Igor Siqueira
02/03/2017
07:10
Rio de Janeiro (RJ)

Descartado seis meses depois de uma conquista inédita, Rogério Micale ainda sente as dores da ferida pela demissão da CBF. Ele esfriou um pouco a cabeça durante o Carnaval, acompanhando na Sapucaí o desfile das escolas de samba. No dia seguinte, abriu o coração ao LANCE!.

Micale reconhece que o resultado no Sul-Americano sub-20 foi ruim. Admite que mudanças de treinador fazem parte da cultura do futebol brasileiro. Mas criticou a condução da troca por parte do comando da entidade, especialmente por Edu Gaspar, coordenador da Seleção.

- Faltou transparência - sacramentou.

A decepção atinge até Tite, a quem não deixará de cumprimentar, mas com quem será transparente, em um eventual contato futuro:

– Surfaram na onda da Olimpíada. Estou me referindo ao Tite e ao Edu. Vemos isso claramente. O sucesso tem muitos pais. O fracasso se torna órfão.

Veja abaixo a entrevista de Micale ao LANCE!:

"Uma bola mudou tudo, resultou na demissão".

O que mais te deixou triste nessa passagem pela CBF?
Tive mais momentos de alegria do que de tristeza, não só pela Olimpíada, mas também pelo Mundial. Mesmo não sendo campeão, o time chegou à final. Fomos medalhistas de bronze no Pan. Mas a questão da tristeza acaba sobrepondo. A desclassificação no Sul-Americano foi o momento mais triste. Lutamos pelo título até o último jogo. Uma bola mudou tudo, resultou na demissão. No futebol, o importante, na maioria das vezes, é o resultado. É uma mentalidade dos nossos dirigentes. A CBF, infelizmente, é reflexo da nossa cultura. É uma pena, porque tínhamos um projeto que foi combinado com o presidente. Era importante ficar, continuar com a Seleção sub-23 para dar experiência aos jogadores. Foi aceito isso, mas depois o Edu vetou. Começo a ver alguns motivos para isso. A saída, em si, é algo normal, o resultado foi ruim. Mas não credito somente ao resultado, mas também a uma mudança de pensamento, de forma de jogar, de conceitos. Acredito que Tite e Edu estão querendo pessoas que estejam alinhadas à metodologia deles. Só faltou transparência.

"Não reclamo desse tipo de atitude. Só da falta de transparência. Surfaram na onda da Olimpíada. Eu estou me referindo ao Tite e ao Edu. Vemos claramente. O sucesso tem muitos pais. O fracasso se torna órfão".

Quais são os motivos adicionais para o veto à sub-23?
Era um projeto. Visitamos 70% dos clubes do Brasil e foi aprovado, todos acharam excelente. Temos uma lacuna entre os 20 e 23 anos. Temos jogadores parados, sem ter competição para disputar. Era uma ideia encaminhada, existia TV querendo comprar esse projeto. Hoje, vejo que era uma coisa que poderia atrapalhar a mudança que estava acontecendo (troca na sub-20 e base). A chateação também é que me mudei de Belo Horizonte para o Rio. Se soubesse antes, se fosse transparente, não teria necessidade. Mas são ciclos. Entrei com Gilmar, Dunga... Eles tiraram o Gallo. Faz parte. Não reclamo desse tipo de atitude. Só da falta de transparência. Surfaram na onda da Olimpíada. Eu estou me referindo ao Tite e ao Edu. Vemos claramente. O sucesso tem muitos pais. O fracasso se torna órfão. Quando a conduta é igualitária, a postura é a mesma na vitória e na derrota. Tive esse procedimento quando o Dunga saiu: conversei, liguei, porque ele tinha me dado oportunidade. Não estou falando de carinho, mas de ética. A troca é perfeitamente aceitável, normal, se fosse feita de forma transparente. Gerou um transtorno. Damiani tinha contrato com o Cruzeiro na mão. Eu segurei o Damiani em uma reunião. Não achei justo não ser claro com o Damiani. Mas acho que é o primeiro trabalho do Edu fora do Corinthians. Erros acontecem.

Notou que estava sendo fritado?
Quando se está no meio do processo você não quer acreditar. “Não é possível um negócio desses”, é o que se pensa. Estou desde dezembro sem falar com ninguém da comissão técnica da principal. Houve só um dia que o Cleber Xavier (auxiliar de Tite) foi lá na Granja Comary, a mando do presidente. O processo só foi acontecendo, passando os dias. Culminou com um resultado extremamente ruim, que abriu a porta para acontecer as mudanças. Juntou a fome com a vontade de comer. Como vai tirar um campeão olímpico? Tirar uma coisa que acabou de acontecer importante para o país? Tinha que ter uma situação como essa.

