Palmeiras Paulistão 1996 (foto:PAULI PINTO/AE )

Acompanhado de Cafu e Velloso, Amaral ergue a taça do Paulista, conquistado há 20 anos (foto: Pauli Pinto/AE)

Olga Bagatini
02/06/2016
10:05
São Paulo (SP)

Apenas três titulares do Palmeiras não balançaram a rede na campanha do título paulista de 1996, na qual o clube marcou 102 gols. São eles o goleiro Velloso e os volantes Flávio Conceição e Amaral. Ao LANCE!, o "coveiro" - como era conhecido pelos amigos por ter trabalhado em uma funerária na juventude - disse não se importar por ter passado em branco nesse quesito. Ele prefere ser lembrado pela postura defensiva e marcação forte, que permitiram que o Verdão sofresse apenas 19 tentos em 30 jogos.

- Não fico triste por não ter feito gols. A gente brincava que, se a bola passasse do meio de campo, eu ia voltar a pegar defunto. Meus gols eram as bolas que eu roubava. Jogava duro. Eu era o pedreiro, quem carregava a massa, enquanto meus companheiros só colocavam os tijolos - afirmou o ex-jogador, lembrando de uma reclamação dos colegas artilheiros.

- Os caras reclamavam que tinham marcado três, quatro gols, e eu, que não fazia gol, que sempre era eleito destaque da partida. Fui o melhor jogador em campo em várias ocasiões naquele campeonato - acrescentou. 

Embora tenha defendido outros clubes grandes, como o rival Corinthians, Amaral ainda guarda um imenso carinho pelo clube que o formou. Ele acredita que o título conquistado há 20 anos, quando ainda dava os primeiros passos no profissional, foi essencial para o desenrolar de sua carreira. 

- Aquela taça foi fundamental. Me fez ganhar a confiança dos dirigentes e da torcida, me levou para a Seleção Brasileira. Se não tivesse sido campeão, talvez nem vingasse como jogador. "O coveiro veio aqui para enterrar o time", Já tinha até piada pronta. Mas deu certo. Devo tudo ao Palmeiras - reconheceu. 

Memórias da campanha de 1996, salário inicial baixíssimo, "bicho" que bancava as contas, relação com Luxemburgo, reação da torcida após vê-lo defender o rival e visão do 7 a 1. Conheça outras histórias de Amaral na entrevista abaixo. 

Bate-bola com ex-volante Amaral:

Como era o Luxemburgo nos bastidores em 1996? 

Ele sempre falava que se a gente levasse a campo o que ele passava no quadro, conseguiria ser campeão. Mas ninguém achava que ia ser da maneira que foi., Surpreendeu muito, o time era uma máquina de fazer gols. Se algum jogador achava que devíamos mudar nossa forma, o professor falava para seguirmos suas instruções, porque ele podia levar méritos, mas era a gente que ergueria a taça. Luxa dava palestra, mexia com nosso brio, a gente entrava em campo e queria vencer. Foi isso que fez o Palmeiras ser grande.  

Quais suas principais lembranças daquele campeonato?
Lembro que foi ali que eu comecei a ganhar dinheiro com futebol. Meu salário não passava de 500 reais. A gente recebia bicho pelos resultados positivos, e muitas vezes era um valor mais alto. Ajudava bastante. Eu morava no CT, embaixo da arquibancada. Comecei a ganhar dinheiro e pude realizar meu sonho de comprar uma casa para minha mãe, poder ter um carro.

Hoje é possível ver um time fazer 102 gols em 30 jogos?
Talvez sim, se o time for bem formado. Mas o que o Palmeiras tinha era Seleção. Hoje o Brasil vive muito carente de jogadores. Se nessa época ainda tivesse um time como aquele, iam simplesmente colocar a amarelinha na equipe do Palmeiras. Todos eram de alto nível.

Com o Palmeiras de 96 nos dias de hoje, haveria 7 a 1?
Seria o contrário, nós faríamos 7 a 1 na Alemanha.

O que faltou para o Palmeiras ganhar a Copa do Brasil há 20 anos?
O time foi desmanchando. Teve aquela final contra o Cruzeiro, eu errei, o Velloso errou, a gente estava muito confiante, achando que conseguiria um bom resultado. Chegou no Parque Antárctica e a gente já tinha até combinado como ia festejar o título. Teve salto alto e a gente perdeu.

Se a equipe não tivesse se desmanchado, teria vencido o Brasileiro?
Com certeza. A gente vinha de conquistas, estava confiante e unido, o time era bom. O Campeonato Brasileiro ia ser uma teta. 

Como seria a campanha de 96 se fosse disputada no Allianz Parque?
​Seria um espetáculo, uma verdadeira obra de arte ver nomes como Rivaldo e Müller desfilando em um estádio como esse. Totalmente diferente.

Você jogou em outros grandes, como o Corinthians. Como é sua relação com o Palmeiras? Ainda é reconhecido pela conquista?
Tenho um carinho muito grande pelo Palmeiras e a torcida gosta de mim até hoje. Sempre vou ver os jogos junto com a Mancha Verde, e eles falam que eu sou o único que jogou "do outro lado" e tem moral com eles, porque honrei a camisa do Palmeiras. Quando estava no Corinthians e teve aquela briga com o Edílson (no Paulista de 1999), só entrei para apartar mesmo. A gente vê o reconhecimento, está colhendo agora tudo o que plantou lá atrás.