Fellipe Lucena
28/08/2016
07:15
São Paulo (SP)

Não é raro ver torcedores do Palmeiras dizendo nas redes sociais que Moisés poderia jogar de terno e gravata, tamanha a elegância de seu futebol. O meia gosta da brincadeira e admite que ela tem fundamento, mas faz questão de ressaltar que também sabe ser um "pitbull". Sem a bola, então, saem o terno e gravata e entra o figurino de operário.

- É isso aí, mais ou menos isso (risos). Essa é minha forma de pensar. Acho que o jogador não pode pensar só no momento em que tem a bola. Claro que é importante, é o momento que decide o jogo, mas hoje em dia se você não for um operário, não se empenhar pelo seu companheiro, as coisas não acontecem. Sou um operário sem a bola, essa é minha forma de ver - disse o camisa 28 do Verdão, nesta entrevista ao LANCE!.

Com a suspensão de Thiago Santos, Cuca deve optar entre Arouca e Gabriel para fortalecer a marcação no meio de campo no jogo deste domingo, às 16h, contra o Fluminense, no Mané Garrincha. Seja quem for o escolhido, ele certamente terá a companhia de Moisés e Tchê Tchê no setor. A ótima parceria da dupla também foi tema do bate-papo na Academia de Futebol, assim como o presente que o grupo quer dar para Fernando Prass e Alecsandro, os craques que inspiram o meia e o fato de a família dele respirar futebol.

Com contrato até o fim de 2017, com opção de renovar por mais dois, o meio-campista já fala em ampliar o compromisso. Leia abaixo a entrevista na íntegra:

Os palmeirenses têm dito que você poderia jogar de terno e gravata. Gosta da brincadeira?
Eu gosto, cara. Quem não gosta de ouvir isso, né? Mas isso é quando estou com a bola. Com a bola você tem de ser mais técnico, ter mais qualidade, porque é onde se inicia o jogo. Às vezes as pessoas só veem o fim, só veem o gol, mas na maioria das vezes esse lance começa lá atrás, com os volantes que começam a jogada. Ali você tem de ter a cabeça erguida, ter bom passe, para ajudar na armação da jogada. Sem a bola tem de ser aquele pitbull, tem de estar roubando, se dedicando. Roubar a bola não é minha maior característica, mas eu particularmente gosto de me empenhar, tentar ao máximo.

Muitas vezes você acaba sendo o mais marcador do meio de campo do Palmeiras. Isso te fez evoluir na marcação?
Essa qualidade eu aumentei na Europa, é uma função que aprendi, apesar de jogar mais adiantado lá. Fiz alguns jogos como volante, mas joguei mais como meia. Via a importância de marcar. O atacante e o ponta têm um comprometimento muito grande sem a bola. É uma característica que aprendi lá, consegui desenvolver.

O quanto a passagem pelo Rijeka, da Croácia, contribuiu para a sua carreira?
Você amadurece, é conhecimento. Eu não tinha noção nenhuma de como era o país. Hoje, se me perguntarem, eu digo para visitarem, porque é um país lindo, gostei muito de morar. E sem dúvida a passagem por lá me ajudou muito nesse conhecimento tático. Nós, jogadores brasileiros, temos de entender que mesmo se a sua equipe estiver com a bola você pode ter uma movimentação que abre espaço para outro jogador. Mesmo sabendo que não vai receber a bola, você pode correr para outro jogador ficar livre. Se a gente tiver esse entendimento, essa noção de como ajudar a equipe sendo que você não vai ser a estrela maior naquele momento, o rendimento será muito melhor. Eu vejo que isso faz falta para nós, brasileiros. Qualidade no Brasil tem demais, toda hora aparecem grandes talentos. O que falta é a gente evoluir no aspecto tático e de equipe.

Você consegue citar um lance específico, um gol, em que essa movimentação tenha feito a diferença sem chamar atenção?
Cara, tem vários. Na saída de bola, o Tchê Tchê faz muito isso. A gente troca de posição para o outro receber a bola. Às vezes estou ali perto da bola, eu saio, vou para um lugar em que o cara vai me marcar, e ele vem para receber a bola sozinho. E ele faz isso muito bem. Quando jogamos eu, ele e o Cleiton, que também tem essa percepção, também jogou fora, a gente se ajuda bastante.

