Michel Castellar - Especial para o LANCE!
31/03/2017
07:00
Rio de Janeiro (RJ)

Em um tom que oscila entre a irritação e a descontração, o ex-prefeito do Rio, Eduardo Paes, contestou todas as acusações de que o legado esportivo deixado pelos Jogos Olímpicos e Paralímpicos está abandonado. E até recorreu à
expressão “fake news” usada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para classificar uma informação publicada pela imprensa de notícia falsa ou manipulada. De Nova York, por telefone, o político não fugiu de qualquer tema e falou tanto sobre as dívidas deixadas pelo evento quanto as investigações da “Lava Jato”.

Desde que saiu da prefeitura, Paes foi para a cidade norte-americana, onde passou a ministrar palestras e prestar consultorias. Ele também tem viajado por vários países para cumprir suas tarefas pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), para o grupo C40 (organização que reúne prefeitos das principais cidades do mundo) e uma empresa chinesa de energia.

Por que o Parque Olímpico Rio-2016 está abandonado?
Isso não é verdade. Não existe abandono. As arenas permanentes estão mantidas e têm sido utilizadas. O que é do poder público está sob cuidados e esse é o nosso legado esportivo: as três Arenas Cariocas, o Centro de Tênis e o Velódromo, além do Boulevard. Não tem abandono.

Os problemas são visíveis.
Não tem. Falam muito da pisicina. Desmontamos a piscina do Centro Aquático. Uma foi doada e, a outra, guardada. Se tem um buraco lá, não é minha culpa. Aquilo é área privada. As pessoas têm de saber a diferença.

Mas a prefeitura tinha responsabilidade na gestão e continua a ter.
Volto a dizer: o Centro Aquático e a Arena do Futuro (handebol) estão em área privada. Se há um buraco lá, a responsabilidade da prefeitura é a de notificar o proprietário para que ele tape. Mesma coisa é o IBC/MPC (Centros de Transmissão e de Imprensa). Se existem vidros quebrados ou o prédio está abandonado, é com o dono dele. Ou querem que a prefeitura, agora, cuide de um bem privado?

Só que a promessa era a de utilização do Parque Olímpico logo após os Jogos.
Tem de dar tempo ao tempo. Isso é uma cobrança absurda. Os dirigentes do COI (Comitê Olímpico Internacional) estão bobos com o que ouvem. O exemplo de sucesso que eles usam atualmente para o mundo, é o Rio.

Cobrança absurda? Mas foi o senhor que projetou a utilização do Parque Olímpico logo ao término dos Jogos.
Em janeiro, comecei a tomar cacete por causa do legado. E isso mostra um pouco a má vontade. E ela continua. Essa má vontade sempre existiu com o Rio. Diziam que não iríamos ganhar a sede e, depois, que não faríamos os Jogos. Essas coisas demoram um tempo e não poderiam ser cobradas após quatro meses.

Acontece que o senhor prometeu.
Tentei licitar o Parque Olímpico mas não houve interessados. Ganhamos os Jogos com um cenário econômico, a economia brasileira quebrou e o plano que a gente elaborou de legado era com uma outra situação. Por isso, a cobrança, logo após quatro meses do fim dos Jogos, é excessiva.

Então, a culpa foi da economia brasileira?
Estamos em um momento complexo tanto econômico quanto político e mesmo assim fizemos grandes Jogos. Poderia estar, confortavelmente, atacando o prefeito Crivella (Marcelo), dizendo que ele abandonou tudo, mas não é verdade. Com o momento que passamos, o Ministério do Esporte assumiu. O Parque Olímpico já foi usado algumas vezes e um novo projeto está em elaboração. Até ele ser consolidado, é preciso esperar um pouco. (Nota da redação - Desde que o Ministério do Esporte assumiu já foram realizados um evento de vôlei de praia no Centro de Tênis e um para crianças da rede municipal, na Arena Carioca 1).

Esperar até quando?
Temos um novo plano de legado. O Ministério do Esporte assumiu e precisa de tempo. Se daqui a um ano nada acontecer, aí podem cobrar. Isso não se faz da noite para o dia. Tenho fotos do Parque de Londres
abandonado dois anos após os Jogos e a mesma coisa aconteceu com o Estádio Olímpico deles! A cobrança é válida e deve existir. Mas o que estão fazendo com o Rio é “fake news”. No carnaval fui ver como estava o Parque, por isso, sei de suas condições.

