Ministro do Esporte, Leonardo Picciani, ao lado do secretário de Alto Rendimento, Rogério Sampaio (Foto: Francisco Medeiros/ME)

Ministro do Esporte, Leonardo Picciani, ao lado do secretário de Alto Rendimento, Rogério Sampaio (Foto: Francisco Medeiros/ME)

Igor Siqueira
14/07/2017
07:25
Rio de Janeiro (RJ)

Acostumado a derrubar adversários e tenho uma medalha de ouro no currículo, o ex-judoca Rogério Sampaio mudou de escritório no Ministério do Esporte. Ele está de saída da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem para assumir a Secretaria Nacional de Alto Rendimento. Sampaio bateu um papo com o LANCE!, acompanhado pelo ministro Leonardo Picciani, e falou sobre o próximo desafio na gestão pública, especialmente por conta da responsabilidade de gerir o setor afetado pelos cortes orçamentários.

Como foi receber a missão de cuidar da Secretaria de Alto Rendimento?
SAMPAIO: Recebi com surpresa o pedido de demissão do Luiz Lima, que é um amigo. Fiquei surpreso quando fui convidado também, mas logicamente feliz por ter o nome lembrado pelo ministro. Na carreira esportiva e na gestão pública, o que move é o desafio. Assumimos com desafios a serem atendidos. É isso que vai me estimular. Espero trabalhar dessa maneira nos próximos meses.

O que há de desafiante e de meta para o setor neste momento?
SAMPAIO:
Temos uma dificuldade que é a limitação de recursos. O país vive em um momento no qual o desafio é fazer com que os programas aconteçam, apesar da limitação. A Rio-2016 deixou legado de estrutura, de profissionais mais bem formados, atletas mais bem preparados. O desafio é manter o padrão para 2020. Temos os programas Bolsa Atleta, Bolsa Pódio... Conseguir manter esses programas é o desafio e a meta. Tem também a manutenção dos equipamentos olímpicos. Temos que continuar no caminho de organização de grandes eventos, que são importantes economicamente, na formação de gestores e trazem empregos.

"Tivemos um contingenciamento de 53% do orçamento do Ministério do Esporte. O orçamento existe, mas tem parte bloqueada", diz o ministro.

Estamos na metade do ano. O que resta de orçamento?
LEONARDO PICCIANI:
Tivemos um contingenciamento de 53% do orçamento do Ministério. O orçamento existe, mas tem parte bloqueada. No nosso caso, 53%. Isso impacta fortemente na nossa capacidade de investimento, mas não é uma exclusividade da pasta. É uma questão da conjuntura nacional. Mas temos a sinalização do Ministério do Planejamento que haverá descontingenciamento. Isso vai dar um fôlego para o segundo semestre. No primeiro semestre, mesmo assim, já asseguramos todo o recurso do Bolsa Pódio, da manutenção dos equipamentos olímpicos. Com o recurso descontingenciado, vamos fazer o edital do Bolsa Atleta para 2018. Neste ano, ele já está sendo executado. O que é obrigação nós vamos fazer. Vamos deixar de fazer algumas coisas que gostaríamos, algumas obras, investimentos de infraestrutura... Vamos fazer um edital de apoiamento às confederações. Evidentemente, se tivéssemos mais recursos, ele seria maior. Mas o que é obrigação nós faremos. Definimos que três projetos são base e preservamos: Bolsa Atleta, gestão dos equipamentos olímpicos e o Segundo Tempo.

