Bruno Grossi e Marcio Porto
10/06/2016
08:30
São Paulo (SP)

Todos os dias, quando chegam ao CT da Barra Funda, os jogadores e funcionários do São Paulo se deparam com uma mensagem: “Ordem não se negocia”. A frase está em papéis espalhados pelas paredes da concentração. A ideia é do técnico Edgardo Bauza, que a utiliza para ilustrar a volta por cima que deu com seis meses de trabalho, muitas críticas e pressão. Amparado pela diretoria, Bauza resistiu e agora colhe os frutos.

De candidato a eliminado na fase de grupos, o treinador argentino levou o São Paulo à semifinal da Libertadores e faz campanha digna no seu primeiro Campeonato Brasileiro, “um dos mais difíceis do mundo”, em sua avaliação.

Satisfeito com a evolução do time e de seu trabalho, Patón recebeu a reportagem LANCE! no CT para um bate-papo de quase uma hora. Na conversa, se disse totalmente feliz de trabalhar no São Paulo ao ponto de afirmar que nem um convite da seleção argentina o tiraria do clube neste momento - tem contrato até o fim do ano. Ele também falou sobre a preparação para a semifinal da Libertadores, a busca por reforços, com destaque para Alexandre Pato, de quem é entusiasta. Confira abaixo a entrevista:

Qual balanço dos seis primeiros meses de trabalho?
Um balanço por agora é incompleto, mas estou satisfeito com os avanços que mostramos. Primeiro a adaptação ao clube, onde a diretoria e toda a gente me abriram as portas e me deram a possibilidade de acostumar rápido. Isso foi fundamental. Ter um grupo de atletas muito bom, que aceitou o trabalho. A adaptação ao futebol brasileiro, que é tão complicado, porque é um futebol asfixiante, agonizante, que atenta contra os atletas e os técnicos, porque não podem trabalhar. Por isso estou satisfeito. Essa adaptação, por isso digo que estou satisfeito. Com a equipe, começamos a trabalhar com uma objetivo, sólido e efetivo. Isso conseguimos. Faz quatro anos que a equipe não ganha nada. E São Paulo por sua história demanda que brigue por todos os campeonatos que joga. Não sei se vamos ganhar, mas estamos perto. Neste sentido, demos passos à frente, está muito melhor. Se pode melhorar? Sempre. Mas estou realmente satisfeito porque no campeonato estamos numa posição de respeito, com muitos machucados e estamos entre os quatro melhores da América. De resultado tem sido bastante bom, pelo pouco tempo.

No Paulista o problema foi por ter menos informação?
Tínhamos todas as informações. As partidas, da primeira até hoje, preparamos da mesma forma. O problema é que equipe tinha pouco tempo de trabalho. E no futebol, as horas de treinamento são fundamentais. Erros, que foram sendo cometidos, conhecimento de todos os atletas. A equipe não tinha a solidez que tem hoje. Isso sucede. E já passei em outros clubes, a equipe às vezes não se encontra rapidamente, e por outras vezes passa duas partidas e a equipe não aparece. E muitas vezes temos que sair porque os resultados são negativos sem equipe aparecer. Aqui a equipe ia aparecendo, eu via isso. E falava com a diretoria, e eu dizia que ia para um bom caminho. Um feeling que tem no trato diário, eu via que a equipe ia melhorando. E o que aconteceu, partida após partida, foi melhorando, no Paulista chegamos a jogar contra o Audax, numa partida que cometemos muitos erros, e nos custou a vaga. Hoje a equipe já é diferente, isso não te dá garantias de que vai ganhar, mas te dá a garantia de que somos uma equipe difícil para os rivais. Passamos a ser difícil para os rivais. Não sei se vamos ganhar, porém o rival para ganhar terá de correr muito, jogar muito bem, porque somos uma equipe perigosa.

A diretoria diz que você é parte do planejamento, não o planejamento, e isso ajuda.
A diretoria foi me buscar porque conhecia minha forma de trabalhar. Quando cheguei ao clube, já estava em uma reforma política, e há alguns problemas políticos que eu não intervenho. Porém, minha forma de trabalhar é a mesma que tive em toda minha vida. O que dissemos foi o que a diretoria optou também e fomos muito enérgicos para colocar regras, que são fundamentais. O trabalho, os treinamentos, ordem. Se você entrar na concentração, vai ver papéis com os dizeres: “Ordem não se negocia”. A equipe pode jogar mal, porém ordem é fundamental. A entrega é fundamental, são duas coisas que não negocio: ordem e entrega. Quem não entrega tudo, está fora da equipe. E os atletas sabem. Não é um benefício meu, é do time. Não somos uma grande equipe, simplesmente somos uma boa equipe e difícil para os rivais.