As cobranças estão baseadas em fatos. Por exemplo, a Arena do Futuro, do handebol, prevista para ser transformada em quatro escolas permanece sem qualquer tipo de intervenção...
Tanto a Arena do Futuro quanto o Parque Olímpico são arenas temporárias que seriam de competência do privado montar e desmontar, após a licitação. Como já disse, a licitação fracassou. Agora, o governo federal vai pagar e a prefeitura irá fazer a montagem e desmontagem. Isso já foi acertado.

O senhor tem conversado com o prefeito Marcelo Crivella?
Sim. Temos trocado mensagens e, inclusive, ele elogiou o trabalho feito no Boulevard Olímpico. Disse que tem a intenção de usá-lo. E isso é mais uma prova de que nada está largado.

Acredito que tenham debatido sobre o rombo de R$ 76 milhões nas contas do Comitê Organizador dos Jogos Rio-2016. Dinheiro que a entidade cobra dos cofres municipais?
Fiz um convênio para fechar as contas dos Jogos Paralímpicos no valor de R$ 150 milhões. O Comitê gastou R$ 30 milhões. Só que era impossível dar mais dinheiro a eles, porque não prestaram conta dos R$ 30 milhões. E foi até bom, porque em dezembro eles me pediram R$ 120 milhões e, agora, você está dizendo que eles querem R$ 76 milhões. Acho que o valor pode cair ainda mais.

E como resolver essa questão financeira do comitê? A prefeitura vai pagar?
Reconheço que a prefeitura e o governo do Estado são garantidores do déficit do comitê. Mas, primeiro, não devo nada a eles. Volto a dizer que não poderia ter pago o que me pediram porque eles não prestaram contas. Se realmente tiver um déficit, faço questão de explicar tudo ao prefeito Crivella.

O senhor sempre destacou que o legado mais importante para o Rio eram os de infraestrutura, como as linhas de ônibus expresso – BRTs, o VLT ou os piscinões da região da Praça da Bandeira. Mas, com o fim dos Jogos, as obras do BRT Transbrasil (ligação entre Deodoro e Centro) pararam.
O que aconteceu foi que, com o fim próximo do meu governo, os empreiteiros queriam mais dinheiro do que o combinado para a execução das obras e não aceitei pagar. Por isso, resolvi paralisar e deixar para o prefeito Crivella negociar com eles.

Por falar em empreiteiros, as investigações promovidas pela “Lava Jato” têm desmontado vários esquemas de propinas pagas a políticos na disputa por obras públicas. O senhor teme ser afetado pelas investigações em andamento?
Isso é algo que temos de aguardar e ver se me acusam de algo. Mas garanto que nada pedi em troca tanto em relação às obras quanto a contribuições para campanha.

As obras olímpicas estão livres de qualquer suspeita?
Fizemos coisas inacreditáveis na organização dos Jogos do Rio. Obras que melhoraram a vida das pessoas e não temos um escândalo nelas. A única que teve (dúvidas) foi em Deodoro (o Ministério Público Federal acusou o consórcio responsável pelas obras – Queiroz Galvão/OAS – de irregularidades no valor de R$ 128,5 milhões no serviço prestado), mesmo assim, bloqueamos o pagamento, apesar de discordar dos argumentos apresentados pela acusação do MP. Como disse, somos exemplo para o mundo e toda a comunidade esportiva tem reconhecido isso.

Os Jogos acabaram, mas politicamente ainda vemos as secretarias municipal e estadual de Esporte como instrumentos de barganha partidária. Nada mudou. Isso não prejudica a criação de projetos esportivos estratégicos para as duas esferas de governo?
Não vejo problema em ter um político como gestor de qualquer área. Já vi políticos que conduziram melhor uma pasta do que qualquer um profissional do esporte. O que acredito é que as pessoas confundem a massificação do esporte com o esporte de alto rendimento. Ao município cabe essa massificação. Somente em meu governo, 650 mil crianças tiveram acesso à pràtica esportiva em vários projetos, muitos motivados pelos Jogos Rio-2016. Massifiquei a construção e utilização das Vilas Olímpicas e ainda criei os GEOs (Ginásio Experimental Olímpico).