O Ministério tem a Rede Nacional de Treinamento como grande aposta para o futuro. Há a prática, com locais de treinos, mas também a parte teórica. Como vê esse programa?
SAMPAIO:
Ela tem como objetivo fazer com que todos os interessados no desenvolvimento do esporte – técnicos, atletas, entidades, clubes – conversem por meio de uma plataforma. O desafio do Brasil é a dimensão do país. Outro dia me perguntaram se era importante fazer determinada obra em um estado do Nordeste. Acho que todo mundo tem o direito de ter instalação esportiva adequada e que dê um caminho de desenvolvimento. O esporte tem a capacidade de mudar o caminho da vida das pessoas. A Rede Nacional é extremamente importante e tem potencial de se desenvolver nos próximos anos e se tornar um dos pilares propulsores do esporte nacional. Ela foi criada por um projeto de lei em 2011, mas só agora foi dado início. Ela integra o esporte educacional ao de alto rendimento.

PICCIANI: Está na fase da contratação da empresa de software. É para conseguir integrar essa base de dados e dar acesso, como se fosse uma rede social, a todas essas informações. O conteúdo é importante. Ele também vai nortear o Ministério sobre a demanda esportiva em cada região. Em determinada cidade, pode ser que pensemos que o interesse é por judô, mas é handebol. O atleta também poderá procurar se há determinado clube, treinador de algum esporte. Vai fornecer o papa e trocar informações. Vai permitir que o jovem atleta de judô possa mandar uma mensagem ao Rogério Sampaio com algum questionamento.

Após a Rio-2016, duas confederações tradicionais, ao invés de “puxarem a fila” para maior organização, tiveram mais problemas ainda. Falo da de Desportos Aquáticos e Basquete. Como lidar com isso?
SAMPAIO:
Você tocou em duas confederações que tiveram problemas, mas temos outras que continuam dando resultado, organizadas e se desenvolvendo. É natural que algumas se desenvolvam mais e outras tenham problemas. Existem regras e leis a serem obedecidas. Cabe a nós fazer com que regras sejam cumpridas. As confederações apresentam os seus estatutos. A lei limita reeleições, fala sobre transparência, consultoria. Isso tudo o Ministério acompanha. A ideia é que possamos aprofundar as regras de governança. Tenho bom relacionamento com os presidentes de confederação, conheço o trabalho e vejo que elas vêm atendendo aos dispositivos. Não é uma relação de subserviência, mas de quem quer o melhor para o espore brasileiro. O Ministério sozinho não vai conseguir isso. Precisamos da comunidade, atletas, COB... Temos que buscar a união, diálogo, criando regras para que o sistema se desenvolva.

Há tanto para ser resolvido no momento. Mas já há olhos para Tóquio-2020?
SAMPAIO:
Se você ganha uma Olimpíada, você comemora uma semana, mas já começa a trabalhar pensando na próxima. O atleta olha e vê 2020, mas tem uma série de campeonatos antes, melhorar no ranking. O Ministério também. Olhamos na frente e vemos a importância da participação brasileira. Mas antes temos uma série de degraus. Estamos esperando, por exemplo, o descontingenciamento para atender aos atletas. No ciclo de 1992, as empresas estatais começaram a apoiar o esporte brasileiro. Era Banco do Brasil, Caixa, Correios... O resultado não foi bom. Duas de ouro e uma de prata. Em 1996, foram 15, 16 medalhas. Ou seja, o investimento veio a médio prazo. Daí a importância de mantermos o investimento para 2020. Sou otimista. Estamos olhando para frente, mas temos ainda alguns degraus a passar

Como avalia seu tempo à frente da ABCD?
SAMPAIO:
Acho que consegui fazer um bom trabalho, porque encontrei terra arrasada quando cheguei. O Laboratório estava suspenso, tínhamos um compromisso de criar o Tribunal de Justiça Antidopagem, mas o desenvolvimento nem tinha começado. Os agentes de coleta de sangue e urina não tinham como receber pela falta de um processo jurídico. A Wada estava colocando a faca no pescoço para cumprirmos procedimentos que não tinham sido feitos. Conseguimos trazer desenvolvimento dentro das regras e das leis. O número de controles, mesmo em um período em não conformidade, é recorde. Construímos uma relação de confiança e credibilidade junto à Wada.