icons.title signature.placeholder Bruno Cassucci
18/02/2015
07:08

Nem tão formal e ortodoxo como um executivo, nem tão arcaico e irreverente como um cartola à moda antiga. Assim é Dagoberto Santos, principal responsável pelo futebol do Peixe desde janeiro. Ele foi o escolhido pelo presidente Modesto Roma Júnior para o cargo de CEO (sigla em inglês que, em livre tradução, significa diretor-executivo), tendo que chefiar todas as áreas do clube, mas tem deixado as questões administrativas em segundo plano para se dedicar à bola. A justificativa para isso é de que nada funcionará se o time não vencer. Mas esse não é o único motivo.

Bastam alguns minutos de conversa com Dagoberto para perceber o entusiasmo do dirigente em trabalhar no futebol. Apesar da vasta experiência no mercado financeiro, ele não esconde que prefere muito mais vestiários, concentrações, treinos e jogos do que planilhas, gráficos e cálculos.

– Gosto da adrenalina do futebol. Não só no campo, mas a de sentar nessa cadeira também – conta.

Como um dirigente à moda antiga, ele faz questão de visitar o vestiário, assistir aos treinos e diz que práticas antigas, como o pagamento de bichos no vestiário, ainda têm espaço hoje em dia. Por outro lado, também adota discurso moderno ao pregar a governança corporativas nos clubes e o uso de tecnologia na análise de atletas, por exemplo.

Nesta entrevista ao LANCE!Net ele falou sobre o início desta segunda passagem pelo Santos, seus métodos de trabalho e também o que planeja para o futuro do clube. Confira:

Dentre todos os problemas enfrentados nesse início de trabalho, qual foi o mais difícil?
O ambiente era de muita tensão pelo momento. Além disso, tínhamos muitas dúvidas. Por exemplo, se mais jogadores estavam dispostos a ir à Justiça. Tínhamos que estancar aquela hemorragia, preservar o grupo e reforçar o time. Tudo isso acontecendo ao mesmo tempo. Estabelecemos uma hierarquia de prioridades. Foi um desafio para quem tem cabelo branco, qualquer iniciante iria se apavorar.

E o que mais te deu prazer?
Montar o time da forma que foi feito, sem perder qualidade técnica. E reverter o clima. Hoje sinto que o Santos é um grupo de atletas motivados, saudável, leve. Essa foi a grande mudança em relação aquilo que encontrei em um trabalho de pouco mais de 40 dias. Teve também a ação de deixar os salários em dia, nada era mais prioritário que isso, e conseguimos. Foi um “approach” bem forte, quase uma ação heróica mesmo.

Você é responsável por todas as áreas, mas tem focado mais no futebol. Por que isso?
Acompanho de perto. No futebol, em alguns momentos você não pode delegar tarefas. Durante a tempestade, tem que puxar para você o controle e depois ir delegando. Eu trouxe para mim o problema e fui buscar a solução o mais rápido possível, usando a experiência que eu já tinha de outros clubes e do meio do futebol. Faço futebol estando no CT, não na Vila Belmiro. Estou com o técnico, almoço com ele, assisto treino, participo de concentração, vivo preleção, vou ao vestiário... Isso para mim é fazer futebol. Fora isso, não.

Mas e as outras áreas?
Fui buscar profissionais da mais alta qualidade para poder ocupar funções nas quais eu saberia que minha presença seria menor. Sabia que no primeiro momento teria que estar mais próximo ao futebol, o envolvimento era maior. Tudo acontece no futebol, não tem jeito. Você pode fazer um plano de saneamento fantástico, mas se a bola não entrar, sua gestão vai ser carimbada como sem sucesso. Somos um clube de futebol, essa é a atividade fim. Administração, finanças e outras são atividades meio. Tem que fazer isso aqui funcionar. Mesmo assim, tenho estado diariamente na Vila.

Uma palavra muito repetida pelos executivos de futebol recentemente é autonomia. Você recebeu isso do Modesto?
Sim, mas eu não tomo decisão sozinho. As decisões têm de ser rápidas, senão acaba atrapalhando o negócio, mas tenho um canal com o Modesto, o próprio vice (César) Conforti, com membros do Conselho Gestor. Eu trago o problema, negocio, mas não gosto de tomar decisões sozinho. Nem devo! Também não tomo decisão sem ver o caixa. Esse talvez seja um pouco do meu diferencial em relação a outros dirigentes. Muitos deles foram formados no futebol, enquanto eu vim da área financeira administrativa. Trago o negócio futebol, não gasto mais do que arrecado, vejo como está o caixa, se posso pagar aquilo que estou oferecendo ao jogador... Já vou com a cartilha bem-feitinha.

