icons.title signature.placeholder Bruno Grossi
16/04/2014
07:30

A noite desta quarta-feira marcará o início da uma nova era no São Paulo e o fim de uma corrida eleitoral alavancada por Marco Aurélio Cunha em maio do ano passado. O homem forte da oposição não se incomoda em dizer que Carlos Miguel Aidar será o presidente do clube vencendo Kalil Rocha Abdalla, mas nem por isso deixa de ter motivos para comemorar.

– Eu fui a primeira voz de rebeldia para mostrar que o caminho do clube não estava certo. Nós mexemos com o São Paulo, fizemos a situação lançar alguém forte como o Aidar. E ele será o presidente, não tenho mais expectativa de vitória. Não seremos uma oposição maldosa – garantiu ao LANCE! em seu gabinete na Câmara dos Vereadores.

Em meio a recortes de jornais sobre momentos marcantes da vida no futebol, cartões de ex-jogadores e amigos, livros com dedicatórias de Rogério Ceni e outros ídolos e móveis nas cores do clube, Marco falou de tudo ao L!. Assumiu os próprios erros, contou detalhes delicados da vida pessoal e encarou a relação estremecida com o presidente Juvenal Juvêncio.

– Ele sai homenageado por justas razões, por tudo o que conquistou. Mas a agenda negativa não foi posta pela oposição e nem eu quero colocar agora. Ela já foi exposta na eleição. Ficou claro quantos erros foram cometidos, mas que ele nunca vai reconhecer – acusou.

Mesmo já declarando a derrota no pleito desta quarta, Marco Aurélio Cunha confirmou presença no Morumbi com orgulho. O vereador quer fechar com chave de ouro a campanha que considera bem sucedida – recebeu 70% dos votos da oposição nas eleições dos sócios.

Eleições
Satisfeito com o resultado alcançado junto aos sócios no último sábado, Marco atribui a vitória de Aidar à ”máquina eleitoral” e à vantagem dada pelo estatuto a quem já está no poder. Além disso, lamentou não ter conseguido conquistar mais associados interessados no futebol profissional.

– Não conseguimos fazer igualdade na social. Ganhou a piscina, o tênis. A sauna está muito feliz. O futebol profissional perdeu. O trabalho deles era financeiramente insuperável e venceu. O estatuto ainda é muito preso a quem está no poder. Quem sabe um dia muda – justificou.

Juvenal Juvêncio
A força demonstrada pela oposição talvez nunca tivesse aparecido se Marco Aurélio Cunha e Juvenal Juvêncio ainda mantivessem a relação estreita que possuíam. O então superintendente de futebol foi perdendo força e abdicou ao cargo. Tentou ser amigo e conselheiro, mas garante que nunca mais foi ouvido.

- Eu tinha uma missão de ligar os jogadores e a comissão à diretoria. Ninguém sabia mais do que eu o que acontecia. Era minha obrigação passar tudo. Se ele trancava a porta, não tinha que estar mais ali. Abdiquei dos poderes, dos benefícios, da mesa farta, da mídia. Fui honesto comigo. Não fico em um lugar onde não tenho função relevante – sentenciou.

As últimas tentativas de reaproximação aconteceram em 2013. Marco diz que foi procurado por jogadores para tentar ajudar a resolver problemas dos bastidores na era Ney Franco/Adalberto Baptista. Em visita ao Morumbi, o médico afirma que Juvenal nem sequer levantou a cabeça para o diálogo e ainda permitiu que o diretor financeiro Osvaldo Vieira tomasse a frente do papo.

– Falei do time, Osvaldo disse que estava tudo bem e que não precisava de ajuda. Falei de política e o Juvenal falou: ‘Disso não falo nem com os meus’. Ali vi que não fazia mais parte de nada e fui buscar meu rumo. Ele não me queria – afirmou.

O rompimento, no entanto, não foi restrito ao ambiente político. Marco foi casado com uma filha de Juvenal Juvêncio, teve um filho e viu a relação com o garoto ficar no meio de toda a confusão profissional.

