icons.title signature.placeholder Carlos Alberto Vieira
23/06/2014
11:34

Yasmin e Lukas, adolescentes de 15 anos, estiveram neste domingo na Arena da Amazônia. Viveram um dia para não esquecer. Filhos de catadores de resíduos, foram selecionados como integrantes de um grupo de 12 que entraram com as bandeiras das seleções de Portugal e Estados Unidos. E não estavam sozinhos.


- Eles nos enchem de orgulho. Pois também nós estamos sendo representados e vistos por milhões de pessoas - disse Irineide,
tia de Lukas.


Ela, assim como outros sete parentes do garoto, estava trabalhando como catadora dentro do estádio e não viu o momento mágico de Lukas: é proibido catador (e qualquer funcionário não credenciado) ficar nos corredores  de acesso às cadeiras.


- Não deu para ver meu menino. Mas isso dá uma emoção danada - diz dona Nira, mãe de Lukas. Catadora há seis anos, ela tem outros quatro filhos. Dois, Shayenne e Sarah estavam com ela no segundo andar do estádio pegando os sacos de lixo e colocando no carrinho de recolhimento.


Nira também tem dois filhos adotivos. O último, Gabriel, ela "pegou" de uma moça que foi ao lixão perguntar se alguém o queria de presente, pois não tinha como cuidar. Hoje Gabriel tem oito anos. Viu o irmão levar a bandeira na TV de casa.


- Meu irmão é meu herói - disse Gabriel, o caçulinha da família numerosa e guerreira.

O pai, Elemir, sabia que não teria como ver o filho. Trabalhou do lado de fora do estádio. Mas estava emocionado por ver Lukas  em um evento internacional e toda a  simbologia que isso transmitia:

- Quem diiria. Não tem muito tempo e nós éramos tratados como mendigos. Hoje somos vistos como profissionais, temos apoio de empresas e  convidados para participar de uma Copa. Conseguimos muita coisa e o Lukas representa isso.


De manhã, Yasmin e Lukas foram pegos em casa, no bairro Jorge Teixeira, na periferia de Manaus pelos patrocinadores. Foram se concentrar no hotel Tropical, o mais exclusivo do Amazonas. Lá se hospedou o xeque do Qatar que viu o jogo da Inglaterra. Lá ficam todos os artistas que se apresentam na cidade. Lukas e Yasmin nem sabiam, mas por eles passava o presidente da OI, o português Zeinal Bava, que iria conhecer o Rio Negro passeando por um veleiro boutique que zarparia do cais exclusivo do hotel.

Lukas era só timidez. tirar alguma coisa dele, que é bom de bola e gosta do Vasco, era difícil. Yasmin era bem mais falante.


- Vou guardar esse dia para a história. Tomara que a minha mãe consiga me ver - torcia, enquanto brincava com um tablet no salão onde também estavam se concentrando os gandulas do jogo.

A mãe, Suellen, e a avó, Niza, diziam que dariam um jeito para, na hora, da festa, darem uma espiada.


- Vou gritar igual aos torcedores, depois volto para reciclar - dizia Niza, simpática senhora de seus 60 anos.


Enfim, os garotos entraram. Quase nenhum parente viu. Sarah salvou a pátria ao dar um jeitinho de tirar uma foto.

- Mas foi muito de longe - lamentou Nira, que espera agora que algum fotógrafo da Fifa, dos patrocinadores ou da imprensa tenha como dar a ela um registro. O jogo rolou. E a vida continua para todos. Mas o momento mágico vai ser lembrado como o legado que a Copa deu para a história de cada um deles.