O time aprende a ter "huevos" (garra, força em castelhano) ou tem por essência?
É uma palavra que parece agressiva, às vezes que não tem a valentia suficiente para jogar. E aqui não é para utilizá-la. Para mim ter huevos, quer dizer também jogar. Ficar com a bola, por mais que a pressão do adversário, da tribuna, que tenham a bola, que jogue, tem de ser valente para isso. Essa equipe é. E a ordem e entrega foi algo que a gente vem falando e incorporamos. E já faz parte deles. Eu mudaria a palavra, é equipe valente. Porque se pegou em momentos difíceis, por exemplo a jogar no campo do River Plate (ARG), com o último campeão da América, e se perdêssemos estávamos fora da Libertadores. E jogou com valentia, como em jogos que perdeu, mas se plantou com autoridade. É uma equipe valente, daqui a pouco está identificando a torcida, com uma equipe que ela gosta. Mas o melhor, não somos as grandes equipes que teve há anos atrás, com jogo bonito e tudo mais, mas é uma equipe aguerrida.

É uma entrega excessiva isso de huevos?
Um atleta é um bom jogador quando é inteligente dentro do campo e está pensando, disputar cada bola ao máximo. Não quer dizer que tem de dar uma porrada no rival para vencer. Aí entra a experiência do jogador, eu peço para que tenha entrega total mas ser inteligente para não ficarmos sem um jogador. Como foi em La Paz, duríssimo, não foi problema nosso, foi algo criado por gente do outro lado, e falei para não se envolverem em confusão, tem de ter inteligência, jogar ao máximo, mas ser inteligente.

Como passar isso para os jogadores?
À margem do papel, é uma comunicação diária, todos os dias. Em nossos treinamentos, hoje fizemos 40 minutos de futebol, são coisas normais, se já teremos experiência, se um jogador vai mal, tiro, falo, e depois sabem que tem de jogar firme, forte. E isso todos os dias, ir contagiando. O que o técnico quer é isso. Não tenho problema com isso, todos os atletas se adaptaram rapidamente.

Bauza com os garotos
Edgardo Bauza orienta os garotos em treino no CT (Foto: Érico Leonan)


Para ter essa entrega no jogo, os jogadores tem de ter entrega máxima nos treinos, é isso?
É um pouco mais complexo. A entrega tem a ver com a essência, o futebol. Um jogo de dois rivais, e que se enfrentam. Às vezes jogam melhor, às vezes mais forte, e nem sempre ganha. Em nossos treinamentos, metodologia de trabalho, e os líderes que temos. Os líderes são muito importantes, porque transmitem também esse tipo de coisa. Essa equipe tem cinco ou seis líderes, que contagiam também, para a equipe ser aguerrida, forte, tudo. E depois tudo que dizia, tudo os demais, o treinamento, o papel. A ovação da torcida também ajuda.

Você já disse que no Brasil é difícil por ter muitas diretores. Hoje você se sente respaldado pelos dirigentes?
No primeiro dia que cheguei, me senti muito confortável com a diretoria. Assim como estamos falando agora, falo com eles. Sou muito transparente, não tenho nada que esconder. Quando falo com o presidente, falo o que penso, o que vejo, quando surge algo inconveniente, conversamos para ver se podemos solucionar. Em nenhum momento senti pressão. A pressão vem por si só, porque estou no São Paulo, uma equipe de história enorme, com responsabilidade e sei que é uma obrigação que façamos uma boa companha. Essa pressão eu mesmo coloco, não precisa da diretoria.

Qual a profundidade exata da churrasqueira para fazer um bom churrasco?
O ideal é 1/4, mais ou menos 20cm, 25cm, mas há muitas formas de se fazer. Se pode fazer com uma parrilla, se pode com a chama, com lenha, se pode fazer de muitas formas, é questão... O mais importante é ter boa carne.