Falando nisso, qual é a diferença do time com o Cleiton Xavier para o time com um volante marcador, como Thiago Santos?
A qualidade de passe aumenta quando estamos eu, Cleiton e Tchê Tchê. São três jogadores técnicos, que gostam do passe curto, sabem dar um passe longo também, enfiar uma bola, e se movimentam também. Com o Thiago a gente ganha muito em marcação, sem dúvida é o jogador com mais facilidade de roubar a bola no nosso elenco e nos dá a segurança de arriscar um pouco mais. Se você perde a bola, você sabe que o Thiago está ali. É de extrema importância.

Você já formou alguma dupla como essa com o Tchê Tchê?
Já joguei com bons jogadores, que me ajudaram bastante. Joguei com o Souza na Portuguesa, joguei com o Irênio no começo da minha carreira, joguei com o Bruno Henrique, tivemos uma parceria muito boa na Lusa. Com o Tchê Tchê foi muito rápido, a gente se entrosou com uma facilidade muito grande, sem se falar muito. O estilo de jogo fluiu muito rápido. Legal ter acontecido, porque a gente também se aproximou fora de campo, a tendência é melhorar.

Algum jogador te inspira?
No futebol atual eu sou muito fã do Iniesta. Pela forma como joga, ele conduz o Barcelona, a bola passa sempre pelos pés dele, e sem a bola ele tem uma função de marcação, mesmo com tanta qualidade. É a prova de que o jogador técnico pode também cumprir uma função sem a bola. Dos jogadores que vi jogar, sempre fui muito fã do Zidane e do Alex. Cheguei a jogar contra o Alex, era fantástico o que ele fazia com a bola, a forma como ele conduzia e já se livrava da bola deixando o companheiro na cara do gol. Sempre gostei de observá-lo. O Ronaldo Fenômeno também, pela superação dele. Além de ser um grande jogador, é um exemplo de cara que teve muitos problemas e conseguiu chegar no auge. Você tem de olhar esse lado também para quando vierem os momentos difíceis.

Quando estava no Atlético-MG, o Cuca pediu sua contratação e não deu certo. Agora, vocês acabaram se encontrando por acaso. Já comentaram isso?
Às vezes, quando a gente está na roda brincando, ele fala: "Não quis ser campeão comigo lá no Atlético” (risos). Não foi porque eu não quis, eu queria, mas a Portuguesa acabou não liberando. Hoje tenho a felicidade de trabalhar com ele, é grande treinador, procuro absorver o que ele passa.

O grupo fez algum pacto para conquistar o título e homenagear o Prass depois da lesão dele?
Nosso pacto começou no início do campeonato, quando a gente falou que iria fazer de cada jogo uma final. Essa foi a nossa conversa antes do campeonato e assim tem sido. Mas é claro que quando acontecem situações como a do Prass, do Alecsandro (suspenso por dois anos por doping), você acaba adquirindo um pouco mais de força para fazer um grande campeonato e no fim eles se sentirem confortáveis, poderem comemorar. Seria muito gratificante dar um fim de ano feliz para eles.

Voltando um pouco no tempo, como foi o início da carreira?
Desde os oito anos eu tenho vida ativa no futebol, já fazia parte de escolinhas. Comecei lá no Santa Tereza, em Belo Horizonte, meu pai (Ricardo) jogou bola também, sempre acompanhei ele. Tive todas as lutas, essas histórias de ser mandado embora de clubes. Fui mandado embora do Cruzeiro, do América-MG. Depois do Santa Tereza eu fui para o Cruzeiro, fiquei dois anos e fui mandado embora. Aí fui para o América-MG, fiquei um ano e fui mandado embora. Rodei por outros clubes até voltar ao América-MG, no júnior, e aí ter sequência.

Há histórias de jogadores que foram dispensados por não serem altos ou algo do tipo. Com você aconteceu algo desse tipo?
Não, não teve nada disso. Chegaram em mim, falaram que naquele momento eu não estava servindo, que eu não seria mais aproveitado e acabei sendo dispensado. Mas não teve nenhuma historinha, foram corretos comigo.

Tem semelhança entre o seu futebol e o do seu pai?
Tem, meu pai jogava nessa posição, era volante. Eu acompanhava, ficava vendo jogar e tomei gosto pela posição. Acabei me fixando.

