icons.title signature.placeholder João Vitor Xavier
21/03/2014
11:11

Neste sábado, diante do Chelsea, o homem que revolucionou o futebol inglês completa 1000 jogos à frente do Arsenal. Arsène Wenger, como o nome sugere, estava destinado a comandar os Gunners em algum ponto de sua carreira. Mas pouca gente imaginou que seria por tanto tempo e com tanto sucesso. Quando assumiu os londrinos, em setembro de 1996, o francês foi recebido com um "Wenger quem?" de um grande jornal inglês.

No entanto, pouco depois, com métodos nada ortodoxos, mudando a dieta dos jogadores e usando estatísticas para fazer as táticas do time, Wenger abriu o caminho para que outros estrangeiros fizessem sucesso no milionário futebol da Premier League.

Pelo Arsenal, o técnico conquistou três Premier Leagues e quatro Copas da Inglaterra. Em duas oportunidades, os dois torneios foram conquistados na mesma campanha (1998 e 2002). Em 2004, ele liderou os "Invincibles", o histórico time que ganhou o Campeonato Inglês de forma invicta. Seu impacto vai muito além dos títulos, como contam os depoimentos colhidos, entre eles dos brasileiros Denilson, atualmente no São Paulo, e Edu Gaspar, que virou dirigente do Corinthians.

A seca do treinador, que não leva um título desde 2005, também é comentada por seus ex-jogadores. Eles acreditam em uma virada já nesta temporada - o Arsenal está na briga pela Copa da Inglaterra e pelo Campeonato Inglês. Veja a seguir o que Arsène Wenger tem de tão especial.


Revolução

Nigel Winterburn, ex-jogador do Arsenal (era o lateral titular quando Wenger chegou)
"Ninguém sabia nada sobre Wenger. Quando Bruce Rioch saiu, todos achavam que o substituto seria um nome conhecido e vindo da Inglaterra. E aí no jornal estava escrito "Wenger quem?". Foi realmente revolucionário. Do meu ponto de vista, o treino era ótimo, mais enérgico, mais rápido. Eu gostava. O estilo de jogo também mudou. Nós sempre fomos organizados, mas Wenger nos dava liberdade para expressarmos nossas habilidades. Era muito diferente."

John Hartson, ex-jogador do Arsenal (jogou a primeira partida sob o comando de Wenger), ao "The Guardian"
"Ele parecia mais um médico do que um técnico de futebol. Mas sempre foi muito atencioso. Sabe, eu nunca o ouvi xingar. Nunca! Ele se irritava de vez em quando, ficava com o rosto vermelho, gesticulava, mas nunca xingava. Nunca."

Edu Gaspar, ex-jogador do Arsenal, atual dirigente do Corinthians, ao LANCE!Net
"O impacto de Wenger no futebol inglês vai além também da questão da alimentação. Ele vinha com dados, coisas que ninguém nunca tinha visto antes. Usava muito a estatística. Antes de cada jogo, o Wenger vinha com alguns dados fixos: por onde saíam as melhores jogadas do adversário, por onde saíam as nossas melhores jogadas e quem do nosso time pegava mais na bola. A partir daí, ele fazia a estratégia para o jogo."

Ray Parlour, ex-jogador do Arsenal (estava no time quando Wenger chegou)
"Antes do Wenger, nós tínhamos uma cultura de beber muito. Três vezes por semana aparecíamos no CT de terno e gravata. George Graham (um dos antecessores de Wenger) tentava decifrar o que estava acontecendo, mas era óbvio que íamos para o pub beber. Tudo mudou quando ele chegou. Wenger baniu bebidas no lounge dos jogadores e logo depois Tony Adams (capitão e líder do Arsenal) parou de beber."

Nigel Winterburn, ex-jogador do Arsenal (era o lateral titular quando Wenger chegou)
"A questão da dieta era difícil. Nós viajávamos e comíamos barras de chocolate escondidos. Uma vez, alguém começou a cantar "Queremos nosso chocolate de volta". Wenger apenas sorria e balançava a cabeça."

Edu Gaspar, ex-jogador do Arsenal, atual dirigente do Corinthians, ao LANCE!Net
"Eu só cheguei ao Arsenal em 2001, mas a gente ouvia histórias de tudo que ele havia feito quando chegou. Eu fiz amizade com os franceses do clube e eles falavam que antes do Wenger, os jogadores recebiam tíquetes do McDonalds para lanchar depois do treino. Era uma parceria da lanchonete com o próprio Arsenal. Quando chegou, o Wenger baniu isso e mandou que todos passassem a comer no próprio CT. Eu cheguei na boa, com o Arsenal campeão de tudo e comendo limpo. (risos)"

Com Edu (à esquerda), o Arsenal foi campeão invicto em 2004 (Foto: Arquivo LANCE!)



Filosofia

Freddie Ljungberg - ex-jogador do Arsenal, ao "Daily Mail"
"A maioria dos clubes falava sobre comprometimento, jogar duro, dar carrinhos e correr muito para ganhar um jogo. No Arsenal, aprendemos que  nossa habilidade ganharia o jogo para nós."