Se arrepende de não ter saído logo após a Olimpíada?
Hoje, sim. Olhando todo o contexto. Avaliando, sairia. Mas seria ruim para o presidente eu sair. O que ele alegaria? Que a CBF não conseguiu manter um profissional? Infelizmente eu caí na conversa, porque não coloquei nada em contrato. Confiei em palavra. Deu no que deu.

"Juntou a fome com a vontade de comer".

Qual o motivo do insucesso no Sul-Americano?
A campanha foi ruim, não conseguimos a vaga. Mas a diferença para o 2 colocado foi de um ponto. Entra aí também a imprensa que diz: “tragédia”, essas situações todas. Mas é normal. Cada um faz o seu trabalho. Se avaliarmos, em três jogos estávamos ganhando, deixamos a Argentina empatar e saímos por um ponto. A desclassificação tá aí, não tem como justificar. Agora, sobre a conduta para tomar a atitude (demissão) eu penso que não foi a melhor. Além disso olhando em termos de formação, trabalhando com um projeto de base, jogador jovem oscila. A rodagem da nossa equipe era baixa, com pouca minutagem no profissional. Um exemplo é o David Neres, em quem acredito muito. Ele tinha 90 minutos em um amistoso contra o México. A lista do Uruguai, campeão, não tinha nenhum com minutagem dessa. São jogadores com mais de 20 partidas. Mas não esperava que a derrota interrompesse o trabalho. Quando você vê pela imprensa que estão contatando pessoas mais próximas, ligadas à metodologia, à forma de trabalho, começamos a ver... Antes, na Olimpíada, tinha mensagem, apoio, incentivo. Passa um período grande que não existe mais um tipo de contato com seu dirigente... Não estou falando do Tite... Aí você começa a ver que tem uma coisa. Na semana que foi feita a dispensa, não tinha ninguém aqui. Foi tudo meio casado.

"A única conquista no período dele (Del Nero) foi o ouro olímpico".

Na conversa com o presidente Del Nero, ele te deu uma justificativa embasada?
Não, porque não tem conhecimento para justificativa embasada. Foi simplesmente, segundo ele, pelo resultado. Foi muito ruim ter ficado fora. Ele usou uma expressão que eu não gostei muito em uma entrevista, que foi “vergonhosa“. Vergonhosa é outra coisa. Porque lutamos, nos esforçamos, demos o máximo, mas não conseguimos. Até tentei abrir a conversa, passar um relatório, tudo documentado, mas a ideia já estava concebida. Quando percebi isso, agradeci a oportunidade. A única conquista no período dele foi o ouro olímpico.

Não chegaram a marcar antecipadamente para conversar nem nada...
Antes, recebi uma mensagem do diretor do RH, perguntando se eu estava na casa. Mas eu estava em Mônaco. O presidente nem sabia que eu estava em Mônaco. Só não fui demitido no mesmo dia que o Damiani porque não estava aqui.

Na entrevista à Globo, você disse que mais gente que comete erros deveria ser demitida. Foi um recado para alguém?
Foi de uma forma genérica. Se dessa forma que eles estão conduzindo, vai acontecer nesse processo todo não ser campeão, não ganhar. Se acontecer isso, vai ser demitido. A mensagem é essa. Foi a primeira campanha ruim que fizemos. A pior antes tinha sido um Pan, com time totalmente alternativo, um bronze. Qual o recado que ele passa? É que a margem de erro é zero. Quando digo isso, se for olhar pelos erros que se comete lá, a casa tinha que estar vazia. É duro. A transferência de responsabilidade é ingrata.

A mensagem do Neymar após a demissão te surpreendeu?
Não me surpreendeu, porque temos uma amizade que foi além de jogador-treinador. Recebi uma mensagem de texto, achei bacana da parte dele. Rodrigo Caio também mandou. Posso estar cometendo injustiça porque troco muito de número do celular. Os meninos demonstraram carinho.

"(Del Nero)não tem conhecimento para justificativa embasada. Foi simplesmente, segundo ele, pelo resultado".

