icons.title signature.placeholder Gabriel Carneiro
22/11/2014
17:08

Caras feias e desânimo antes dos treinos não assustam mais o técnico Alexandre Ferreira, de 41 anos. Apesar da pouca idade e do fato de que o Botafogo de Ribeirão Preto é o primeiro clube que dirige, o treinador sabe gerenciar grupos problemáticos como poucos profissionais - inclusive os mais experientes - conseguem fazer. Até um ano antes de chegar à final da Copa Paulista, Alexandre treinava os meninos da Fundação Casa (antiga Febem, entidade que busca a ressocialização de jovens infratores) da cidade.

- Meu pai foi jogador de futebol, e minha relação com o esporte sempre foi muito próxima. Tentei jogar também, mas não consegui avançar como profissional, ficava de um lado para outro, aí decidi parar de jogar e fazer concurso público - diz, ao LANCE!Net, apresentando o início de uma história de luta para provar a força do esporte na vida de crianças que deram os "primeiros chutes" para o lugar errado.

O concurso em que Alexandre foi aprovado era para agente penitenciário na Febem, onde ingressou em 2006. Seu trabalho seria cuidar de garotos detentos por cometerem crimes graves e gravíssimos, como homicídio e latrocínio, que é o roubo seguido de morte. Mas depois de alguns meses de trabalho a direção da unidade descobriu que ele havia sido atleta, e dividiu sua função entre agente penitenciário e educador físico.

- Na época do concurso eu dava aula em escolinha e fazia faculdade de Educação Física, então foi muita coisa ao mesmo tempo. Quando descobriram isso me pediram para montar um time em que os atletas seriam os internos, como medida socioeducativa. Existe um torneio chamado Copa Casa de Futebol, que reúne os meninos das fundações. O time de Ribeirão Preto foi bicampeão - relembra o orgulhoso Alexandre Ferreira.

Treinador novato orienta comandados em treino da equipe (Foto: Agência Botafogo)

O sucesso na Fundação Casa levou o jovem treinador ao Olé do Brasil, um clube de verdade, forte na base, onde foi campeão paulista juvenil de 2009 e até dirigiu um jogo como interino do profissional, mas que não o fez desistir dos meninos em ressocialização. Alexandre conseguiu conciliar as duas atividades até meados de 2013, quando foi chamado pelo Botafogo, uma das forças do interior de São Paulo, e precisou abrir mão do que hoje considera sua maior experiência de vida.

- Foi uma escola trabalhar com os jovens internos. No início eu me questionava muito sobre conviver diariamente com praticantes de crimes gravíssimos, mas nunca vi os meninos agredindo ninguém, nunca houve uma ocorrência. E isso para mim prova a força do esporte. Jogando futebol era notável o avanço deles em relação ao psicológico, ao social... No Brasil, o esporte é uma das poucas saídas para o desenvolvimento - reflete o professor da vida.

Botafogo-SP e Santo André iniciam a decisão da Copa Paulista neste domingo, às 10h. A partida ocorre no estádio Anacleto Campanella, em São Caetano do Sul, com mando da equipe do ABC.