Edu Gaspar, ex-jogador do Arsenal, atual dirigente do Corinthians, ao LANCE!Net
"Só tenho coisas boas a falar do Wenger. Na semana da minha apresentação, perdi minha irmã. Isso, acho, é a pior coisa que pode acontecer a um ser humano. Nos primeiros seis meses de clube, ele vinha falar comigo toda hora, perguntando como eu estava, como estavam meus pais, se os ajudantes do clube estavam nos auxiliando bem. Isso deixou uma marca muito forte em mim."

Denilson, ex-jogador do Arsenal, atual volante do São Paulo, ao LANCE!Net
"O Wenger é um grande técnico, além de uma pessoa fantástica. Agradeço muito por ter sido treinado por ele no início da carreira. Ele, sem dúvida, ajudou bastante não só a mim, mas a vários jogadores em período de formação. Ele foi um grande pai fora de campo. Se preocupava com os jogadores além dos treinamentos, perguntava da adaptação na cidade, mas não cobrava e dava dura, era apenas uma pessoa atenciosa.

John Hartson, ex-jogador do Arsenal (jogou a primeira partida sob o comando de Wenger), ao "The Guardian"
"Ele mudou totalmente nossa maneira de pensar. A cultura no Arsenal era a que nós não podíamos esperar para voltar ao vestiário, trocar de roupa e ir ao pub. Com Wenger, você nos achava em um círculo no vestiário alongando após todos os jogos. Pergunte a qualquer um dos veteranos - isso adicionou dois ou três anos às suas carreiras."

Os "Invincibles" (sem a Champions)

Edu Gaspar, ex-jogador do Arsenal, atual dirigente do Corinthians, ao LANCE!Net
"A Liga dos Campeões certamente é o maior arrependimento. Podíamos ter ganhado em 2004, mas vínhamos em uma sequência muito forte. Estávamos brigando pelo Campeonato Inglês, pela Copa e pela Champions. Tivemos alguns jogos seguidos só com clássicos e chegamos esgotados no último duelo, contra o Chelsea pela Liga dos Campeões. Acho que se a gente passasse do Chelsea, com todo o respeito aos outros times, teríamos sido campeões. Mas não podemos perder o mérito do timaço que tínhamos. Fomos campeões ingleses invictos."

Freddie Ljungberg - ex-jogador do Arsenal, ao "Daily Mail" (ING)
"Até hoje, quando encontro alguns dos amigos daquela época bate aquele arrependimento. Certamente, não ter ganhado a Liga dos Campeões pelo Arsenal é o grande vazio da minha carreira. Acho que podíamos ter ganhado em 2004 e também em 2006, quando chegamos na final."

Seca

Denilson, ex-jogador do Arsenal, atual volante do São Paulo, ao LANCE!Net
"A cobrança (por títulos) vai sempre existir, principalmente por ser um clube de Londres, mas ele sabe lidar com isso. E as pessoas que comandam o

   
Denilson: 'cria' de Wenger (Foto: Arquivo LANCE!)

Arsenal valorizam o trabalho dele. Até porque ele continua lá mesmo tanto tempo sem conquistar algum título. O Arsenal taticamente é um dos times da Europa mais bem organizados dentro de campo. Joga um futebol bonito, com bastante toque e posse de bola. Acho que o time tem tudo para ganhar um título neste ano, principalmente a FA Cup."

Tony Adams, ex-capitão do Arsenal
"Um dos maiores problemas é a estrutura de salários do Arsenal. Há muitos jogadores medianos ganhando boas quantias e hoje os grandes times não fazem mais isso. Eles preferem poucos atletas, seus principais astros, ganhando muito. Acho que o Arsenal deveria fazer isso. Wenger também joga muito aberto. Ele precisa de um Patrick Vieira para jogar desse jeito, mas não tem. Tem Rosicky e Cazorla."


Legado

Denilson, ex-jogador do Arsenal, atual volante do São Paulo, ao LANCE!Net
"Infelizmente, o futebol vive de resultado. Se vencer, é válido, caso contrário é crucificado. Wenger tem muito crédito! Ele não coloca jogador na parede quando o time perde. É um treinador que sabe cobrar, sem exageros, além de não queimar jogadores com torcida e imprensa. É um cara que só dá moral. Tem todo o meu respeito."

Edu Gaspar, ex-jogador do Arsenal, atual dirigente do Corinthians, ao LANCE!Net
"Só tenho coisas boas a falar dele. Lembro do meu último dia no Arsenal, quando sentamos e batemos papo à toa por horas. Ele falou que via em mim um futuro capitão do clube. Eu falo com ele até hoje e com certeza peguei várias coisas que vi no Arsenal e trouxe para o Brasil. O esquema de olheiros que eles usam é fantástico. O seu trato com as pessoas também é diferenciado. Enfim, um treinador completo."