Se voltasse no tempo, faria algo diferente no Sul-Americano?
A avaliação foi que não faríamos nada diferente. Tentamos fazer de tudo. Tinha gente machucada, sem liberação, chegamos ao limite. Até tentar convocar um meia que surgiu na Copa São Paulo. A CBF não tem força para liberar qualquer tipo de jogador. A liberação está na mão dos clubes, Se o clube falar não, não libera. Não libera Malcon, Thiago Maia, Gabriel Jesus, Douglas não veio. Em momentos decisivos, de pressão, esses jogadores poderiam fazer a diferença. Não dava para mudar o contexto. Gosto de jogo apoiado, mas os que convocamos jogavam verticalizados. Não dava para mexer muito. Era um time bom, não é porque perdeu que não presta. Por isso, após o jogo chamei a responsabilidade.

A falta de rodagem foi o principal componente para a não classificação?
Nos três últimos Sul-Americanos tivemos dificuldades. Vamos continuar achando que é o treinador. Enquanto isso, as outras seleções, como Venezuela, Equador, Uruguai... A Venezuela foi o melhor time do sub-20. Olhem a sub-17 e vejam como ela está. Mas, como muitos não entendem de base, acham que a Venezuela é a do passado e temos que ganhar de 7 a 0. O futebol sul-americano não está mudando. Já mudou. Assim como tomamos 7 a 1 e começamos achar motivo, só enxergaremos isso com mais uns cinco fracassos. Enquanto isso, troca-se o treinador.

Recebeu propostas depois da demissão?
Tenho conversas, mas nada avançado. Nada oficial. A única proposta foi da minha mulher, para jantar esses dias, ir à Sapucaí...

"Era um time bom, não é porque perdeu que não presta".

Na última entrevista ao LANCE! você citou o desejo de continuar estudando... Isso está na agenda?
No período em que ficar sem trabalhar, tenho muito a estudar. Tenho todo um material em mãos, principalmente a escola portuguesa, que, em termos de conteúdo, treinamento, domina o mundo... Isso é conteúdo. O momento agora é tentar por mim mesmo, avaliando nosso futebol, o que pode ser acrescentado. Temos de ser rápidos, dar resultado em três jogos, senão você cai. No quarto já chega balançando.

Acha que deixou algum legado?
O maior legado foi tentar ganhar buscando nossa característica, futebol ofensivo, em busca do gol. Tentando explorar a característica do nosso jogador, o 1 contra 1. Um futebol que foge do tradicional. Foi o que tentei. Em um momento, consegui. Saiu bem no primeiro Mundial, uma campanha muito boa. Depois, no Pan. Na Olimpíada, começamos de um jeito, depois mudamos. Foram duas variações. Sempre no fim dos treinos trabalhávamos com quatro atacantes. Jogamos com três atacantes, um meia. Essa forma de ter a posse de bola também. A maioria consegui, nos jogos. Alguns não deram certo.

O treinador alemão que o Brasil venceu na final olímpica foi promovido. E você, seis meses depois, é demitido. O sentimento é indignação?
Falar de indignação é advogar em causa própria, pelo momento. Parece que estou magoado. Mas falo de fatos que acontecem nos grandes centros. Vemos o nosso fazendo o contrário. A indignação é em cima disso. Até quando fecharemos os olhos para esse tipo de coisa? Agimos na contramão. É bonito falar, mas no primeiro momento que é colocada em xeque a tomada de decisão dos nossos superiores, para confrontar a imprensa, a opinião pública porque um resultado não veio, lava-se a mão e joga a cabeça da pessoa para acalmar. Quando vemos que o Löw é o técnico da Alemanha... Quanto tempo ele está lá? E perdendo. Imagina se fosse no Brasil a derrota na Euro. Teria sido mandado embora. Eu falo do Tite. Ele é um bom treinador, porque ele ganhou sete partidas. E se ele não ganhar as duas próximas? Não presta mais? Esse tipo de mentalidade.

"Quando vemos que o Löw é o técnico da Alemanha... Quanto tempo ele está lá? E perdendo. Imagina se fosse no Brasil..."

Quais objetivos para a carreira? Pensa em um dia treinar a Seleção principal?
Meu objetivo é trabalhar em um lugar que me dê condições. Tenho que obter método para conseguir resultado o mais rapidamente possível. Meu sonho é ser campeão brasileiro. Posso sonhar. Tenho muitas coisas que eu nem sonhei e aconteceram. Fui campeão do interior no Paraná, ganhei com a base em Santa Catarina, na Copa SP. Por que não sonhar com um Brasileiro e, no futuro, a Seleção?