icons.title signature.placeholder Fellipe Lucena e Thiago Ferri
27/11/2014
08:01

– Eles podem não concordar, mas entendem – diz Paulo Nobre, ao contar a reação dos sócios do clube durante as reuniões semanais que ele tem promovido para expor suas propostas antes da eleição presidencial do próximo sábado.

Há quase dois anos no cargo, Nobre acumulou medidas impopulares, mas para todas o atual presidente tem uma justificativa. Ele diz que não está na função para agradar ninguém, só quer deixar o clube melhor do que quando foi eleito pela primeira vez, no início de 2013.

Durante cerca de uma hora, o dirigente recebeu a reportagem do LANCE!Net em sua sala na Academia de Futebol, e explicou por que deve ser reeleito. Neste papo, o mandatário apresenta os planos para o próximo biênio, fala de erros na montagem do time nos últimos dois anos, do seu relacionamento com as organizadas, rompido desde o início da gestão, e se aceita fazer um acordo para encerrar a disputa na arbitragem com a WTorre:

Paulo Nobre, durante entrevista para a reportagem do LANCE!Net (Foto: Reginaldo Castro/LANCE!Press)

Por que o sócio deve votar em você, que já disse não ter ficado satisfeito como torcedor com a sua primeira gestão?
Torcedor não tem compromisso com a administração. Ele avalia se foi campeão ou não, se a bola entrou ou não. Mas isto não reflete tudo que você faz. Por que me sinto no direito de pedir mais dois anos ao eleitor? Porque a gente tem de ver de onde a gente partiu e onde estamos hoje. E as perspectivas são melhores.

Qual a avaliação dos feitos nos primeiros dois anos no clube?
Iniciar um trabalho do zero é difícil. Do negativo, e bem negativo, é muito complicado. Tudo tem preço, e você não consegue trabalhar com uma varinha de condão, fazendo as coisas acontecerem. Para ter uma árvore, um dia plantou uma semente para colher os frutos. Somando os dois anos, não tive receita para administrar um deles. Não vamos ter de enfrentar isto em 2015. Você tem um horizonte completamente diferente. Fizemos muita obra estrutural no clube. O Palmeiras que vamos entregar é muito melhor do que aquele de janeiro de 2013. Com mais gestões com responsabilidade financeira, mas sem abandonar o carro chefe que é o futebol, o clube vai, de fato, entrar no século XXI.

A montagem do elenco foi criticada. Ter alguém para cuidar do futebol melhorará?
Você monta um elenco para disputar a Série B, sobe com tranquilidade, por méritos do elenco e comissão. Aí troca para qualificar e virar de Série A. Perde a semifinal no Paulista para o Ituano, e tudo que era bom passa a ficar em dúvida. Depois concluímos que o ciclo do Kleina acabou. Vem outro técnico, com filosofia diferente. O Gareca não teve tempo de se adaptar ao futebol brasileiro, veio o Dorival, superambientado com o clube e também com uma filosofia diferente, de trabalhar muito a base. Você tem um elenco que sofreu nestes dois anos, tanto pela Série A e Série B quanto pela troca de técnicos.

Quando você era torcedor e o Palmeiras era goleado, aceitava a justificativa da diretoria de que as finanças estavam boas?
Eu cobrava super resultados, e torcedor tem que cobrar mesmo. Eu lembro de um ano, era janeiro, tinha acabado de ter eleições no Palmeiras, e quem assumiu falou que seria uma gestão pés no chão. Nossa...eu espraguejei a pessoa! Nunca tinha visto o Palmeiras campeão, eu era um adolescente, todos ganhavam. “Eu lá quero saber de pés nos chão? Quero time campeão!” E entendo quem pensa assim, mas as pessoas precisam entender que se o Palmeiras perde por 6 a 0, no dia seguinte as decisões precisam ser tomadas, o clube continua rodando, tem problemas a serem administrados, e você precisa continuar trabalhando. Eu prefiro ser sempre realista do que iludir o torcedor. Responsabilidade financeira é obrigação de todos na vida pessoal, por que não no clube? E isto não invalida de ter um time competitivo.

Para 2015, quais serão as principais dificuldades no clube?
A primeira dificuldade será trazer os jogadores que nos interessarem. Uma vez que eles estejam aqui, você precisa ter fonte de receita para honrar os salários de todos. Não adianta fazer contratações fora da realidade do clube. Precisamos ter respeito pelo profissional. E jogadores de nome não começaram com nome. Essa garotada da base que está subindo vai ter muito nome no futuro e hoje estão ainda se firmando. Precisamos ter olho clínico para trazermos jogadores com competitividade para obter resultado dentro de campo.

As conversas para patrocínio agora estão melhores do que nesta mesma fase do ano, em 2013?
As conversas não eram ruins há um ano, mas a perspectiva este ano é melhor. Tem mais procura. Você procurou mais em 2013, e agora em 2014 muitos também te procuram.

O que são o SAP e o Multiclube?
Está sendo implementado o SAP. É uma ferramenta que tudo fica transparente, não deixa haver “jeitinhos”. É difícil de implementar, pois muda toda a forma de trabalho como as pessoas estão acostumadas, mas é um upgrade. Com o Multiclube, vamos parar de rodar dinheiro dentro do clube. O sócio vai poder pagar suas contas (do clube) dentro do clube com a própria carteirinha. Pode fazer uma carteirinha pré-paga para o filho dentro do clube. Vai ter uma fotografia de quem está no clube no momento, a faixa-etária de quem vai ao clube em qual horário, direcionar horário de atividades. Vai haver um controle muito melhor do sócio que vai ao clube para dar mais qualidade de atendimento a ele. É um mundo completamente diferente para o Palmeiras.

