Olga Bagatini
18/12/2016
06:30
São Paulo (SP)

A Portuguesa conquistou o carinho do Brasil no Campeonato Brasileiro de 1996. Finalista contra o Grêmio, o time do Canindé surpreendeu ao se classificar para as quartas de final, eliminar Cruzeiro e Atlético-MG e avançar à decisão. Venceu o campeão da Libertadores de 1995 com facilidade por 2 a 0, no Morumbi. A alegria, contudo, logo se reverteu em frustração.

Por ter melhor campanha, o Grêmio tinha a vantagem do empate. A Lusa sofreu a pressão no Olimpico e, ao invés de mostrar o futebol agressivo que a levou a derrotar rivais mais poderosos, a equipe treinada por Candinho preferiu se defender. Paulo Nunes abriu o placar logo aos três minutos. O time se segurou até o final, até que que, aos 39 da segunda etapa, Aílton – acionado no lugar de Dinho – acertou um chute e deu o título ao Grêmio, fazendo a Lusa perder sua maior chance de conquistar um título de expressão.

– Foi uma final inesquecível para nós. O time não era grande, mas era bem organizado e bem estruturado, incomodava as outras equipes – lembrou o ex-goleiro Clemer, ao LANCE!.

Como lembra o gremista Danrlei, a "zebra" atraiu o apoio de torcedores de todos os clubes do Brasil.

– Tirando os gremistas, todos torciam. Era David contra Golias. Todos queriam que a Portuguesinha fosse campeã, e nós acabamos tendo que jogar contra o Brasil inteiro. Respeitamos o adversário do início ao fim – disse o ex-goleiro tricolor.

O jogo de volta em Porto Alegre completou 20 anos na última quinta-feira, 15 de dezembro. Entre acessos e rebaixamentos ao longo das últimas duas décadas, a Lusa está longe de ter uma oportunidade semelhante, pelo menos em um futuro próximo. Recém-rebaixado à Série D, o clube sofre com crise política e financeira, enfrenta processos trabalhistas de ex-jogadores, conta com torcedores revoltados e ainda corre o risco de perder o Canindé, seu maior patrimônio. Uma situação que o elenco de 96 sequer poderia imaginar.

– Muito triste. A Lusa era forte, quase todos os jogadores daquela final vingaram. Acredito que o time tenha sofrido com a má administração. Faltou organização e seriedade – avaliou Clemer, campeão do mundo pelo Inter.

A final do Brasileiro de 1996 foi o mais longe que a Portuguesa chegou antes de bater no fundo do poço. Um "quase" amargo, que sempre doerá nos torcedores do time que virou xodó por contrariar a lógica, e que parece hoje tão distante da "volta por cima".

Bate-bola com Clemer
'Perdemos gols e a oportunidade de matar o jogo no Morumbi'

Quando começou o Brasileiro de 96, você imaginava que a Lusa chegaria aonde chegou?
Naquela época, ninguém apostava, ninguém imaginava que a Portuguesa poderia ter chances de ser campeã. A gente provou dentro de campo que o time era muito forte. Tanto a Portuguesa quanto o Grêmio, pelos dois jogos que fizeram, mereciam ser campeões. Seria justo dos dois jeitos.

O que faltou para a Portuguesa bater o Grêmio naquela decisão?
É difícil dizer o que faltou. Vou dizer que faltou empenho? Não faltou nada disso. Nosso time era muito competitivo. Tivemos chances de ganhar o jogo, em São Paulo, tínhamos chance de golear. Perdemos muitas oportunidades de gol. Ganhamos de 2 a 0, mas poderíamos ter metido quatro e eliminar o Grêmio aqui. Só que é futebol. Chegamos lá, para jogar a final, último jogo, e tivemos chance. O Rodrigo teve um chance, só ele, e o Danrlei, na época, e botou para fora. E aí o Paulo Nunes fez o gol logo com um minuto de jogo.
Aí o Aílton me vai e faz aquele no finalzinho - e não ia nem entrar.

