icons.title signature.placeholder Jonas Moura
03/02/2015
08:07

Rafaela Silva é uma judoca abusada, mas no melhor sentido da palavra. A definição é de ninguém menos que Rosicleia Campos, técnica da Seleção feminina e uma das maiores incentivadoras da carioca de 22 anos. É com esse estímulo que a primeira brasileira campeã mundial da modalidade (2013) tem vivido as últimas semanas em Saquarema (RJ), onde a elite do judô treina até sábado. E ela tem uma grande vantagem até lá.

Embora o evento conte com nomes de peso em todas as categorias, pode-se dizer que nenhuma apresenta nível tão alto quanto a peso leve feminino (57 kg). Isso porque as quatro melhores colocadas no ranking da Federação Internacional de Judô (FIJ) vêm tendo a chance rara de treinar umas contra as outras.

Rafaela ocupa a quarta colocação na lista. À frente dela, estão a francesa Automne Pavia (em 1º), a portuguesa Telma Monteiro (2º) e a alemã Miryam Roper (3º). Fora a americana Marti Malloy (6º), derrotada pela brasileira na final do Mundial de 2013, no Maracanãzinho (RJ). Todas estão em Saquarema nesses dias.

– Minha categoria é muito disputada. Se pegar uma menina que esteja tanto em nono como em 100º, vai ter trabalho. Sempre tem uma nova, desconhecida, que acaba surpreendendo. E, com as mais velhas, o nível está muito alto – disse Rafaela ao LANCE!Net.

Se os Jogos Olímpicos acontecessem hoje, ela já estaria classificada (as 12 primeiras garantem vaga). E, diferentemente do discurso comum entre muitos atletas, a carioca não esconde a ansiedade. Mas sabe que tem margem para evoluir. Ano passado, perdeu a disputa pelo bronze no Mundial de Chelyabinsk (RUS) e ficou em quinto. Para Rosicleia, o resultado ligou o alerta a tempo.

– Acho a derrota boa. Aprendemos mais com ela do que com a vitória. Imagina se ela tivesse sido bicampeã mundial ano passado? Ia achar que estava tudo bem. Então, ligou o alerta vermelho. Tinha alguma coisa errada. Ela precisa de desafios. Tem de se sentir desafiada o tempo inteiro, e nós temos de criar métodos para estimular. Ela é abusada, precisa disso – disse a técnica.

Quem não teve a mesma sorte de Rafaela foi Rafael Silva (+100kg). Principal oponente do brasileiro, o heptacampeão mundial Teddy Riner (FRA) deixou o Rio quinta-feira por conta de uma lesão no cotovelo.

Com Mundial à vista, meta é ir além das quatro láureas

O treinamento de campo em Saquarema acontece no Centro de Treinamento da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) e é uma das ações da Confederação Brasileira de Judô (CBJ) visando a um rendimento melhor do país em comparação com o Mundial de 2014, em Chelyabinsk (RUS). Em 2015, a Seleção vai tentar superar a última marca na cidade de Astana, no Cazaquistão, entre os dias 24 e 30 de agosto.

Ano passado, a CBJ traçou uma meta ousada de obter nove láureas, mas não passou de quatro. Só Érika Miranda (52 kg/bronze), Mayra Aguiar (78kg/ouro), Maria Suelen Altheman (+78 kg/prata) e Rafael Silva (+100 kg/bronze) foram ao pódio.

– Temos cinco categorias dando bons resultados nos últimos três anos. Ligeiro (48 kg), meio-leve (52 kg) , leve (57 kg), meio-pesado (78 kg) e pesado (+78 kg). O objetivo é fazermos com que o meio médio e o médio cheguem perto. Fiquem entre as 15, 10 primeiras do ranking – explicou Rosicleia Campos, técnica da Seleção Brasileira feminina de judô.

O próximo desafio do Brasil será o Grand Prix de Dusseldorf (ALE), que acontece entre 20 e 22 de fevereiro.

BATE-BOLA

Rafaela Silva, judoca da categoria peso leve (até 57kg), ao L!Net

Acredita que esse treinamento internacional em Saquarema é uma chance única para você na preparação para a Olimpíada?
Nós viemos de um treino na Áustria, há poucas semanas, mas o nível na minha categoria não era tão alto como está sendo aqui. Sem contar o clima de 15º C negativos. No calor, no nosso ambiente, é bem melhor para treinar.

Além das estrangeiras, o que está achando de treinar com outras brasileiras mais novas?
Pegamos às vezes as mais novinhas e com elas podemos soltar nossos golpes. Elas vão aprendendo a movimentação. Esse contato é importante. Na minha categoria, tem a Tamires (Silva), que entrou no afim do ano passado, a Jéssica Pereira... meninas bem fortes.

Apesar de a Seleção ter um Mundial pela frente este ano, a Olimpíada já começa a passar pela cabeça?
Pensamos na Olimpíada durante o ciclo inteiro. Cada competição você sabe que tem que marcar o ponto, estar bem ranqueado para os Jogos. Não tenho problema com pressão de ser em casa. Já teve etapa de Grand Slam e Mundial no Rio, e a torcida me ajudou bastante.

Em 2013 você sofreu um pouco com o assédio da imprensa. Está preparada para isso em 2016?
Aquele foi um ano diferente, porque eu vinha de uma derrota na Olimpíada. Tinha subido de categoria, mas resolvi voltar para a de até 57kg. Voltei uma competição antes do Mundial. Falei "sou 57kg". Ganhei e foi de uma hora para outra. Os repórteres começaram a me cercar e olhar mais. Só às vezes que pegam a gente na hora do descanso, que ficamos meio molezinhas (risos). Mas, fora isso, já estou acostumada.