icons.title signature.placeholder Felippe Rocha
19/04/2014
07:02

O que você fazia na manhã do dia 19 de abril de 1994? O dia que se iniciava há exatamente duas décadas dava fim à trajetória terrena de Dener, o meia-atacante insinuante, de dribles saudosos e sucesso inevitável. Uma batida num poste aliada à posição muito inclinada do banco do carona fez do cinto de segurança uma forca. A encantadora promessa paulista se tornara realidade ganhando o país, a Seleção, e tinha a Europa como passo seguinte. Ficou sua história, contada por amigos e pelos arquivos. Mas para Luciana Gabino, viúva de Dener, faltou respeito.

No início daquele ano, a cobiçada revelação da Portuguesa havia se transferido por empréstimo ao Vasco, que não havia concordado em pagar o seguro de vida pelo jogador. Após a fatalidade, um imbróglio judicial entre os clubes durou até 2007. Tudo isso para que fosse definido qual dos clubes - que utilizaram dos serviços do jogador - pagaria pelo que de direito cabia à família. Coube ao Cruz-Maltino pagar.

As relações foram muitas vezes tensas, mas o acordo começou a ser pago. Tudo, então, se agravou em 2008, com a mudança de gestão. Um novo acordo foi, então feito. E igualmente descumprido.

- O Eurico (Miranda) só reconheceu a dívida depois que a justiça determinou. Eu tinha ido até o Rio, falei com ele e depois ele fingia que não me conhecia. A Justiça determinou e ele pagava certinho. Ele saiu e entrou o Roberto Dinamite. Achávamos que iria melhorar, mas só piorou. E cada dia que passava piorava mais - lamenta.

Luciana diz que a saudade é diária (Foto: arquivo pessoal)

Todo ano, a proximidade desta data e o tamanho da história que Dener deixou fazem com que Luciana seja muito procurada. Ela, porém, lembra que a dor da perda de alguém que é muito mais que um ídolo nacional:

- Todo dia 19 de abril é mais um ano. A gente está longe, mas já teve o primeiro, o segundo ano. É sempre difícil. Não porque ela era um ídolo. Ele era também meu marido, meu primeiro namorado. A gente sente todo dia. Foi tudo muito rápido. Acredito que cada um tem seu destino, mas eu acho que ele se foi muito rapido - lembra.

O casamento com Dener gerou três filhos à família e, obviamente, o caminho do futebol foi sonho de Deniz, que hoje tem 24 anos, Felipe, que está com 21, e Matheus Dener, de 20 (que recebeu o nome do pai a pedido da avó paterna). Mas os três desistiram de seguir a carreira do pai devido às comparações:

- Os três tentaram, mas as comparações fizeram com que eles desistissem do futebol. Cada um tem um jeito, mas o Felipe eu acho que joga mais bola. Ele parece mesmo com o pai. O Felipe e Deniz jogavam como atacantes e Matheus era lateral-direito - comentou.

Deniz, Felipe e Matheus (Foto: arquivo pessoal)

A perda do companheiro e a falta de consideração por parte dos dirigentes dos clube fizeram com que Luciana se afastasse de vez do futebol. Não incentivou os filhos a seguirem no meio e hoje agradece por eles estarem retomando a vida de estudos (a partir do segundo semestre, vão prestar vestibular):

- Não estou nem aí para futebol. Graças a Deus meus filhos também não querem mais saber. Deus me livre que acontecesse alguma coisa e a família ficasse como ficou lá atrás. Eu prefiro. Eles que decidiram tentar a vida no futebol e eles mesmos descobriram a sacanagem que existe dentro do futebol. Eles mesmos viram. Sentiram na pele. Não querem saber - afirma.

O sentimento é forte. Ela vai além para descrever o que restou de pessoas até hoje importantes em clubes que marcaram Dener.

- Meus filhos amam futebol, mas odeiam quem dirige. Eu também não gosto de ninguém na Portuguesa, não gosto do Eurico, e do Roberto Dinamite, então, eu não posso nem ouvir falar. "Tudo sem vergonha". Ele (Dinamite) dizia que era amigo do Dener... - lembrou.