"Não somos uma grande equipe, simplesmente somos uma boa equipe e difícil para os rivais"

É como o futebol?
Não, futebol é mais complexo. Futebol é muito mais complexo... O futebol é a atividade onde dois mais dois não são quatro.

Como assim?
Não são, nunca são quatro. Às vezes são quatro e meio, às vezes são três e meio, às vezes são cinco. A decisão que tomo hoje, amanhã tenho que mudar. Porque isso, porque rival fez outra coisa. Futebol é uma atividade muito complexa e como é complexa, o que tem de ter muito claro é o que tua equipe tem de fazer. A partir, tem de ter variantes, jogadores inteligentes, que se adaptem, resolver situações que vão trabalhar. Por exemplo, outro dia contra o Cruzeiro, no segundo tempo tivemos graves problemas pelo lado esquerdo, na marcação.

Essa semana vocês fizeram um churrasco em retribuição ao carinho dos funcionários do CT. Já teve outro. Isso ajuda?
Ajuda em tudo, sempre ajuda. Ajuda a comunicação, a aproximação entre atletas, dirigentes e funcionários, que são muitos, acho que 80. Passamos mais horas aqui do que em nossas casas. É importante para nos conhecermos melhor, passar por momentos agradáveis. Isso forma uma equipe, porque eles também ajudam o time a funcionar. A senhora que limpa os quartos é tão útil quanto Ganso e o presidente.

Ajuda para ter o feeling de importantes mudanças, como a de colocar Ganso no banco?
Cada decisão que tomo vai ter análises. Se for bem, vai ser elogiada. Se não funcionar, será criticada. A esta altura da vida, a crítica não me incomoda em nada. Minhas decisões são importantíssimas, mas as tomo depois de estar seguro e analisá-las muito bem. Não mudo porque senti do nada ou fez um treino bom. O problema é que às vezes isso dá errado e já me peguei sem dormir dois dias pensando: “Por que fiz isso?". Isso forma um profissional. Vejo as coisas de outra maneira, não só resultado. Uma vez cheguei ao presidente do San Lorenzo e avisei que o elenco precisava de outro técnico, de outro discurso, senão não cresceria.

Quando acha que dirá ao presidente do São Paulo que seu tempo acabou?
No dia em que perceber isso. Ele será o primeiro a saber. Mas vejo hoje o time em uma etapa de crescimento permanente. Não pude contratar três ou quatro jogadores que gostaria e mesmo assim estamos nos consolidando em crescimento. Vejo esse momento bem distante, porque a comunicação com os atletas ainda é nova e está crescendo.

Christian Cueva, peruano contratado, tem jerarquia, como você gosta?
Sim. Vimos pela posição que joga, exercendo duas ou três funções ofensivas. Contra o Toluca (MEX) na Copa nos causou muitos problemas e ficamos com vontade de somá-lo ao grupo. É uma pena que não possa jogar a Libertadores. O que acontece é que precisamos pensar no clube para o resto do ano. Teremos um mês de Libertadores, faremos o impossível para ir à final, mas depois o Brasileirão segue. É um jogador importante que se somará e pensamos em mais dois.

Para a Libertadores?
Vamos ver, é a intenção, mas podem ser para o ano também. Se puder, tudo bem. Não posso falar em nomes porque causaria problemas, mas a diretoria está trabalhando sobre três opções para cada posição que precisamos neste momento.

Assistiu ao jogo do Peru contra o Equador pela Copa América? O que achou do Cueva? (Atacante marcou no empate por 2 a 2).
Sim! Mostrou o que vem fazendo, que pode jogar pela esquerda, pelo meio, direita. É um ofensivo que se adapta muito bem por ter habilidade.

"Não mudo porque senti do nada ou fez um treino bom. O problema é que às vezes isso dá errado e já me peguei sem dormir dois dias pensando: “Por que fiz isso?". Isso forma um profissional. Vejo as coisas de outra maneira, não só resultado"

E marca muito, não?
Isso precisará fazer mesmo (risos).

O histórico do Lucão preocupa? Ele ainda vai vingar?
Claro! Inclusive encara bem a torcida que o critica. Para isso estamos aqui, para acalmar os jogadores e dar segurança a eles. Um erro não tira ninguém.