– Tenho carinho, saudade e respeito pela família dele. Fiz tudo o que eu podia fazer. Foi penoso? Foi. Está sendo penoso? Está. Mas eu estou em paz com a minha consciência. O que mais machucou talvez tenha sido o conflito com o meu filho. Muito difícil ficar entre avô e pai, relação muito próxima que ele tem com todos. Ele manteve uma linha e eu sempre fui respeitoso. Deixei ele tomar o caminho dele. Se eu fizesse diferente, eu copio o que não acho certo. Deixei meu filho ter liberdade para achar o que quis – lamentou.

Cansado de todos os conflitos com o ex-sogro, Marco Aurélio Cunha é enfático ao dizer que esgotou todas as possibilidades de reatar com Juvenal Juvêncio profissionalmente, mas manteve os laços familiares ainda amarrados.

– Já desisti. Para me ouvir agora só se for alguma coisa de família. Sobre São Paulo não falo mais – disse.

Futuro no clube?
Se manteve firmeza e coragem para assumir a derrota da oposição no pleito desta quarta e falar sobre os problemas familiares, Marco Aurélio Cunha não conseguiu – ou não quis – ser concreto nas respostas sobre o papel que pode desempenhar no São Paulo nos próximos anos.
Enquanto atendia à reportagem do L!, ainda fazia os últimos ajustes antes da eleição em rápidas conversas ao celular com companheiros de chapa. O vereador repetiu diversas vezes que não pretende ser inimigo de Aidar, mas sim um torcedor pronto para ajudar a qualquer chamado.

– Sou conselheiro por seis anos, esse é meu futuro. Minha missão foi cumprida neste processo eleitoral. O clube é uma paixão enorme ao lado da minha família. Posso ser convidado pelo Aidar, mas qual o compromisso? Qual a atuação? Tenho que ver do que sou capaz dentro de uma ideologia. Posso ajudar quando quiserem, a qualquer momento, sem nenhum cargo. Se eu não me encaixar ou não for convidado, agradeço e torço normalmente – assegurou.

Marco preferiu até não falar se tentará se candidatar à presidência daqui a três anos. Segundo ele, Juvenal crê que 60 anos de idade são poucos para ser presidente do clube.

Rogério Ceni
O goleiro-artilheiro enviou a Marco Aurélio Cunha uma edição do livro “Maioridade Penal” com autógrafo e dedicatória emocionada. O vereador exibiu o presente com largo sorriso no rosto e lembrou dos momentos vitoriosos ao lado do capitão. O riso, porém, deu lugar a expressões tensas quando a homenagem de Ceni a Juvenal Juvêncio na semana passada foi citada.

O jogo contra o CSA na última quarta-feira foi o último do presidente no cargo. O ídolo vestiu uma camisa amarela, cor usada pela situação, e entregou o uniforme ao mandatário no vestiário do Morumbi. Marco disse respeitar, com lamentações, a postura de Ceni e que foi avisado da ação previamente pelo diretor de marketing Rui Branquinho.

– Homenagear o presidente que sai não é problema. Talvez o nome nas costas fosse melhor. Usar a cor da campanha talvez seja desnecessário, mas amigo a gente não critica, a gente defende. Ele teve vontade de fazer e fez. Foi coerente com a caminhada dele de apoiar. Tem que ver o que foi pedido também – declarou.

Com a decisão de Rogério em abandonar os gramados em dezembro, Marco também aproveitou para fazer conselhos ao amigo: não tentar ser presidente e estudar muito antes de iniciar carreira de treinador.

– O Rogério pode ser comentarista, tem muito potencial de mídia, mas são portas que seriam fechadas se tentar ser presidente de cara ou se arriscar como técnico. Ele ainda não teve o aprendizado democrático da idade, porque é jovem. E todo revolucionário é jovem. Quando é velho, vira democrata – aconselhou.