O Palmeiras paga para uma empresa mensalmente para ter este serviço? Já teve diferenças?
Pagamos, mas é administrado internamente. Começou há dois meses, é muito cedo para notar qualquer coisa. Só percebi dificuldades na implementação, o que é natural e bom, pois se está tendo dificuldade, está sendo implementado de fato.

Você emprestou R$ 150 milhões, e o Conselho por enquanto aprovou o pagamento de R$ 104 milhões. Teme que o opositor não pague o restante, caso eleito?
Não acredito, porque a coisa é muito transparente, não fizemos investimentos. Foi para o dia a dia do clube, ficou super-explicado para o Conselho Deliberativo (CD). Era para pagar salário de jogador, porteiro, luz, água, ações que perdíamos. Não acredito que as pessoas achem que foi um mau negócio. Se pegasse este valor em banco, pagaria o principal, mais uns R$ 380 milhões. Deste jeito, é o principal, mais R$ 60 milhões. Uma operação limpa, que todo conselheiro soube entender como foi positivo.

Como está a mudança de estatuto? O que entrará agora?
A comissão que cuida disto deixou bem adiantado. E a gente acredita que no primeiro semestre de 2015 já possa ser votado. Entrará no estatuto a eleição direta – fizemos a mudança estatutária e agora está sendo regulamentado, o tempo que tem para votar e ser votado. Terá algumas mudanças interessantes.

Sócio-torcedor terá direito a voto com esta reforma?
Está sendo discutido, pode ser que entre, ou que tenha mais discussões, mas é um tema que será debatido.

O que muda no Paulo Nobre que assumiu o clube em 2013, e o que tenta se reeleger neste ano?
Basicamente dois anos de árdua experiência. Isto conta muito. Você sentar na cadeira e levá-la a sério, assumir a presidência de fato, te ensina muito. Com certeza sou uma pessoa muito mais preparada hoje, e olha que me preparei muito para ser presidente. Muito você aprende na prática. É como falar a um adolescente não fazer isto ou aquilo. Só na prática ele vai aprender certas coisas. A presidência de certa maneira você aprende muito com a prática.

Estes dois anos na presidência são como seis, sete anos de vida?
Acho que sim. Você tem muitas responsabilidades, e quando é presidente de um clube como o Palmeiras, na verdade você tem a responsabilidade sobre o anseio de milhões de pessoas. Se levar a sério, deixa o cabelo um pouco branco, sim.

Com Palmeiras e WTorre mais próximos, você cogita fazer um acordo e acabar a arbitragem?
Quem sabe? Mas minha relação com o Walter (Torre) não mudou em nem uma vírgula. Não era ruim antes, e nem é excelente hoje. É uma relação institucional e profissional. Nas divergências que eu tenho com ele sobre interpretações do contrato, não adianta sair brigando. Tem um tribunal arbitral justamente para tratar as diferenças. Claro que dialogo, sempre dialoguei com eles, não me furto a isto, agora tem casos que temos interpretações diferentes e aí não tem o fazer.

Não mudou a relação? Houve até ameaças de que o estádio ficaria fechado durante a arbitragem...
Ameaças neste sentido foram feitas, talvez, até como instrumento de pressão, mas como não surtiram nenhum efeito, talvez outro caminho foi tomado. O que precisa ficar claro: o Palmeiras tem muito orgulho do Allianz Parque, mas não vai abrir mão nem um momento sequer de discutir todos os seus direitos. Eu só saio da arbitragem ou encerro esta discussão se o CD ou a assembleia geral de sócios me determinar. Caso contrário, minha obrigação como presidente é defender os interesses da Sociedade Esportiva Palmeiras a todo custo.

Melhorou o diálogo com organizadas? Você foi até na TV Mancha antes da eleição...
Fui convidado a ir na TV Mancha, que atinge grande parte da torcida do Palmeiras. A torcida, uniformizada ou não, tem direito de saber e perguntar coisas para o presidente do clube. Sou um candidato, os outros lá foram, eu acho que tinha a obrigação de ir, também. Minha relação com uniformizadas não é que é ruim, ela não existe. Eu trabalho para o clube do meu coração e do coração deles, e eles torcem. Na arquibancada aplaudem, fazem festa, vaiam, criticam, xingam, estão 100% no direito deles. Só não têm direito de praticar atos de violência contra pessoas ou contra o patrimônio do clube. Só. E minha tarefa: trabalhar incessantemente a favor dos interesses do clube. Até disse a eles que o fato de não ter esta relação é às vezes até mais positivo, porque pode se tornar uma relação promíscua. Eu já fui uniformizado, já carreguei até caixão de presidente. Eu entendo super a ansiedade, a chateação, mas entendo que torcida não pode ser ajudada pelo clube. Precisa de liberdade e independência de poder criticar, vaiar. Se de alguma forma for sustentada pelo clube, perde um pouco este direito. Eu tinha uma diretoria de relacionamento com o torcedor de uma maneira geral, e eles acabaram ficando com um clima ruim com os uniformizados e os dois diretores pediram para não exercer mais esta função. Agora, caso um segundo mandato, vou continuar com esta diretoria para ter uma interlocução com a torcida de maneira geral. O presidente não consegue atender todo o torcedor. Imagina se 16 milhões vêm falar comigo? E por que atender um, e não atender outro?

O que fará se não vencer a eleição no próximo sábado?
Sendo eleito, o que eu acredito que acontecerá, dado a aceitação que sinto do sócio do clube nos bate-papos, penso em janeiro em seguir trabalhando muito pelo clube. Se perder, vou continuar sendo palmeirense como sempre fui.