Ano passado, o colombiano Juan Carlos Osorio interrompeu um trabalho aqui para treinar a seleção do México. Isso foi um pouco traumático para o torcedor. Isso pode se repetir?
Não. Não há nenhuma possibilidade. Primeiro porque ninguém falou disso neste momento. Já ocorreu em outros clubes, como San Lorenzo e LDU. Eu tenho contrato (até o fim do ano) com São Paulo e irei terminá-lo. Se quiserem, ainda renovo quando acabar. Não posso dizer que sairei porque alguém me chamou. Não posso, me daria vergonha chegar no presidente e dizer que vou sair porque o Paraguai veio me buscar. Tenho um contrato. Se quero que me respeitem aqui, tenho que respeitá-los.
(Nota da redação: Osorio saiu em meio a um conturbado cenário político, em que não tinha confiança no ex-presidente Carlos Miguel Aidar, que renunciou ao cargo por denúncias de desvio de dinheiro).

Mas tem aspirações maiores?
Claro que tenho. Dirigindo San Lorenzo recebi uma proposta do Paraguai, uma da Costa Rica e uma do Equador. E recusei as três por ter contrato. Disse que não poderia e que terminaria o contrato.

E se fosse a Argentina?
Igual! Por mais que motive mais, é igual. Passa por questões de princípios. Se eles me mantêm mesmo com duas derrotas seguidas, tenho que respeitar o clube. Estamos em pleno processo de construção de um time, que está se consolidando agora. Qualquer técnico gostaria de dirigir seu país. Mas este é um tema político e complicado. Se um dia acontecer, será bem-vindo, mas não é algo que me tira o sono. Há técnicos como Simeone (Atlético de Madrid) que, se Tata Martino sair, o que não acredito, será chamado. Tem Gallardo...

O que explica tantos técnicos argentinos nas seleções?
São fases, algo além das qualidades. Aqui no Brasil há sete ou oito técnicos de jerarquia bárbara. São fases, não indica nada. Argentinos e brasileiros podem trabalhar em qualquer parte do mundo pela capacidade que têm. Se fizerem as contas, verão que a quantidade de brasileiros fora é quase igual a de argentinos. O que muda é que tem Simeone no Atlético de Madrid e isso chama mais atenção.

Falou com Simeone sobre um possível encontro no Mundial? Ficou triste quando ele perdeu a Liga dos Campeões da Europa para o Real Madrid?
Não falei. Triste não fiquei, conheço Cholo e sei que sua equipe deu tudo o que poderia dar. Quando se atinge esses níveis, os técnicos ficam bem. Os atletas têm tanta jerarquia que decidem os jogos mais do que os técnicos. O que Cholo fez foi levá-los ao máximo rendimento. Ele queria ganhar, óbvio, mas o conhecendo vai seguir tentando e trabalhando da mesma forma.

Pensou que pode pegar o Real Madrid (ESP) novamente no Mundial? (Enfrentou em 2014 pelo San Lorenzo e perdeu).
Oxalá. Mas temos uma semifinal muito difícil contra uma equipe muito complicada (Atlético Nacional). E a final será duríssima. Estar em mundiais é especialíssimo, mas nas duas vezes em que estive peguei grandes equipes. Contra (Manchester) United enfrentamos Cristiano Ronaldo, Rooney e Tévez. E o Madrid vinha em grande momento. Seria um grande desafio, mas temos a cabeça no Nacional, grande equipe. Conheço seu técnico e será dificílimo.

E estão em desmanche?
A maioria que será vendida vai continuar no time para a Libertadores. E eles ainda vão levar mais jogadores. Boca já contratou quatro e estão buscando outro.

Crê em interferência do Boca Juniors (ARG) na Conmebol?
Não, não, não. Não porque não acontecerá. Oxalá a final seja Boca e São Paulo, porque o peso das duas equipes faria a neutralidade ser necessária. São times de primeira linha que exercem suas pressões com mesma força. Quero chegar à final, só isso que quero (risos).

Dá para dizer que você ainda tem um bom tempo no São Paulo?
Foram só seis meses e já estou muito bem adaptado ao campeonato brasileiro, difícil por rivais e calendário. Adaptei meu trabalho aos jogadores e ao calendário também e minha família está bem aqui em uma cidade complicada. Estamos seguros e tranquilos. Isso me faz feliz. Agora será uma nova etapa, complicada, pois é de consolidação. Somos uma boa equipe e difícil para os rivais, mas nos falta crescer mais.