Ele chegou a ser profissional?
Meu pai era um pouco mais pegador, mais o estilo do Thiago (Santos), marcava muito bem. Eu sou um pouco mais técnico, mas onde ele jogava, no interior, nos terrões, ele sempre teve muita moral. Ele chegou a tentar ser profissional, se não me engano em São José do Rio Preto, mas logo no começo já desistiu.

É um conselheiro para você?
Sem dúvida, tanto ele quanto meu irmão (Matheus), que também joga. Ele é goleiro do Braga, também assiste muito aos meus jogos, dá umas dicas, pergunta o que está acontecendo, porque estou fazendo uma função ou outra. Ele está na Europa, vê como funciona taticamente, me dá umas dicas que ele pega com um treinador ou outro. São meus dois conselheiros.

Seu irmão sempre te acompanhou na tentativa de ser jogador profissional?
Ele também começou cedo, mas não levava muito a sério. Ele ia, mas não era muito compromissado. Eu sempre gostei de treinar. Quando foi chegando perto do profissional e eu comecei a alavancar minha carreira ele tomou gosto também, estava perto dos 15 anos. Ele acabou indo para o América-MG, eu também estava lá. Eu no profissional, ele no juvenil, e acabamos ainda sendo relacionados em um jogo juntos. Era a estreia do Novo Independência. Ele ficou no banco e eu saí jogando. No intervalo teve a troca de time, saíram os 11 que estavam jogando e entraram outros 11. Ele entrou e eu saí, mas foi legal.

Jogar com ele é um sonho?
É um sonho nosso jogar juntos, viver juntos. Nós vivemos muito longe da família, seria maravilhoso estar na mesma cidade, no mesmo clube. É um sonho meu, dele e dos nossos pais também.

"Não tenho pretensão de sair agora. Inclusive no fim do ano já com sentar com o pessoal, quem sabe renovar por mais tempo", disse

Acha mais provável que vocês joguem juntos no Brasil ou no futebol europeu?
Ah, é muito difícil falar. Eu estou vivendo um grande momento aqui no Palmeiras, não tenho pretensão de sair agora. Inclusive no fim do ano já vou sentar com o pessoal, quem sabe renovar por mais tempo. É um clube em que me adaptei muito bem, tenho carinho muito grande e estou muito feliz. E ele também está bem lá, gostou da cidade, está jogando a Liga Europa, o time está muito bem, então não dá para prever. Espero que esse sonho se realize.

Como está sua situação contratual?
Eu tenho mais um ano, até o fim de 2017, mas com opção de renovação para mais dois. Estou feliz, é um clube que me tratou super bem, me dá toda a estrutura para trabalhar. Espero ficar aqui por muitos anos.

É sua melhor fase na carreira?
Acho que é o momento em que estou mais maduro. Já cheguei a uma certa idade, não sou tão jovem (28 anos). Já tenho uma experiência, um amadurecimento muito grande. Hoje estou em um clube de muita história, mais visado. Quando você se destaca todo mundo fala um pouco mais, então tem de procurar aproveitar isso, essa estrutura, essa história, o peso da camisa do Palmeiras. A forma de desfrutar disso é trabalhando muito.

A repercussão no Palmeiras ajuda a ampliar essa sensação de que é seu melhor momento?
Isso não tem como negar, a proporção aqui é muito maior. Tanto para cima quanto para baixo. Se você for bem em um jogo amanhã está todo mundo falando, todo mundo te viu. Mas se você for mal o mundo cai na sua cabeça. Você tem de saber administrar o lado bom e o ruim, não deixar se influenciar por um jogo bom, quando todo mundo vai encher sua bola, e nem se deixar abater quando não for feliz.

Como é sua relação com a torcida? Vemos que você interage bastante com eles.
Eu vejo, acompanho, gosto de interagir com o público. Às vezes um “bom dia”, um “oi” que você dá para uma pessoa, para uma criança, já leva uma felicidade enorme. Eu sei porque fui criança, já fui na porta de clube pegar assinatura. Algumas brincadeiras a gente pega, outros falam coisas nada a ver, te xingam. Às vezes você posta foto com sua esposa, em um jantar, e tem cara falando que você tem de estar em casa pensando em futebol. Tem de saber administrar, não perder o foco.