posso vivenciar em termos de longevidade? Meu objetivo era a Olimpíada. O Ricardo era meu grande parceiro. Pensei: “será que nós vamos conseguir, com essa idade?” Os pequenos detalhes também fizeram parte da minha análise ao tomar a decisão.

"Espero que a CBV esteja preocupada com o planejamento, pois, para convocar com um tempo de antecipação, é preciso acertar tudo isso. Mas, pelo que vi, os atletas estão indo bem" - Emanuel

Seria coerente, na sua opinião, a CBV esperar mais tempo para definir as duplas, já que em oito meses tudo muda?
O atleta de vôlei de praia é muito de momento. O planejamento deve ser bem feito. Alison e eu nos preparamos bem em 2012, porque tínhamos a experiência de outros anos, assim como foi com o Ricardo em 2008. Essa experiência tem de ser passada. Lembro que, quando joguei com o Zé Marco, estávamos classificados para Sydney (2000) e resolvemos jogar menos. Chegamos à Olimpíada sem ritmo. São pequenos ajustes que fazemos com o tempo. Espero que a CBV esteja preocupada com isso, pois, para convocar com um tempo de antecipação, é preciso acertar tudo isso. Mas, pelo que vi, os atletas estão indo bem.

Qual é a memória da rotina de atleta que mais ficará marcada para você?
O convívio com os profissionais. No início, o vôlei de praia, para mim, se resumia a três pessoas: eu, o Zé Marco e o treinador. Enquanto eles faziam um trabalho de defesa, eu catava a bola. Quando eu fazia um trabalho de bloqueio, ele (Zé Marco) catava a bola para mim. Neste último ciclo olímpico, tínhamos dez pessoas juntas. A relação interpessoal era prazerosa. Eu sempre fui muito curioso. Queria saber o que o preparador físico e o técnico poderiam fazer a mais, o que, na fisiologia, eu poderia trazer a mais para os treinos. Eu aprofundei minha relação com essas pessoas e levei tudo isso para a vida pessoal. Quero ser o melhor pai, o melhor filho. Aprendi que a grande riqueza nossa é a parte humana.

E o que não vai deixar saudades?

Se eu pudesse disputar os 25 campeonatos que jogava por ano no Rio ou no Brasil, seria ótimo. Depois de um ponto, você começa a visitar os mesmos lugares, as mesmas competições. É preciso ter uma mente muito preparada para continuar. No início, eu gostava de viajar, conhecer pessoas, culturas, falar línguas locais, ler jornais, mas depois fica mais difícil ter esse prazer.

O Fernando Meligeni, ex-tenista, disse que sua aposentadoria deixa um vazio imenso ao esporte. Como faz para preencher a lacuna e buscar novos Emanueis?
Uma das bases do meu pensamento é pensar no longo prazo. Muitas vezes, ícones fortes apagam gerações mais novas. Um exemplo é o Michael Phelps. Todos os atletas que viveram a época dele, por melhor que fossem, ficaram apagados. Porque é um atleta fora da curva. O mesmo vale para o Usain Bolt. Eu e Ricardo fomos um pouco disso. Estivemos tanto tempo no topo que, às vezes, barramos a evolução dos outros. A geração atual é de 1985. Sou de 1973. Ou seja, 12 anos depois, um grupo vencedor vem chegando. É natural. Precisamos pensar em projetos mais longos. O que será do vôlei de praia em 2020, 2024? Temos de ter paciência e tempo.

Você já deixou claro que pretende se dedicar à gestão. Como será?
Eu já tenho uma visão sobre o que fazer, mas tudo hoje está voltado à Olimpíada. O meu foco é pós-Olimpíada. O que será do esporte? Onde nós estaremos? Quais investimentos teremos? Essa é minha preocupação. Agora, quero entender como tudo funciona. Planejo usar os meses até o fim dos Jogos para poder me tornar um executor. A partir de janeiro de 2017, espero trabalhar dentro do esporte.

"Vejo a dificuldade que vivemos na política, na economia e no pós-Olimpíada como o grande desafio de toda a minha carreira. A paixão que tenho pelo esporte pode me engajar mais. É difícil? É. Mas tenho de fazer a diferença" - Emanuel

Você começará a carreira de gestor em um contexto de economia frágil, política em turbulência e com a Rio-2016 no passado. Assusta?
Penso no desafio. A carreira de atleta tem vários, e são todos gigantes. Tive o desafio de ser a melhor dupla do Brasil, a melhor dupla do mundo, a melhor em uma Olimpíada. Vejo a dificuldade que vivemos na política, na economia e no pós-Olimpíada como o grande desafio de toda a minha carreira. A paixão que tenho pelo esporte pode me engajar mais. É difícil? É. Mas tenho de fazer a diferença. A aposentadoria também é para eu entender o que está por vir e, assim, poder fazer diferente. Ao mesmo tempo, o momento político no esporte está se abrindo. Ele se torna mais democrático. Confederações já elegem comissões de atletas. Há um processo de abertura que pode nos permitir mudar velhas gestões de 30 anos com os mesmos dirigentes, as mesmas ideias. Poderemos trazer ideias novas.

Você preside a comissão de atletas do COB e a dos atletas de praia da CBV. Quais são as suas prioridades?
Ainda sinto grande dificuldade entre o entendimento dos atletas sobre como funcionam as entidades e das entidades sobre como funciona a vida dos atletas. Se conseguirmos aliar os dois lados, não haverá mais tanta reclamação. É preciso que haja essa comunicação, o que nos últimos 15 anos dificilmente existiu.

Considera fazer parte da gestão da CBV?
Com certeza. É importante ter o envolvimento. Quase nenhuma modalidade tem um atleta renomado dentro de uma confederação. É muito difícil acontecer. Acho que isso é uma mudança que precisa ser feita. Dar um poder para que essa experiência do atleta torne a gestão mais efetiva.

COM A PALAVRA

Ele deixava os parceiros brilharem

Letícia Pessoa
Técnica de vôlei de praia

Emanuel representou tudo na história do vôlei de praia. Simplesmente, ele foi o jogador mais vencedor do mundo. Simboliza o exemplo aos novos atletas. É um cara disciplinado, que respeita a comissão técnica e seus parceiros. Ele sempre deixou os companheiros brilharem. Ainda é muito cedo para que surja outro com tanta importância, mas a nova geração está aparecendo. Espero que logo alguém consiga ter o mesmo destaque. A vida segue. Treino uma dupla mais nova, que é Guto/Saymon, e Maria Elisa/Lili. Minha rotina, infelizmente, continuará sem ele. Fará muita falta.

QUEM É ELE

Nome
Emanuel Fernando Scheffer Rego
Nascimento
15/04/1973, em Curitiba (PR)
Altura e peso
1,91m/80kg
Conquistas
Medalhista de ouro nos Jogos de Atenas-2004, prata em Londres-2012 e bronze em Pequim-2008; tricampeão mundial (1999, 2003 e 2011); dez vezes campeão do Circuito Mundial (1996, 1997, 1999, 2001, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007 e 2011); nove vezes campeão do Circuito Brasileiro (1994, 1995, 2001, 2002, 2003, 2006, 2008, 2011 e 2014/2015).