icons.title signature.placeholder Raphael Martins
18/03/2014
12:00

O maior obstáculo para combater a violência no futebol argentino está, justamente, em quem deveria trabalhar para erradicá-la. Com o passar das décadas, o poder dos barras-bravas saiu das arquibancadas e das cercanias dos estádios e foi parar dentro de delegacias, dos gabinetes do poder público e dos sindicatos.

- Existe uma tolerância do estado, um encobrimento claro das ações criminosas desses grupos. Leis não faltam, porém o estado, que deveria cuidar deste tema, simplesmente fecha os olhos. Muitos torcedores violentos possuem ligações com partidos políticos, com sindicatos, com gente do poder. Isso é uma relação de troca de interesses - disse ao LANCE!Net o advogado Mariano Berges, ex-juiz federal e que por 11 anos trabalhou em casos ligados à violência no futebol argentino. Ele é vice-presidente da ONG Salvemos el Fútbol.

Um dos casos recentes que explicita tal relação promíscua ocorreu em 13 de outubro do ano passado. Fernando Morales López, ex-chefe da barra-brava do Colegiales, clube da Terceira Divisão do futebol argentino, foi morto com uma rajada de balas na localidade de Vicente López, na Grande Buenos Aires. Os detidos, suspeitos de participarem do crime, foram Alejandro Aranda, conhecido como Harry, e Martín Cabrera, apelidado como Negro Martín.

Segundo o presidente do Colegiales, que foi candidato a vereador em Vicente López, Rodrigo González, os acusados estavam a bordo de um carro do governo municipal quando fizeram os disparos. Tanto Harry quanto Negro Martín haviam sido expulsos da barra-brava e se vingaram.

- Os que atacaram Morales funcionam como espécie de força de choque de César Torres (secretário de Governo de Vicente López). No momento do enfrentamento estavam em uma caminhonete do município - disse Rodrigo González, em dezembro passado, ao diário "La Nación".

Barras na Copa do Mundo

Tão danosas são as relações dos dirigentes com tais grupos. Na última semana, a imprensa argentina divulgou que a Associação do Futebol Argentino (AFA) havia oferecido 682 entradas de cortesia para que os barras-bravas pudessem vir ao Brasil acompanhar a Copa do Mundo. A entidade teria ainda disponíveis cerca e 3.500 ingressos para cada jogo da Argentina no Mundial. Assim que o assunto veio à tona, os dirigentes se apressaram em desmentir a informação.

- A AFA não possui nenhuma relação com este tipo de gente. Apenas a Fifa pode conceder ingressos às pessoas físicas, a AFA não faz este tipo de repasse. Essas informações são totalmente falsas - disse Cherquis Bialo, porta-voz da entidade, ao LANCE!Net.

Relação esta contestada pelo advogado Mariano Berges. Segundo ele, o assunto é bastante preocupante.

- Há um problema quanto à proximidade entre os dois países, e também quanto à flexibilidade no controle de fronteiras. O Brasil deve exigir as listas oficiais daqueles torcedores que não podem entrar nos estádios argentinos. O controle de documentação deve passar a ser mais rígido pois, aqui na Argentina, uma pessoa só não perde sua livre circulação caso tenha uma ordem de captura contra si - explicou o advogado.

Não raro, a presença deste tipo de torcedor causa resultados trágicos. Durante a Copa de 2010, na África do Sul, um torcedor do Boca Juniors morreu durante um confronto com a torcida do Independiente. Luis Alberto Forlenza tinha 57 anos, foi vítima de um ataque cardíaco durante a briga. Ele tentava impedir que a barra do clube rival roubasse uma das bandeiras da organizada xeneize. Na ocasião, 29 torcedores argentinos foram deportados. 

Apesar disso, a logística já está montanda para que venham ao Brasil. Os barras se armam em torno de sua ONG, chamada Hinchadas Unidas Argentinas (HUA). Financiada por políticos, empresários e sindicalistas, o grupo contará em território brasileiro com o apoio da Guarda Popular. O grupo é uma das organizadas do Internacional.

- Há tempos estamos trabalhando para alojar nossos colegas argentinos aqui. Já temos lugares disponíveis para 300 que confirmaram sua vinda, e podemos receber até 500 pessoas - disse Jorge Martins, chefe da Guarda Popular, ao diário "Olé".

Outra preocupação é quanto ao fato de 30 mil torcedores chilenos, conhecidos como "ultras", que atravessarão o território argentino a caminho do Brasil. O temor é que haja confronto entre os ultras e os barras-bravas.

Escândalo derrubou dirigente

Contundente também foi a declaração do atual presidente do River Plate, Rodolfo D’Onofrio, ao afirmar que é impossível coibir o acesso os barras-bravas ao clube.

- Se caminham pelo clube, é porque são sócios e não estão na lista de impedidos de freqüentar os estádios. Não podemos discriminá-los, enquanto não cometam um ato que os impeçam de freqüentar os estádios ou o clube – afirmou o mandatário à agência Télam.

Em dezembro do ano passado, o ex-presidente do clube, Daniel Passarella, teve sua prisão decretada após escutas telefônicas comprovarem sua ligação com os "Borrachos del Tablón". A diretoria do River negociava com a principal barra-brava do clube o repasse de ingressos de sócios que não iam aos jogos com frequência. Um pen drive com os nomes de 10 mil sócios, a maioria do interior, era entregue à torcida organizada. Segundo as investigações, o esquema já havia movimentado 500 mil pesos (cerca de R$ 148 mil).

- Como jogador, Passarella foi brilhante. Porém, como dirigente, foi um delinquente. Foi uma grande decepção para o sócio que acreditou nele. O caso comprovou ser um grande negócio, que ocorre em outros clubes. Vemos muitos dirigentes na Argentina que chegam à presidência pobres e depois saem ricos, deixando os clubes à bancarrota - afirmou Berges.