icons.title signature.placeholder Guilherme Cardoso
10/03/2014
07:01

Imagine uma criança de 11, 12 anos no meio de um tiroteio na Rocinha, uma das maiores favelas do Rio de Janeiro, à noite, durante uma disputa entre facções pelo domínio do tráfico de drogas no local. Isso aconteceu com o tenista Fabiano de Paula, que nesta segunda-feira faz sua estreia em torneios com o time nacional nos Jogos Sul-Americanos do Chile, em Santiago.

Atualmente com 25 anos, o brasileiro viveu a vida inteira na Rocinha. E o ocorrido quando era mais jovem não sai de sua cabeça.

– Fiquei preso no meio da guerra. Um chefe do tráfico tentou tomar de volta o poder. Eu tinha acabado de chegar do trabalho à noite. Fui pego de surpresa e fiquei no meio do tiroteio. Sai correndo e achei que iria morrer. Entrei em um bar e só sai no outro dia de manhã – afirmou o tenista LANCE!Net.

– Só pensava em querer me esconder. Pensava na minha mãe se acontecesse algo comigo. Não tem como evitar. Não sabia para onde ir. Um tempo depois do ocorrido, continuei ouvindo tiros, lembrando daquelas cenas – completou.

Na época, Fabiano já trabalhava como pegador de bolas de tênis em um clube da cidade. Alguns anos depois, passou a receber uma ajuda de alguns empresários e entrou no projeto Tennis Route, no Rio.

Mas após ser campeão brasileiro aos 18 anos, a falta de patrocínio e um imprevisto atrapalharam. Depois de perder a data do alistamento militar obrigatório, precisou entrar no exército a contragosto.

– Fui meio garotão, vacilei. Fui na ideia de um conhecido de não ir na data prevista e acabou ser tornando obrigatório. Mas aprendi muitas coisas, como ter responsabilidade e me preocupar mais com o próximo – declarou o atleta.

Mas essas não foram as únicas dificuldades. Ano passado, o tenista teve uma ruptura na cartilagem do punho e ficou quatro meses parado. Agora, está recuperado.

Fabiano ainda mora na Rocinha com os pais. Apesar da diminuição da violência, o local ainda é inseguro. Mas ele vê o tênis como uma forma de melhorar a carreira e ajudar a família. Não custa nada sonhar.

Equatoriano é o rival na estreia

Fabiano de Paula já conhece seu adversário na estreia nos Jogos Sul-Americanos, hoje, em Santiago. O brasileiro vai ter pela frente o equatoriano Gonzalo Escobar (659º) na primeira rodada do torneio.

– O torneio está bem duro. Tem o Rogério (Dutra Silva, o Rogerinho), que jogou o Aberto dos Estados Unidos no ano passado, os argentinos, que estão bem. E também existem outros países que têm jogadores duros. Mas minha motivação está la em cima. Esfoço não vai faltar – afirmou o tenista.

Como citou Fabiano, Rogerinho é o principal tenista do Brasil na competição deste ano. Atual número 145 do ranking da ATP, ele até já chegou a ser o principal competidor do país. Atualmente, é o terceiro.

Vice-campeão no Pan-Americano de Guadalajara (MEX), em 2011, o atleta vai ter pela frente o argentino Pedro Cachin (490º). Bruno Henrique Santanna é o outro representante brasileiro na competição.

QUEM É O TENISTA:

Nome:
Fabiano Batista de Paula

Idade e nascimento:
Está com 25 anos e nasceu em 28/11/1988, no Rio de Janeiro (RJ)

Altura e peso:
1,78m e 82kg

Posição no ranking da ATP:
429 (já chegou a alcançar o 212 posto, em 27 de maio do ano passado.

Premiações:
Segundo informações do site da ATP, o tenista brasileiro tem como premiação na carreira até o momento US$ 86.910 (cerca de R$ 205 mil em valores atuais).

CONFIRA UM BATE-BOLA COM FABIANO DE PAULA:

LANCE!Net: Os Jogos Sul-Americanos é seu primeiro torneio pelo Brasil. Como tem sido a experiência?
Fabiano de Paula: Não tenho nem palavras para descrever essa experiência. É muito bom poder vivenciar o que os atletas sentem nas Olimpíadas, o dia do desfile. É uma experiência nova. Não se compara com nenhuma outra que eu já tive.

L!Net: Você nunca disputou torneios da ATP. Como está sua carreira hoje?
FP: Ano passado, disputei alguns Challengers, mas no fim do ano machuquei o punho. Até quando corria, doía. Quatro médicos diziam que tinha de operar. Mas não davam 100% de chance de recuperar. Foi um momento difícil, a gente pensa em tudo de ruim, que poderia estar jogando. Espero que esse seja o primeiro de muitos torneios.

L!Net: Você ainda mora na Rocinha?
FP: Moro na Rocinha, mas de segunda a sexta fico no Recreio no projeto da Tennis Route. Faço faculdade de marketing também. Então, meu dia é corrido. Treino o dia interio e à noite tem a faculdade. Estou no terceiro semestre. Queria fazer Educação Física, mas não tem como conseguir estudar à distância.

L!Net: Dá para viver só do tênis?
FP: Atualmente, tenho ajuda da Confederação, da Tennis Route e da Estácio, onde faço faculdade. Mas viver de tênis não consigo. Dá para ajudar a sustentar minha família um pouco, mas falta patrocínio. Então. não tem tranquilidade.

L!Net: Quando era mais jovem, chegaram a oferecer drogas favela? Poderia ter seguido outro caminho?
FP: Lá era super aberto. Então, o acesso às coisas tinha o tempo todo, Mas sempre me me foquei em trabalhar e dar um futuro melhor à minha família. Você escolhe seu caminho, não é forçado a nada.

*O repórter viaja a convite do COB