Como assim, não ia entrar?
O Dinho que pediu para sair, aí o Felipão colocou o Aílton. Era uma bola que quase ia para fora numa cabeçada, mas sobrou para ele no fim. E ele aproveitou. Perdemos nos detalhes. Nosso time jogava de igual para o igual com o Grêmio, só que não era o dia da Portuguesa ser campeã, mas faz parte. O elenco nosso estava de parabéns. Não faltou empenho, não faltou luta, nosso time era bom. A maioria daqueles jogadores, quase todos, saíram para clubes grandes.

Bate-bola com Danrlei
'Sabíamos que a Portuguesa teria poucas chances no Olímpico'

Você acreditava que o Grêmio poderia reverter o placar no Olímpico?
A gente tinha o costume de amassar jogando no Olímpico. Sabíamos que a Portuguesa teria poucas chances de marcar na nossa casa, então teríamos que estar ligados o tempo inteiro. Eles tiveram mais chances no Morumbi, mas não aproveitaram. O desafio era não tomar nenhum gol, pois tínhamos capacidade para fazer dois gols.

Como foi entrar em campo como favorito para a decisão?

A gente esteve do outro lado em 95, jogando contra o Palmeiras, que era campeão brasileiro. Prezávamos pelo respeito ao adversário. O Grêmio era uma equipe grande, como mostrou na década de 90, com grandes jogadores. Tínhamos que respeitar porque sabíamos que ninguém chega a uma final de graça ou por sorte. Por serem um time de menor expressão, o Brasil inteiro estava do lado deles, mas a gente deixou isso para segundo plano e focou no campo.

Como é ver a Lusa nessa situação 20 anos depois da final?

Eu não conheço a historia, o dia a dia, mas a Portuguesa é um clube tradicional, que tem capacidade de estar na elite sempre. Só consigo imaginar que houve muitos erros de gestão, para chegar a esse ponto. Como alguém que viveu no meio do futebol, fico chateado, porque é um clube com uma história gigante. Há alguns anos, muitos atletas gostariam de ter a chance de vestir a camisa da Portuguesa, era uma oportunidade ímpar para crescer. Então é triste ver o time assim, e espero que se recuperem logo.

Esperança no futuro: presidente Alexandre Barros sonha com "volta por cima" 

Eleito presidente da Portuguesa no dia 5 de dezembro, Alexandre Barros também ficou frustrado em 1996. Ao LANCE!, o dirigente que terá a missão de reerguer o clube nos próximos anos reclamou de um erro de arbitragem na decisão contra o Grêmio.

– A maior frustração foi que a Portuguesa teve um erro grosseiro do assistente, ele marcou impedimento, mas não houve. O Grêmio não atacava, o próprio Felipão foi vaiado quando ele colocou o Aílton dentro de campo e o próprio marcou o gol do título, mas isso é o futebol – explicou.

– A Lusa tinha um elenco tão bom, tão unido, com tanta qualidade e não conquistou o título, acho que isso é frustrante – acrescentou Barros.
Agora, com o rebaixamento à Série D, ainda impactada com a crise política e financeira e sob o risco de perder seu estádio, a Portuguesa e a cúpula de Barros terão um árduo caminho a percorrer. No entanto, ele se inspira na campanha de 96 para reerguer o time Canindé.

– Esse processo (crise) é resultado de péssimas administrações. O que aconteceu em 96 não foi sorte, aquilo foi trabalho. O técnico Candinho fez ele andar. O clube só está nessa situação por incompetência de seus dirigentes. Por melhor que seja o elenco, se não souberem administrar o clube, ele vai ficar pobre – avaliou Barros, cujo objetivo é "resgatar e profissionalizar" a Lusa.

– Separar clube do futebol é essencial. E, óbvio, fazer com que a Portuguesa não seja asfixiada pela Justiça do Trabalho – criticou Barros, se referindo aos processos trabalhistas que a Lusa enfrenta.

*Colaboraram Alexandre Guariglia e Melissa Gargalis