icons.title signature.placeholder Leo Burlá
29/06/2014
07:47


No dia em que o Brasil teve de se reinventar para conseguir avançar às oitavas de final, os índios da Reserva Pataxó da Jaqueira, em Porto Seguro, puderam descobrir como é o gosto de uma grande vitória brasileira em Copas do Mundo.

No marco zero da chegada dos portugueses ao país, os 80 habitantes da reserva estão vendo o Mundial pela primeira vez em uma televisão. O presente foi uma oferta dos empresários responsáveis por erguer o Campo de Treinamento de Seleções que está sendo utilizado pela Alemanha em Cabrália, município a 22 quilômetros de distância. Até o torneio passado, um rádio de pilha era o único elo entre a aldeia e a Seleção.

Entre travessas com ostras frescas e paçoca de mandioca, os Pataxós saborearam, enfim, uma partida em casa. Se de início o silêncio em nada sugeria que o Brasil disputava sua vida na Copa, o tom foi subindo à medida que o drama da equipe de Luiz Felipe Scolari crescia.

Incenso é usado  para abrir os caminhos da Seleção (Leo Burlá)


Para abrir a porta do gol chileno, Nitinawã Pataxó defumou com incenso a área do aparelho, mas a estratégia não foi o bastante até o juiz apitar o final da prorrogação. Enquanto a televisão mostrava Neymar & cia. se preparando para a disputa de pênaltis, o jovem Syratã começou a entoar cânticos no dialeto Patxôhã. A convocação logo ganhou adeptos, que formaram um círculo e aumentaram o volume dos cantos indígenas com seus chocalhos e sons que remetem aos pássaros.

Na decisão por pênaltis, toda a tribo parou o que estava fazendo para assistir. Explosão nos gols e nas defesas de Julio Cesar, e lamentos nos pênaltis desperdiçados por Willian e Hulk. O alívio só veio mesmo quando Jara carimbou a trave esquerda.

Com o conhecimento de causa de quem descende dos primeiros habitantes desta terra, o índio Aderno desabafou:

- Esse Brasil só faz a gente sofrer mesmo.

Pelada de sábado reprogramada

A chegada da televisão na Reserva Pataxó de Jaqueira pode ter demorado, mas o futebol por lá já é hábito antigo. Todos os sábados, uma área com traves de madeira é palco de peladas que só acabam quando o sol vai embora. Mas por conta do duelo diante dos chilenos a bola ontem só rolou após o Brasil carimbar sua classificação.

Geralmente, os pataxós recebem a visita de peladeiros de aldeias vizinhas ou jogam apenas entre eles. As partidas são disputadas com cinco na linha e um no gol, e o time que vencer o jogo vai ficando até ser desbancado.

É consenso na tribo que Syratã Pataxó é o craque local. Ele defendeu a seleção de Porto Seguro que foi vice-campeã do Intermunicipal. O sonho com uma carreira no esporte, no entanto, não está na mira do jovem de 25 anos:

- Seria legal que um índio jogasse na Seleção Brasileira, eu não me recordo de nenhum que tenha feito História, mas não dá mais para mim.

Com a palavra

Syratã Pataxó, professor do o dialeto Patxôhã na escola da reserva

'O futebol sempre foi uma paixão grande para nós'

O futebol sempre foi ua paixão muito grande para nós aqui na tribo. A Copa do Mundo ficou mais gostosa de ser vista com a televisão, sem dúvida nenhuma. Na última Copa, o radinho falhou justamente na hora do gol. Aí ficamos sem saber se tinha sido do Brasil ou da Holanda. O futebol é um dos esportes que disputamos nas Olimpíadas Indígenas, assim como a luta e o arco e flecha.

Mas apesar de gostarmos do jogo, acima de tudo está a nossa responsabilidade em perpetuar nossa cultura, que é o que temos tentado fazer aqui na reserva. Praticamente toda a tribo consegue se comunicar no dialeto Patxôhã, e estamos fazendo um trabalho de resgate e perpetuação da nossa história a partir de depoimentos dos anciãos. Eles transmitem oralmente o que conhecem e o que sabem, e nós vamos repassando o conhecimento e catalogando tudo.