É possível uma única pessoa se responsabilizar por todas as áreas do clube? Até ano passado o seu cargo não existia.
Estou lidando bem, pois já havia feito essa função no Atlético-PR. Fico feliz em ver que os CEO’s estão sendo colocados no mercado do futebol. O importante é você saber delegar para gente competente e de confiança. Se souber fazer isso, o resto é só cobrar.

É necessário entender de futebol para ocupar o seu cargo, ou basta saber de negociação, finanças, legislação...?
Sou da seguinte filosofia: todo presidente de clube deveria ter sido um dia diretor de futebol. Você precisa entender a lógica, saber como as coisas acontecem. Futebol é a arte do imponderável. Você precisa já ter entrado em um vestiário, conhecer o ambiente dos jogadores, já ter feito uma negociação com empresários... Essa experiência enrique muito o presidente, que começa a olhar o futebol com outra ótica, não só como torcedor. Ser diretor de futebol não é assunto para amador nem aventureiro. O cara tem que ter formação acadêmica, é claro, e muito mais que o conhecimento: tem que ter experiência! Não precisa ser um técnico, mas é necessário vivência, saber perceber se o ambiente está bom ou ruim, se tem atleta descontente... E, assim, poder agir de forma preventiva contra crises.

Você demonstra gostar do dia a dia do futebol. É por aí?
Gosto de sentir o clima, falar com o técnico. Ele quer sentir a opinião da diretoria também, saber como é avaliado... E eu dou esse feedback.

Mesmo quando é negativo?
Não teria nenhum problema de fazer isso. Tudo que venhamos a fazer é no sentido de tentar ajudar, contribuir. O técnico tem que entender como a diretoria vê o trabalho dele.

Você faz sugestões ou dá ordens quanto a escalação?
Eu tenho minha opinião e dou, mas não faço nenhum tipo de interferência.

Fala-se muito hoje em dia sobre gestão profissional. Você ainda vê espaço para práticas antigas, como pagamento de bicho em dinheiro no vestiário?
Por incrível que pareça, tem. A pedido dos jogadores. Eles pedem. E tem um efeito positivo, acredite.

Você vem do mercado financeiro. Qual sua formação no futebol?
Faz 20 anos que entrei nesse mercado. Tenho minha empresa voltada para assuntos do futebol, como gestão, escolinhas, lei de incentivo... Tenho também alguns cases de sucesso, o próprio Santos foi o primeiro. Fiquei oito anos aqui, foi uma escola para mim. Fui para o Clube dos 13, lá convivi com todos os presidentes de clube, tinha contato diário com Eurico Miranda, Fernando Carvalho, Fabio Koff, Dualibi, Mustafá... é muito rico isso. A experiência deles, a forma de atuarem, para o bem e para o mal, você agrega valor ao conhecê-los e ver a maneira como eles pensam e agem. Isso é importante, mesmo que eu não concorde. Ainda atuei na implementação da Lei Pelé e montei o o Atlético-PR que subiu à Série A.

Sem arena e patrocínio master, e ganhando menos da Globo, o Santos não fica muito atrás de seus rivais? A disputa é desleal?
Essa é uma preocupação que tenho, de uma possível espanholização entre Flamengo e Corinthians. Mas uso o seguinte critério: o que é mais importante, o jogo ou o jogador? Você tem que definir o seu jogo e treinar, treinar e treinar. Depois vai buscar jogadores que se encaixam nesse jogo. Ai terá um time competitivo porque tem jogo bem treinado e uma preparação física que pode ser o diferencial. Assim, não precisa de um artista em cada posição.

É você ou o técnico quem define esse estilo de jogo a ser usado?
O torcedor. O time tem que ter a cara de jogo do torcedor, não é a cara do técnico, do dirigente, do presidente...Aqui é o futebol ofensivo, é isso que buscamos sempre!

E quando acha que o time terá isso?
Depois que eu contratar um jogador: o nome dele é entrosamento. O time tem que dar liga, tenho jgoadores que ainda não estão em atividade. Claro que estamos disputando o Paulista para ganhar, mas também serve como laboratório para ver como vamos nos preparar para o Campeonato Brasileiro.

Acha que o Santos pode brigar de igual para igual com os rivais?
Apostamos que sim e temos tido resultados interessantes, o time está se encaixando, temos dois atletas por posição, estamos utilizando a base, que é tradição do Santos e temos que fazer o time ter liga, se entrosar e ter resultado em campo. Estou pondo fé de que não é preciso fazer grande investimento e depois ficar na dependência de um craque. A primeira palavra do Santos hoje é saneamento. Antes de contratar dois, três jogadores, tem que ver a situação financeira. Não fazemos loucura. Nossa prioridade é resolver o problema estrutural e financeiro que o clube tem, mas nunca vamos abandonar o futebol, que é nosso carro chefe.