Coletiva de Imprensa Seleção - Tite

Tite tem 20 vitórias em 26 partidas no comando da Seleção Brasileira (Foto: Pedro Martins/MoWA Press)

Luiz Fernando Gomes
08/07/2018
07:00
São Paulo (SP)

Dessa vez, não há cacos a juntar-se. Perdemos, como poderíamos ter vencido. Perdemos, pois dessa vez erramos mais, nos detalhes. Perdemos para um time organizado, uma geração de fato dourada do futebol belga. São águas passadas. O que precisamos agora é olhar para o futuro. E o futuro da Seleção começa no presente.

Desde que assumiu o comando, Tite fez soprar ventos de modernidade na Seleção. Seus métodos de trabalho sepultaram ao mesmo tempo o messianismo da família Felipão e o militarismo da era Dunga. Os números e os resultados comprovam o acerto: foram 26 jogos, com 20 vitórias, quatro empates e duas derrotas. 55 gols marcados e apenas oito sofridos. Jogadores voltaram a curtir a Seleção, e o torcedor, de certa forma, também.

Mas a questão não é apenas manter ou não Tite. Vai muito além disso. O sucesso da continuidade de seu trabalho está no que vai ser feito pela CBF, as mudanças que têm de ser feitas na estruturação do futebol brasileiro. Tite e sua comissão técnica precisam ampliar seus poderes. Devem passar a olhar por todas as Seleções de base, participar da escolha de seus treinadores, da convocação dos jogadores, da definição do estilo de jogo. É daí que vai tirar a consistência do jogo, é daí que poderão começar a redefinir algo que se possa chamar de novo de uma escola realmente brasileira de futebol.

Os exemplos de o quanto essa fórmula funciona são muitos. E nem vamos falar da Alemanha, que apesar do fiasco na Rússia e dos erros que ele mesmo reconheceu, manteve Joachin Löw na seleção dando continuidade ao projeto de renovação com olhos voltados para o Qatar. É assunto batido demais. Vamos falar, sim, do Uruguai, de Oscar Tabárez, e seus mais de dez anos à frente da seleção. Ele sim, talvez o maior exemplo do bônus que a continuidade pode dar. Professor, na essência da palavra, prepara os meninos desde a base, dá aulas sobre os valores, a história do futebol no pais, o peso da camisa celeste, a responsabilidade e os desafios de jogar na seleção e o orgulho de fazê-lo. Trabalhando em um país que tem a população que é metade do Rio, voltou a enfrentar de igual para igual os gigantes do mundo da bola. E não foi por acaso.

Os belgas, que nos mandaram de volta para casa mais cedo, são um outro exemplo de trabalho extracampo. Todas as seleções jogam igual, desde o sub-15. A ousadia do esquema 3-4-3 começa a ser aplicada nos primórdios da base. Mais do que isso, até os clubes como o Anderlecht, o Brugge e o Liége, os gigantes do país, foram instados a jogar da mesma forma. Os efeitos disso tornaram não apenas o futebol, mas o próprio país, um pouco mais forte. Numa sociedade profundamente dividida - 11 dos 23 jogadores vêm do sul e, por isso, falam francês, e 12, vindos do norte, falam neerlandês – a seleção adotou o inglês como língua oficial e conseguiu unificar-se, acabou com os grupinhos que dificultavam o trabalho dos treinadores. Não foi difícil já que 21 atuam fora do país, 11 dos quais na Premier League.

Questões sócio-políticas à parte, o fato é que no futebol globalizado de hoje não bastam o talento e a técnica – o que continuamos a ter de sobra por aqui. Mas, se o Brasil continuar a apostar nisso, vai ficar batendo na trave, com Tite ou sem Tite. As experiências de Uruguai, Alemanha, Bélgica – a Inglaterra e a Croácia poderiam ser incluídas nesse rol – contrastam com os fracassos de Argentina e Itália, por exemplo, incapazes, como nós, de desenvolver um trabalho que vá além de uma busca desordenada por resultados. É hora – ou já passou há muito tempo - de decidirmos de que lado queremos ficar.

Um momento de frustração como esta eliminação deve servir para reflexão e aprendizado – o que não fizemos após o vexame dos 7 a 1 quando voltamos ao passado, com Dunga, ao invés de fazer uma auto- crítica de fato, olhar para frente e começar as reformas necessárias. A caminhada até o Qatar é longa. No ano que vem tem Copa América por aqui, depois as Eliminatórias, a disputa pelo bicampeonato olímpico, em Tóquio. Não há, portanto, tempo a perder.